Archive for Novembro 29th, 2007

Eco da sedução do antigo Jardim do Éden

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Introdução  

 “Homem de Deus, há morte na panela!” Esse grito de alerta registrado nas Escrituras, por incrível que pareça, é tão atual e pertinente, quando analisamos o pão, que tem sido repartido a partir de muitos púlpitos evangélicos brasileiros, ainda com fortes resquícios da teologia que invadiu de maneira insidiosa o cristianismo nas últimas décadas.  A capa de colocíntidas parece estar agarrada às folhas de muitos sermões e às aulas de seminários e de Escola Dominical. Nossa própria linguagem revela-se impregnada de termos que bem denunciam a presença contaminadora do desvio doutrinário. Ainda que trabalhos de reconhecida importância tenham sido publicados alertando quanto ao perigo da chamada Teologia da Prosperidade, sempre convém lançar alguns grãos a mais de farinha – e cremos que muitos ainda serão necessários – até que o veneno seja dissipado.  Filha da Pós-modernidade, sem a preocupação de esconder a origem, a Teologia da Prosperidade avançou rapidamente com suas afirmativas de que: pobreza é pecado, de que o pobre está debaixo de maldição, assim como aquele que se acha enfermo; Deus nos quer fazer a todos ricos nessa Terra; o homem possui o direito de gozar uma vida terrena de pleno sucesso e o fato de ser cristão lhe outorga o direito de requerer tais coisas a Deus, sob o risco (para quem?) de que sua fé Nele seja posta em dúvida. 

 1. Proposições afirmadas pelos pregadores da Teologia da ProsperidadePara quebrar toda e qualquer resistência a essa seqüência de inverdades, seus pregadores costumam iniciar suas prédicas advertindo os ouvintes de que:  

a) Estão debaixo de uma poderosa, nova e infalível revelação, normalmente citando algum encontro especial, seja por visão, arrebatamento, sonho ou com o próprio Senhor;   

b) Advertindo sobre o perigo de não receber a palavra pregada como vinda da parte de Deus – muitas vezes exortando o público a não cometer pecado contra o “Espírito de Deus”;  

c) Alertando quanto à “ação do Diabo”, que começará a por dúvidas acerca da pregação;

d) Pedindo que se rejeite a “religiosidade” e se aceite o “novo de Deus”;  

e) Diante de qualquer resistência, assumem uma postura superior, como se a profundidade da revelação fosse apenas privilégio de certos “iniciados”;  

f) Concentrando toda a responsabilidade pelo fluir ou não da manifestação espiritual almejada na falta de fé dos ouvintes.  Não é preciso dizer que gerou um imenso número de ovelhas feridas, decepcionadas com Deus, consigo mesmas, com seus pastores, iludidas por promessas, presas às dívidas – contraídas em irresponsáveis “atos de fé” – e que se vêem sem respostas para seus problemas, enquanto  alguns encontraram, nesse caminho, o meio de seu enriquecimento pessoal.  Vale lembrar que o Senhor da Seara a tudo observa e que, um dia, todos nós prestaremos contas de nossa administração. É com este temor, além do zelo por aqueles que nos foram confiados como discípulos e do amor que arde em nossos corações e que nos faz clamar diária e constantemente: “Livra-me de errar!”, “Livra-me de pecar contra Tua Palavra!”, “Livra-me de pregar outro evangelho!”, que nos detemos mais uma vez para meditar sobre os perigos desse nada novo desvio.   

 2. Antigas Raízes.   

Para a sociedade industrializada, repleta de bens de consumo e vazia de ideais, faltou, num determinado momento, uma teologia que justificasse, no coração do crente, o atirar-se ao meio competitivo em que vivia, sem que isso lhe gerasse conflitos interiores.  Era necessário trazer novos valores e, para que fossem aceitos, revesti-los de biblicidade. A resposta foi uma teologia que coloca palavras de estímulo à posse nos lábios “do próprio Deus”. Junte-se a isso que tal conselho era o que o homem queria ouvir. Embora atrelada em sua manifestação à era Pós-moderna, na qual encontrou o pluralismo, o relativismo, a  mentalidade empresarial, podemos dizer que as raízes dessa teologia são mais distantes no tempo.   A concupiscência dos olhos, estimulada pela sedução satânica, abriu a porta do caminho à cobiça já no Éden. Enquanto a indução sussurrava dúvidas à Palavra de Deus e às suas intenções, os olhos de Eva se enchiam antecipadamente do prazer de possuir. “…cada um é tentado pela sua própria cobiça, quando esta o atrai e seduz. Então a cobiça, depois de haver concebido, dá à luz o pecado; e o pecado consumado, gera a morte” (Tg 1.14-15); “Cobiçais e nada tendes” (Tg 4.2). Nada ter é, paradoxalmente, o ganho daqueles que investem sua vida em construir celeiros para amealhar bens materiais. O convite ao desvio, ainda que atribuído a Deus, nada mais é do que um eco da sedução no antigo Jardim. 

3. Perigos da Teologia da Prosperidade   

3.1. No propósito de sua existência (Ter versus Ser)Quando se esquece de sua gloriosa criação, o homem fica preso à civilização do espaço em que vive, e onde o poder material triunfa. A civilização do espaço subsiste por seus monumentos, por aquilo que se vê.  Nisso está a glória de seus participantes. Desejosos de manipular e de construir um nome, fazem dos objetos seu maior objetivo. Esquecem-se de que a tudo o que fez o Senhor chamou de bom, mas a um só, ao homem, deu domínio sobre as coisas criadas (Gn 1.26). 

3.2. No alto preço a pagar (Meios versus Fins). Para possuir é preciso alcançar. Os métodos utilizados para isso acabam por ferir a ética cristã, uma vez que a cobiça acaba por minar resistências morais. O homem, então, não se importa em mentir, roubar ou jogar. “A bênção”, aparentemente, não está mais em ganhar o pão com o suor do trabalho honrado, mas em “se dar bem”, não importa por quais meios.   Quantos casais têm abdicado de oficializar sua união junto ao altar por não abrirem mão de alguma pensão ou pecúlio? Quantos resistem às exortações contra os jogos de azar? Quantos criticam o ensinamento bíblico dos dízimos e ofertas ou utilizam-se da prática como barganha para com Deus? Que dizer dos altos preços de algumas “participações” em cultos? Nesses e noutros terríveis exemplos algo de muito mais valioso que o dinheiro foi perdido – a aprovação divina.   Alguns, no desejo de obter riquezas, votaram ao Senhor que, se os abençoasse, investiriam na obra missionária. Muitos prosperaram financeiramente, mas nem todos retornaram com as mãos cheias de gratidão. Ninguém precisa possuir muito para dar muito. Duas moedas  podem ser uma riqueza incomensurável. “Disse-lhe o senhor: Muito bem, servo bom e fiel; foste fiel no pouco, sobre o muito te colocarei: entra no gozo do teu senhor” (Mt 25.23). 

 3.3. Na relação com Deus (Senhorio versus Serviço). A experiência do filho pródigo, antes um ávido possuidor, depois um humilde servo, deveria tocar os defensores da Teologia da Prosperidade. Servir a Deus é um privilégio a nós concedido. Ele é Senhor e o único Deus. A fina ironia expressa no Salmo 82 tem sido, muitas vezes, interpretada  como uma declaração da divindade do homem. Era a postura do pródigo antes de sua conversão: cheio de si, requerente, determinista. Ao pai cabia, segundo sua visão, o dever de atender suas petições. Afinal, era filho. Filhos e herdeiros, devido ao sacrifício do Filho de Deus, que assumiu a “forma de servo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz” (Fp 2.8), temos a consciência de que é mister servi-lo, pois Ele é Digno. Não há, em Deus, obrigação de atender nossas petições, embora o faça por sua graça e misericórdia.  Determinar a Deus que faça, impor-lhe respostas e prazos assemelha-se mais à postura da criança mimada ao bater os pés e a fazer muxoxos. “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para esbanjardes em vossos prazeres” (Tg

4.3).  Ao longo da caminhada cristã, quantas vezes glorificamos a Deus por não ter atendido a uma determinada oração? E quantas vezes fomos agraciados por respostas muito além de nossas expectativas? Portanto, longe de ser um gesto de incredulidade, acrescentar um se em algumas de nossas orações é uma rendição ao Soberano, reconhecendo que, embora  fazendo a Ele conhecidas todas as nossas petições, somente Ele sabe o que é melhor para nós.  

Assim, oraremos por curas que se realizarão e por outras que o Senhor não fará realizar. Alguns idosos de muitos dias serão levantados dos leitos e crianças de poucos dias, por vezes, morrerão. Não nos foi dado especular, mas orar com fé, sabendo que nenhuma oração a Deus volta vazia, mas que algo superior está sendo efetuado mesmo antes de nós pedirmos. É preciso resgatar a postura de entrega humilde que o pródigo conseguiu conquistar: “Faze-me como um de teus trabalhadores!” (Lc 15.11-32). 

 3.4. Na relação com o próximo (Possuir versus Partilhar). Um dos mais terríveis danos da Teologia da Prosperidade está em que minou de muitos filhos de Deus a bênção de partilhar, não apenas seus bens materiais, mas suas alegrias e dores. “Alegrai-vos com os que se alegram, e chorai com os que choram. Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos” (Rm 12.15-16).   A orientação bíblica foi trocada, em muitas vidas, por uma postura de acusação ao próximo. Assim, se o irmão está doente é porque pecou. Se estiver em dificuldade é porque não tem fé. Se seu carro foi roubado é porque há algo de errado em sua vida. Se um casal gerou um filho portador de alguma deficiência, logo está debaixo de maldição. Arrazoando, buscando causas ocultas, perderam aquela sensibilidade de achegar-se ao ir-mão, dividir um sentimento e emprestar a voz em concordância às suas petições.   Em alguns ministérios, pessoas que estejam passando por problemas de saúde são impedidas de orar pela cura de outra pessoa, entendendo-se que está sob peso espiritual. Quedemo-nos a pensar no Senhor ferido na cruz, com seu lado traspassado, jazendo, e, naquele instante, estendendo seu poder curador a todos nós. Também lembremos de que somos chamados a consolar os outros com as mesmas consolações com que temos sido consolados. Em lugar de pensar no irmão enfermo como alguém sob um jugo, que tal pensá-lo como estando debaixo de tremenda unção fortalecedora, consoladora e, Deus sabe, curadora?  Também quanto aos bens materiais, não sei se houve, em outra época da história da Igreja, igual quantidade de carros, casas, sítios, etc, declarados “consagrados”. Parece que trocamos o simples gesto de consagrar a vida, entendendo que, conseqüentemente, todo o restante estaria consagrado, e passamos a fazer uma “consagração por parcelas”. Porém, quando o mesmo carro se torna necessário para conduzir uma irmã grávida, acompanhada de seus filhos, de volta para casa depois do culto, num dia de chuva, por vezes, a consagração é esquecida.    

4. Perigos para a Igreja   

4.1. No centro de sua mensagem (Homem versus Cristo). Nossa mensagem é cristocêntrica. Tudo o que se distanciar disso também está distanciado da Bíblia e precisa retornar ao alvo original. A mensagem da Teologia da Prosperidade é humanista. Seu centro é o desejo do coração do homem, esteja ele controlado ou não por Deus.  O teólogo Ricardo Gondin declarou: “Hoje, por mais que se prometa que Deus resolverá todos os problemas e que as pessoas alcançarão a autêntica felicidade, as multidões permanecem passivas diante da pregação do Evangelho. Por quê? Usamos os métodos errados?… Por que os métodos evangelísticos usados hoje não têm a força das cruzadas de Charles Finney? Qual o segredo de John Wesley que evitou na Inglaterra um derramamento de sangue semelhante ao da Revolução Francesa?” A resposta não está nos métodos, segundo esse autor conclui, mas na mensagem. Não fomos chamados para apregoar que todos os homens devem vir a Jesus para receber saúde, dinheiro, casa própria, casamento…  Somos testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Pregamos o arrependimento dos pecados, o perdão e a reconciliação com Deus mediante o sangue de Jesus. Anunciamos a Vida Eterna. Convidamos a uma vida de separação e serviço.   Nossa mensagem não é moderna ou pós-moderna. Mas é infalível e eterna. A pregação da prosperidade pode ser desejada por pessoas de países com grandes dificuldades financeiras, mas desprezada por países com boa infra-estrutura na área da saúde, moradia e educação, embora em muitos deles seja uma maneira de supremacia econômica sobre os outros.  O Evangelho é a necessidade do homem em qualquer tempo, condição e lugar. O problema primordial do homem é o pecado.   Certa senhora buscou auxílio em uma igreja para a cura de uma terrível ferida em sua perna, que a afligia há anos. Uma irmã, comovida com aquele terrível sofrimento orou. Pelo poder de Deus, a senhora foi imediatamente curada, podendo ser visto o fechamento da ferida e a restauração do tecido atingido. Alegres, a irmã e suas companheiras de oração convidaram aquela senhora a uma entrega a Jesus. A resposta foi negativa. Perguntada se sabia quem lhe havia curado, se estava claro que o poder emanara do Senhor e que Ele, amorosamente, a convidava a receber algo muito mais precioso, a resposta continuou a mesma: “Sei quem me curou. Mas não o quero…”   Não podemos perder de vista que há uma chaga maior e mais terrível do que a que podemos ver – a chaga do pecado na alma, para a qual somente Jesus tem a cura. “Vendo-lhes a fé, Jesus disse ao paralítico: Homem, estão perdoados os teus pecados” (Lc 5.20).  5.2. Em sua missão (Monumento versus Templos para Deus). É com alegria que vemos um belo edifício, construído para que ali se reúna o povo de Deus. É reconfortante ver o resultado do esforço de irmãos dedicados que, com seus dízimos e ofertas estão procurando fazer o melhor pela obra. Sabemos, porém, que uma bem arquitetada construção não é o objetivo primordial da Igreja.   Cabe a nós o cumprimento da Grande Comissão e, para tal, não podemos poupar recursos. Num estabelecimento de prioridades, o luxo, a suntuosidade, enfim, a já citada aparência, que a  sociedade do espaço persegue, não podem falar mais alto que os campos já brancos para a ceifa. Esse é outro e gravíssimo resultado da Teologia da Prosperidade. Não apenas pessoas estão buscando o proveito próprio, mas igrejas deixaram as indicações prioritárias do Reino, trocando-as por um fazer incessante em “Jerusalém” e reservando para a “Judéia”, Samaria e os confins da Terra’ apenas as sobras, quando existem.  Talvez não possamos mensurar o abalo que a Teologia da Prosperidade causou, nestes últimos anos, nos campos missionários. Ocupados em realizações monumentais, denominações deixaram de enviar obreiros aos campos ou os fizeram retornar. Outras, ainda, é custoso admitir, deixaram de corresponder às expectativas daqueles que um dia enviaram. Perderam a cosmovisão, trocaram-na por outra, tacanha e fragmentada – pós-moderna. Pode-se compreender que, eventualmente, falte aos cofres da igreja o necessário para a compra de Bíblias. O que é difícil de ser entendido é que se gaste tanto em granitos ou acrílicos que não sobre o suficiente para uma caixa de folhetos para a evangelização. Cada homem que se rende aos pés da cruz é um templo amado de Deus e lugar, por ele escolhido, para sua habitação. É a planta que lhe é mais confortável, a que lhe dá a mais ter-na satisfação.  Se nos deixamos envaidecer por grandes estruturas, corremos o risco de deter o melhor em vidas humanas para sua manutenção. Dessa forma, em lugar do melhor ser entregue para o campo, é mantido para fazer funcionar a obra local. Entendendo que a regra é: “dai e ser-vos-á dado”, o que também se aplica a recursos humanos.

5.3) Em sua estrutura (Organização versus Organismo). Surge uma lógica corporativa na qual busca-se a produtividade; focalizam-se os sistemas de organização em detrimento da comunidade. Assim, instala-se uma filosofia fabril para substituir o investimento em vidas, onde a lógica é a da competição e não a da compaixão; os números, o dinheiro e a lucratividade sobrepujam a nutrição de vidas com a Palavra de Deus”. Competência, visão empresarial, lucro, são palavras que rondam reuniões ministeriais influenciadas pelos novos ventos. Jesus passou à condição de mercadoria e as ovelhas à condição de clientes. O mundo, como clientela em potencial, precisa ser atraído por superproduções que em nada devem ficar devendo aos chamados shows.   ü Igreja – corpo ou empresa. Todos perdem em conseqüência da falta de visão de corpo. Um organismo vivo, organizado, afetivo, moral, onde cada um é importante para a edificação do outro. Igreja-corpo se, por um lado, requer trabalho e atenção, também retribui seus obreiros e membros, que crescem juntamente. A igreja-empresa apenas exaure. Os obreiros se dão à exaustão para depois serem repelidos por conta de sua “baixa produtividade”. Mesmo aos entusiastas da Teologia da Prosperidade está reservado dias difíceis, quando não estiver mais dando o retorno esperado, quando não der mais “ibope”. “…vós sois Corpo de Cristo…” (1 Co 12.27). 

 5.4. Em sua postura profética (O que o homem quer ouvir versus o que Deus quer falar). A Igreja não pode perder, jamais, a condição de ser instrumento para a proclamação da vontade de Deus na Terra. Sua mensagem, caríssima, não foi dada como objeto de compra e venda ao mercado. Nem sempre ela atende àquilo que o homem quer ouvir, mas ao que o Senhor faz proclamar, por seu terno amor ao homem que criou. Falsas bênçãos são, em algumas ocasiões, “ofertadas” às igrejas em troca da divulgação de nomes com propósitos políticos ou comerciais. Nesses momentos, o preço do sangue deve clamar mais alto, fazendo outras dádivas parecerem pequenas. A obra do Senhor tem sido feita por pessoas humildes e fiéis, aqueles de quem fala a Palavra: “Vi os servos a cavalo, e os príncipes andando a pé como servos sobre a terra” (Ec 10.7). Preguiça (Pv 6.6-11), inveja (Sl 85.68), avareza (Pv 28.22), extravagâncias e vícios (Pv 20.13; 23.21), apostasia, catástrofes naturais, injustiças sociais, podem estar entre as causas da pobreza. Mas há um fator supremo que foge à compreensão do homem. É Deus quem  empobrece.  É Deus quem enriquece. Mesmo a distribuição dos talentos na parábola  não foi equânime. Não terá correspondido à capacidade administrativa de cada um? A Palavra nos ensina que os pobres sempre estarão entre nós. Ela também nos orienta sobre a melhor maneira de administrar os recursos e estimula-nos a dar socorro aos necessitados.  Mesmo um simples copo d’água oferecido é segurança de recompensa  nos céus. Pastor Isaltino Coelho Filho declarou, em conferência: “Dinheiro não enche a alma de significado”. É um recurso que usamos para executar, na Terra, nossa verdadeira missão. Não é um fim em si mesmo, e os que dele fazem senhor, encontram em Mamon um ídolo tirano e cruel.   As adorações – ao Deus vivo e a Mamon – são mutuamente excludentes. Alguém que pensa estar prestando um duplo serviço se engana e acorrenta sua alma com algemas eternas (1 Tm 6.7-8).  A simplicidade das pombas e a prudência das serpentes são uma forma segura de caminhar nestes dias de fartura de pão, mas também de parras bravas e até de colocíntidas. “Eis que esta foi a iniqüidade de Sodoma, tua irmã: soberba, fartura de pão, e próspera ociosidade teve ela e suas filhas: mas nunca fortaleceu a mão do pobre e do necessitado” (Ez 16.49).    

BIBLIOGRAFIA

A BÍBLIA ANOTADA. Versão Almeida, Revista e Atualizada. São Paulo: Mundo Cristão, 1994.  

GONDIN, R. Fim de Milênio: Os perigos e Desafios da pós-Modernidade na Igreja. São Paulo: Abba, 1996.  

ALMEIDA, A. Teologia Contemporânea – A influência das correntes teológicas e filosóficas na Igreja. Rio de Janeiro: CPAD, 2002.  

SPROUL, R. Filosofia para Iniciantes. São Paulo: Vida Nova, 2002.  

COELHO FILHO, I. A pós-modernidade, um desafio à pregação do evangelho. Conferência apresentada aos pastores do Sul de Minas Gerais. www. ejesus.com.br. Arquivo 2929, 2002.  

HESCHEL, A. O Shabat – seu significado para o homem moderno. São Paulo: Perspectiva S.A., 2000.  Texto publicado originalmente na Revista OBREIRO, Ano 26 – nº 26, pg.25-29.  

Autora: Sara Alice Cavalcanti. Formada em Letras pela UERJ, professora de Hebraico e Literatura Hebraica, Especialista em História e Cultura Judaica e colunista do jornal Mensageiro da Paz

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Pentecostal, não esotérico

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Marcus e eu tremíamos. Diante do austero Conselho da nossa igreja, respondíamos sobre nossa recente experiência pentecostal. Em oração, eu e ele havíamos falado em línguas estranhas; experimentado o que os teólogos chamam de “glossolália”. Há vinte e cinco anos, a questão carismática havia rachado muitas igrejas batistas, presbiterianas e metodistas. Alguns líderes de nossa igreja não queriam correr riscos. Sentamos em um semi círculo e, seguindo todos os trâmites canônicos da denominação, foi-nos cobrada uma nova profissão de fé.

Ficava patente para nossos inquiridores que não só criamos como também éramos pentecostais. A morna madrugada cearense se arrastava pesada quando, exaustos, percebemos que não havia reconciliação. Acabamos forçados a pedir afastamento da igreja. Passados tantos anos, nossos traumas foram curados. Desde então, a minha primeira e tão querida igreja mudou muito. Alguns elementos pentecostais que provocaram nossa exclusão foram incorporados à sua liturgia; há mais abertura doutrinária também. Duvido que hoje fossemos julgados com tanto rigor. Ironicamente, agora escrevo questionando sobre novas práticas e posicionamentos teológicos no pentecostalismo. Percebo um neo-carismatismo brasileiro muito diferente do que conheci. Acredito que muitas igrejas, identificadas hoje como pentecostais, estão teologicamente muito próximas de um misticismo pagão. Distantes da teologia clássica, incorporaram valores de uma espiritualidade esotérica. Com certeza, há fortes segmentos de um novo pentecostalismo que não caminham com o que a igreja primitiva chamava de “doutrina dos apóstolos”. Urge mostrar que é possível ser pentecostal sem ser esotérico. Recentemente, aguardava minhas malas na esteira de um determinado aeroporto. Uma senhora evangélica me abordou afirmando que se dispunha a orar por uma pessoa amiga. Pediu-me que intermediasse o encontro. Respeitosamente, respondi-lhe: -Lamento, mas não tenho acesso a essa pessoa. De pronto, ela me respondeu: -Pedi seu auxílio porque sei que posso ajudar. Depois, acrescentou: -Desenvolvi uma técnica de oração que, tenho certeza, dará certo. Em sua sentença, percebi os perigos que ameaçam os evangélicos brasileiros. Esse conceito de técnica é mais pagão que bíblico. O paganismo se firma na premissa de que há energias soltas no cosmo. O aprendizado de técnicas e rituais capacitam as pessoas a instrumentarem essas energias em seu próprio benefício. O pagão prescinde de relacionamentos com a divindade. Seu deus pode ser indiferente e frio. Basta que se canalizem essas forças autônomas e até a divindade se obrigará a elas. Igrejas que ensinam aos seus crentes orações prontas, valem-se de amuletos e divulgam métodos para “conseguir” bênçãos de Deus, não são pentecostais ou evangélicas, mas versões cristianizadas do esoterismo do fim de século.  Meus primeiros passos nas igrejas pentecostais foram intensos.

Atravessávamos madrugadas “buscando” a Deus. Quantas vezes, encharcando o chão de lágrimas e suor, suplicávamos com fervor que a sua vontade se cumprisse em nossas vidas. Algumas vezes, exagerávamos. Recordo-me de um amigo que, de rosto em terra, afirmava que preferia morrer a sair daquela reunião sem ser tocado pelo Espírito Santo. Em muitos sítios evangélicos hoje, a atitude parece ser outra. Resumem-se em desenvolver fórmulas de alcançar milagres. Infelizmente são poucos os eventos organizados para que as pessoas simplesmente busquem ser cheias de Deus. Questiono se ainda há espaço para oração em que não se desejam resultados práticos, apenas estar mais perto de Jesus. A possibilidade de ser tocado pelo sobrenatural empolgou meus anos juvenis. Lembro-me que eu relegara ao passado a possibilidade de milagres acontecerem. Foram os pentecostais que me lembraram que podemos não apenas testemunhar, como experimentar o toque sobrenatural do Espírito Santo.

Disseram-me que o seu poder me revestiria de virtude e que eu, a partir daquela experiência, seria consumido por um novo zelo missionário. Busquei e pedi que Deus me enchesse do seu poder porque desejava testemunhar dele com novo ardor. Senti-me invadido pelo transcendente em um culto de vigília promovido por nosso grupo da Aliança Bíblica Universitária. Meus objetivos de vida mudaram. As religiões místicas também buscam experiências sobrenaturais. Não contesto que o fenômeno das línguas estranhas também já se evidenciou em alguns redutos espíritas. O argumento pentecostal é que o contato sobrenatural do Espírito Santo impulsiona para missões. A experiência pagã com o sobrenatural é ensimesmada. Deus não nos toca, não nos plenifica e não nos revela o transcendente somente para nos arrepiar. O esotérico busca paz; quer sentir-se melhor sem compromisso para o serviço. O cristão busca servir; quer ser instrumento capaz nas mãos de Deus.

Devemos olhar com cautela as reuniões em que as pessoas são arrebatadas, jogadas ao chão, tomadas de riso e de choro sem desdobramentos posteriores no servir ao próximo. Alcebíades Pereira Vasconcelos, pastor e pensador pentecostal, escreveu: ”Também a unção do Espírito Santo nos enche de poder para testemunhar…Cheios do Espírito, podemos anunciar o Evangelho de poder, a tempo e fora de tempo (2 Tm 4.1-5)…Inflamados por esse fogo, seguiremos avante dando testemunho a pequenos e a grandes (At 26.22) daquilo de que somos testemunhas, a saber, da ‘razão de ser de nossa fé’”. Aquela reunião em que me confrontavam sobre a autenticidade de minha experiência com os dons do Espírito Santo, permanece vívida em minha memória. Ainda inexperiente e sem muita bagagem teológica eu não sabia argumentar o que me sucedera. Entretanto, estava consciente que minha vida havia mudado. O toque de Deus gerara em mim novos valores. O pentecostalismo sempre creu que o poder do Espírito Santo e santidade são inseparáveis. Donald Gee, inglês e precursor da teologia pentecostal afirmou: “Não há base bíblica para crer que um avivamento que só recebe o Espírito Santo como inspirador da Palavra ou da ação, e não da santificação pessoal também, continue no seu poder. ‘Entristecer’ o Espírito de Deus por falta de santificação (Ef. 4.30) com certeza termina também na ‘extinção’ do Espírito de Deus na sua manifestação (1 Ts 5.19). O plano divinamente equilibrado revelado no Novo Testamento é onde o Espírito Santo se assemelha na origem tanto do fruto como do dom; e para as duas fases da nossa redenção Ele é bem vindo e obedecido”.  Neste crepúsculo secular experimenta-se um avivamento de um misticismo pós-moderno. Tenho um amigo que estudou com um professor de lógica na faculdade de Filosofia que lecionava segurando um cristal. Sabe-se de ex-militantes da Teologia de Libertação profundamente envolvidos com um panteísmo que os inspira a adorar a “mãe terra”. Há evangélicos crendo em “mau olhado”, amuletos e no poder de um copo d’água ungido. Com tanta abertura para o transcendente, convém lembrar que é possível crer na contemporaneidade dos dons do Espírito Santo, cura divina, milagres, anjos e exorcismos, sem ser esotérico. Basta não abandonar a Bíblia como única regra de fé e prática.  

Continuaremos fieis ao cristianismo histórico, se nossos cultos buscarem nos levar a um relacionamento mais profundo e verdadeiro com Deus; nossa fé desdobrar se em serviço e a expressão de nossa vida cristã estiver marcada por caráter e não sucesso.  A identidade evangélica no próximo milênio, dependerá de nossa habilidade em distinguir uma coisa da outra. Que Deus nos ajude. 

Soli Deo Gloria.

Autor: Ricardo Gondim, teólogo e pastor da Assembléia de Deus Betesda

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Neo-pós-pseudo-pentecostalismo!

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O objetivo dessas observações é mostrar a tragédia que o movimento neopentecostal fez e está fazendo no meio evangelical, seja no pentecostalismo clássico, seja nas igrejas fundamentalistas-reformadas.

A expressão “neo-pós-pseudo-pentecostalismo” ¹ foi cunhado por Robinson Cavalcanti e designa muito bem o movimento neopentecostal ou carismático². O neopentecostalismo erra em muitos pontos e se afasta a cada dia do protestantismo histórico. É bom observar que há teólogos respeitados, como Luís Sayão, que acreditam em uma restauração doutrinária dos neopentecostais, Sayão comentou que: “Todo o mundo critica o movimento neopentecostal. Devemos avaliá-lo sociologicamente. Em breve eles sofrerão mudanças e buscarão uma sedimentação”³. É de se esperar que essa sedimentação aconteça logo e tomara que realmente aconteça! A abordagem desse texto é mostrar os principais defeitos no neopentecostalismo.

  

a) O neopentecostalismo desenvolve uma espiritualidade sem vínculo.

  

A excessiva valorização de catedrais, mega-ajuntamentos, grandes eventos , cultos midiáticos e similares; mostra que o neopentecostalismo desenvolve um espiritualidade sem ligação eclesiástica, ou seja, as pessoas vão a igreja como se fossem ao shopping-center, vão buscar algo e não entregar, tem vínculos mercantilistas e não comunitários. Ricardo Gondim fez uma ótima observação em relação ao assunto:

  

Os neopentecostais desenvolveram uma espiritualidade “templista”, sem vínculos comunitários. Sacralizam-se os prédios, valorizam-se os mega ajuntamentos, mas não se promovem relacionamentos. As pessoas se sentem sozinhas e autônomas no meio de uma multidão. Vão à igreja como quem vai a qualquer lugar público, sem sentimento de pertencimento.4

  

Dentro desse contexto é muito comum o trânsito religioso. Hoje o sujeito é de uma igreja, amanhã já de outra denominação. Há líderes neopentecostais que chegaram a fundar duas denominações diferentes.

Há não somente uma falta de vínculo comunitário, mas também, falta vínculo doutrinário, litúrgico, de ethos (costumes) e tradições. Sendo que o maior perigo é a falta de base teológica e ou doutrinária. Muitos neopentecostais, continuam com crenças herdadas de uma religião ou seita que anteriormente ele tenha participado. A falta de discipulado, infelizmente, é comum em todos os ramos do evangelicalismo, principalmente no neopentecostalismo, e ainda há um desprezo muito grande pelo ensino da Palavra. Os neo pentecostais não investem em escola dominical, cultos de ensino, classes de discipulado, seminários teológicos etc.

  

b) o neopentecostalismo desenvolve um pregador arrecadador e não doador.

  

A principal preocupação para um bom “pregador” neopentecostal, não é o seu domínio das ciências bíblicas, juntamente com uma vida devocional exemplar, mas sim, o seu domínio na retórica da oferta. Em uma famosa denominação neopentecostal no Brasil, você só pode ser ordenado ao ministério pastoral, se a sua congregação arrecadar mais de 5 mil reais por mês em dízimos e ofertas. Qual será a pregação principal de um sujeito sob tamanha pressão? Certamente que será ofertas, dízimos, desafios de fé e teologia da prosperidade. Uma congregação de bairro de não dá “lucro”, é fechada imediatamente pelos “bispos” de algumas denominações neopentecostais. Será que a construção de templos é uma preocupação evangelísticas e de bem-estar da igreja local ou mais uma fonte de arrecadação? Não é nem preciso responder! A absurda compra de “cura-divina” por meio de ofertas, é comum em algumas igrejas neopentecostais. São cartões de oferta com valores de 10, 20, 50, 100 reais, sendo que os valores mais altos recebem “orações mais fortes”. Não seria essa prática uma indulgência moderna? Esses “profetas” neopentecostais sem aproximam a cada dia do sectarismo.

Em que consiste alguns cursos para líderes em igrejas neopentecostais? As matérias principais de muitos desse cursos, não é teologia sistemática ou exegese, mas sim, técnicas de marketing.

O papel pastor-ovelha, dentro desse contexto “templista”, é substituído pelo modelo empreendedor-cliente. Igrejas neopentecostais, normalmente, não possuem seminários, mas apenas cursos esporádicos de retórica ou métodos de marketing, como acima observado. O obreiro neopentecostal não é uma pessoa treinada para ser líder de uma igreja local, mas sim, de ser o mais persuasivo com aqueles que o visitam. Não existe ovelha, e os pastores nem podem ser chamados de pastores, pois normalmente são itinerantes. Um itinerante não tem a possibilidade de ter ovelhas, logo, não é um pastor.

  

c) o neopentecostalismo tem, a teologia da prosperidade, como a principal pregação.

  

O conceito de “Deus papai-noel”, cunhado no passado pelo teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer, homem que lutou contra o secularismo eclesiástico de seu tempo, expressa muito bem a realidade materialista do movimento neopentecostal. A cosmovisão neopentecostal tem dificuldades de contemplar o futuro, o céu, a salvação, a redenção; palavras com esperança, espera, paciência, perseverança não fazem parte do vocabulário imediatista dos neopentecostais. Imediatismo é a filosofia dos pregadores do aqui-e-agora, é a bênção rápida e eficaz em pregações pragmáticas, ou seja, “pregações que funcionam”.

Sempre a teologia da libertação é colocada como uma visão comunista do cristianismo, da mesma forma, a teologia da prosperidade é uma versão capitalista de um evangelho distorcido, que busca riqueza e bens terrenos, em detrimento do que os bens celestiais. Junto com a teologia da prosperidade há um mal igual, que é o triunfalismo. O triunfalismo não aceita derrotas, infortúnios, doenças, perdas, pois é o evangelho do “só vitória”. Infelizmente, alguns pregadores que dizem ser pentecostais, são triunfalistas de carteirinha, sendo essa uma característica neopentecostal que tenta deturpar o pentecostalismo clássico.

  

d) o neopentecostalismo prega o ter em vez do ser.

  

A pregação sobre moralidade, santidade, caráter, Fruto do Espírito são deficientes no meio neopentecostal. O ter é mais valorizado do que o ser. É muito difícil pregar contra a ambição, a sedução das riquezas, o engodo da soberba nos púlpitos “universais”. O verdadeiro cristão na cosmovisão neopentecostal é aquele que passou da pobreza para a riqueza. Será a riqueza evidência de prosperidade? A prática mostra que não, pois o segundo homem mais rico do mundo, o bilionário Bill Gates, é um ateu! Será que Gates é mais espiritual que um pobre cristão africano sem almoço para esse dia?

  

e) o neopentecostalismo valoriza excessivamente a sua liderança.

  

Ouvir rádio evangélica, com poucas exceções, pode ser uma verdadeira tortura para aquele que busca a ortodoxia no cristianismo. É comum, na vasta programação neopentecostal, ouvir liderados referir-se a sua liderança como: “o apóstolo da fé, grande homem de Deus, o maior evangelista do século, o nosso bispo primaz, o homem que faz e acontece etc”. É uma verdadeira idolatrização da liderança, que se segue sem um senso crítico, mas em um caminho cego.

Muitos líderes, sem caráter, no neopentecostalismo, são acusados dos mais diversos crimes, como estelionato, curanderismo, lavagem de dinheiro etc. Os fiéis dessas igrejas, na maioria das vezes, são indiferentes as claras acusações e preferem atribuir esses problemas a perseguição da Rede Globo ou do próprio Diabo. É comum, alguns desses líderes, se compararem aos apóstolos, que foram perseguidos por causa do evangelho. Um sofisma que muitas vezes funciona, infelizmente!

 Em denominações neopentecostais não há conselhos de doutrina, concílios para decidir os rumos da denominação. Em uma denominação neopentecostal, o líder-fundador é quem decide tudo, desde da forma litúrgica, passando pela doutrina e até o destino das finanças. É uma liderança incontestável, um líder que está acima de tudo e todos, que não presta contas a ninguém. Uns mais espirituais, dizem que ninguém pode tocar “nos ungidos de Deus”, ou seja, se colocam acima dos demais espiritualmente. Os pastores e obreiros menores nessas denominações imitam a oratória, os gestos, a maneira de se vestir dos seus líderes.

A “renovação apostólica” é um novo modismo que mostra a colocação acima da crítica dos líderes neopentecostais. Primeiro veio os bispos, quebrando uma tradição protestante de não inventar cleros acima de leigos, como no catolicismo romano. Depois veio as bispas(sic) e agora tem os “apóstolos”, há notícias de pastores que agora são chamados de “arcanjo”. É muita aberração para pouco espaço! Um famoso pastor disse certa vez: “Daqui a pouco temos o vice-Deus”.

 Outra novidade é a chamada “cobertura espiritual”. Líderes que ameaçam seus liderados, dizendo que elas necessitam da cobertura deles, como apóstolos. Cobertura é uma falácia, pois biblicamente, não há cobertura espiritual da parte dos homens, mas somente de Deus.

Hoje, no meio neopentecostal, há uma febre por títulos teológicos. São muitos que dizem ser Doutor em Divindades(D.D) e fizeram curso por correspondência de, no máximo, um ano. A internet está cheia desses falsos cursos, que é uma malandragem de compra e venda de diplomas. Com 2 mil dólares, qualquer pessoa pode comprar um título de doutor em divindade nos Estudos Unidos, ficando até mais chique. Para ser um doutor em teologia, em uma faculdade séria, se estuda em média dez anos e há uma dedicação acadêmica, isso por parte do discente. Estudar bacharel de teologia em um ano é como estudar medicina em dois anos, é um grave erro e nada se aprende, sendo assim um falso curso.

   

f) o neopentecostalismo tem uma hermenêutica diferente do cristianismo histórico.

  

Se você já ouviu pregações em igrejas neopentecostais, percebeu que a maior parte das pregações são no Antigo Testamento? Já viu que os pregadores “avivalistas” gostam de textos que abordam a história da Abraão, Elias, Eliseu, Davi, Daniel, Jeremias etc? Percebeu que o ministério profético do Antigo Testamento é muito abordado nas preleções dos “conferencistas internacionais”? Se não, ouça e verá!

 Em trabalho acadêmico para a Faculdade Teológica Batista de Campinas, sobre o neopentecostalismo, o professor Isaltino Gomes Coelho observa que “a leitura bíblica neopentecostal é atomizada…isto é, fragmentada, de versículos isolados, é desculturada, desarrigada de seu contexto e usada alegoricamente. Sendo assim, prega excessivamente no Antigo Testamento. Abusa dos símbolos vero-testamentário e aplica a simbologia judaica de forma distorcida na igreja hodierna, que é ou deveria ser neotestamentária. Como observou o teólogo Esequias Soares: “Seus líderes inventam campanhas, tentando realçá-las em textos e personagens do Antigo Testamento, empregando figuras e símbolos, completamente fora do contexto bíblico, como ponto de contato para estimular a fé, e também para arrecadar fundos”6. São campanhas dos “318 pastores”, “Unção apostólica de Elias”, “Azeite da Viúva”, “Porção dobrada de Eliseu”, “Derrubando as muralhas de Jericó”. O teólogo Paulo Romeiro, que é de confissão pentecostal, observa:  As campanhas semanais, os cultos “de libertação”, “da vitória”, “da conquista” e “da prosperidade” se multiplicam na disputa de fiéis. Tudo isso dirigido a um público despreocupado também com as regras de interpretação bíblica, pouco afinado com a reflexão, mas numa busca constante e intensa de solução. Os pregadores farão tudo para atrair seus “clientes”, muito disputados hoje em dia no mercado evangélico.7  

Quando se quer extrair, de modo legítimo, um ensinamento bíblico; se parte para a hermenêutica histórica, contextual, lingüística e teológica, mas a analogia é o aspecto central na hermenêutica neopentecostal. Em vez de uma exegese, para extrair do texto bíblico o que ele diz, se pratica a eisegese, colocando no texto o seu próprio pensamento, ou seja, se tenta justificar por meio da Bíblia. A Bíblia para o neopentecostalismo é indicativa, ou seja, se recorre a ela como justificadora de suas práticas, mas não normativa, ou seja, determinando as doutrinas e práticas da igreja. A Bíblia, no neopentecostalismo, é um simples amuleto e enfeite de emaranhados de doutrinas estranhas as Sagradas Escrituras.

Uma questão importante na hermenêutica neopentecostal é que ele é pragmática e empírica. Pragmática se entende que a interpretação bíblica do neopentecostalismo busca praticidade ou funcionalidade de sua crença; se algo é prático e dá certo, então é preciso inserir na doutrina neopentecostal. Quando algum apologista critica as experiências e crenças no neopentecostalismo, os seus promotores vem com os seguintes argumentos: “mais as pessoas são curadas”, “mas isso tem dado certo”, “explique os milagres de meu ministério” etc. Sempre se recorre a funcionalidade de suas doutrinas. A experiência sempre procede a doutrina no neopentecostalismo. O Rev. Alderi Sousa de Matos observa:

  

No neopentecostalismo – inclusive nos seus enclaves nas denominações históricas -, por mais que seus integrantes se declarem defensores das Escrituras, a importância atribuída as fenômenos, maravilhas e novas revelações os empurrarão à incômoda conseqüência prática de terem na Bíblia a sua “fonte secundária” de conhecimento. 8

  

No contexto na interpretação bíblica, a experiência conta como a mais alta autoridade, determinando os sentidos de um texto. A Bíblia, nessa situação, não é a regra de fé e prática. Kenneth Hagin estabeleceu a fórmula de fé da confissão positiva, baseado em um suposto encontro com Jesus, por meio da visão ele criou uma nova doutrina. A revelação, as crenças pessoais, as profecias, as visões tomam o lugar da Palavra de Deus, no momento em que elas estabelecem doutrina.

 A hermenêutica neopentecostal é individualista e mística. Quando se lê a Bíblia, não procuram compreender o significado original que o escritor, inspirado pelo Espírito Santo, escreveu. Cada crente que leia a sua Bíblia e interprete da maneira transcendental, por meio de uma revelação interior. Procuram sempre achar novas verdades, e dizem ser portadores de nova revelações, desprezadas pelas igrejas durante séculos. Sendo esse entendimento, sempre individual, por meio de uma iluminação. Na leitura neopentecostal, o Espírito Santo, dá o significado de um texto para necessitadas específicas de várias pessoas, ou seja, o versículo passa a não ter uma significação absoluta, mas é uma mensagem diferente em cada revelação. Um pregador neopentecostal, instruindo novos convertidos, disse: “Vocês precisam ouvir a voz de Deus, ser guiados pelo Espírito Santo. Para isso, orem nas madrugadas e peça que Deus revele a Sua vontade para a sua vida. Então Deus vai te acordar pelas madrugadas e te dirá aquilo que tu precisas fazer.” Esse pregador dá a entender que a sua vida é guiada por revelações, quando esse não é o propósito das revelações (dom da palavra do conhecimento). A vida do cristão é guiada pelo Espírito Santo, que usa a sua Palavra, para direcionar segundo as Suas diretrizes.  

g) a demonologia neopentecostal

  

Os neopentecostais têm uma visão dualística do cosmo, ou seja, há uma constante luta entre o Bem e o Mal, e tudo aquilo que não é de Deus, logo é do Diabo. Para a cosmovisão neopentecostal, o mundo está dividido por essas duas forças equivalentes. Para eles a doença nunca vem de Deus, logo, todas as doenças são diabólicas. Para eles a pobreza não pode vir de um Deus riquíssimo, logo, a pobreza é do Diabo. Nesse pensamento, chamado dualismo, o mundo está bem dividido entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Diabo. O dualismo fere a revelação bíblica, onde o Deus, o ser bondoso por natureza, é infinitamente maior do que o mal provocado pelo Diabo.

O exorcismo nas igrejas neopentecostais, é uma prática midiática e um verdadeiro espetáculo, onde pessoas (seres-humanos) são expostos ao ridículo, com muitas luzes e câmeras. O teólogo assembleiano Claudionor Corrêa de Andrade, em uma linguagem pastoral, escreveu:

  

Há muitos obreiros que, para cevar o marketing pessoal, fazem uma verdadeira campanha publicitária para libertar os oprimidos do Diabo. Perguntam o nome do demônio e querem saber a sua procedência. Em seguida, interrogam-no acerca de sua missão, como se ninguém soubesse ser o trabalho do Diabo matar, roubar e destruir (Jo 10.10). E com isto desperdiça-se todo o tempo da exposição da Palavra de Deus, introduzindo o povo a uma macabra distração. 9

  Os neopentecostais, em especial Kenneth Hagin, acreditada que um cristão verdadeiro pode ser possesso por um demônio, mas não no seu espírito, e sim no seu corpo ou em sua alma; fazendo uma separação inexistente na Bíblia. Como pode um cristão ter demônios em seu corpo ou em sua alma, enquanto o seu espírito está livre sendo habitação do Espírito Santo? Só uma demonologia distante das Escrituras para afirmar tamanho engodo. Um cristão verdadeiro, por ser habitação do Espírito Santo, não pode ter em seu ser um demônio.O neopentecostalismo tem muitas doutrinas estranhas a Bíblia e cabe a cada pentecostal, uma posição apologética e de oração pela mudança e sedimentação desse movimento.

A análise sobre o neopentecostalismo termina nesse texto, mas esse assunto será discutido por meio de outros artigos no Blog Teologia Pentecostal.

    

Notas:

  

1- CAVALCANTI, Robinson. País apodrecido, igreja insípida. Revista Ultimato. Edição 303 Novembro-Dezembro 2006. p /.

  

2- Carismático é como os teólogos norte-americanos nomeiam os neopentecostais. Aqui no Brasil, carismático virou sinônimo de católico pentecostal, membro da RCC (Renovação Católica Carismática).

  

3- SAYÃO, Luiz. Pela ética e espiritualidade. Entrevista. Revista Enfoque Gospel. Edição 62 – SET / 2006.

  

4- GONDIM, Ricardo. E se o sal não salgar? Ricardo Gondim, acesso em 17/10/2007 disponível em www.ricardogondim.com.br

5- COELHO, Isaltino Gomes. Neopentecostalismo. Acesso em 09/11/2007. Disponível em http://www.ibcambui.org.br/artigos/art57.pdf  

 

 

6- SOARES, Esequias. Heresias e Modismos. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2006. p. 319.

7- ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a Graça. 1 ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2005, p. 123.  

 

 

8- MATOS, Alderi Sousa de. Fé Cristã e Misticismo, p. 58. Citado por ROMEIRO, Paulo. Idem, p. 122.

9- ANDRADE, Claudionor Corrêa de. Judas, Batalhando pela Genuína Fé Cristã. Lições Bíblicas, Rio de Janeiro, p. 43. 1° trimestre de 2002.

Autor: Gutierres Siqueira, moderador do site

7 comments Novembro 29, 2007

Pentecostalismo, Koinonia e Individualismo

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A décima segunda divisão, da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, é conhecido como o texto dos dons espirituais. Realmente, os capítulos 12, 13 e 14 da missiva corintiana, é um tratado paulino sobre os pneumatikos carismata, ou seja, os dons do Espírito são o tema central. Mas medite nos versículos de 12 ao 31, do referido trecho epistolar, e você verá que a proposição, além de pneumatológica, é eclesiológica: a igreja como o corpo místico de Cristo em comunhão.

É comum, na igreja hodierna, a promoção de uma espiritualidade cada vez mais individualista, onde as excêntricas experiências pessoais são excessivamente incentivadas. Todavia, o Espírito Santo trabalha no meio da comunhão e nunca na divisão, como bem escreveu o historiógrafo Lucas, relatando as características da igreja dos primeiros dias: “E perseveravam… na comunhão, e no partir do pão, e não orações… E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”(At 2.42, 47).

Nesses dias tenebrosos, que antecedem a parousia de Cristo, os templos cristãos se tornaram casas de prazeres. São crentes que vêem a oração como um meio de barganha com o Altíssimo, e não um canal de comunhão divina. Os filhos de Deus se tornaram crianças extremamente mimadas, pois contemplam um pai obrigado a atender os seus desejos mercantilistas, mas não conseguem colocar a sua confiança no Deus Soberano. O que é melhor para a igreja individualista pós- moderna, um culto de intercessão pelas nações, ou a reunião de oração “forte” para os empresários crescerem materialmente? A resposta é óbvia, e sendo assim, a advertência do irmão de Jesus é cada vez mais necessária: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites”(Tg 4.3).

O evangelicalismo vive em um período que o cristianismo segue as regras de mercado. Nesses dias há denominações para todos os gostos: igrejas para roqueiros, igrejas para surfistas, igrejas para a classe-média, igrejas para madames da elite paulistana… há igrejas como opções de parto na praça de alimentação de um shopping-center. Não seria essa eclética manifestação denominacional, a mais trágica expressão do individualismo gospel? Charles Colson, pensador cristão, faz uma observação com muita propriedade:

     

A cultura é radicalmente individualista. Pessoas fazem de tudo o que querem. São nas suas igrejas. O resultado é que escolhem e optam pelas igrejas que irão membrar-se, acreditando no que querem. Falta sempre o entendimento da responsabilidade de ser parte da comunidade dos crentes. A maioria das pessoas que se sentam nos bancos de igreja perdeu totalmente esse ponto.¹

     

Como no começo do texto foi lembrado, Paulo escreveu sobre dons espirituais e comunhão da igreja no mesmo papiro, certamente com a mesma tinta. Pois carisma só combina na koiononia. Os dons do Espírito tem o objetivo de promover edificação na comunidade. O exercício dos dons espirituais deve estar inserido em um contexto de valor à edificação coletiva e não ao individuo. O doutor dos gentios orientou:

     

O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação. ( 1Co 14. 4-5)

      

A maior preocupação do menor dos apóstolos, era com a edificação da igreja nas manifestações carismáticas. Paulo então fala sobre o amor (capítulo 13), que é um assunto totalmente ligado aos capítulos 12 e 14; então ele lembra que o amor “não busca seus interesses”, e da mesma forma o portador de um dom não deve se auto-promover, mas lutar pelo crescimento de cada membro na comunidade. A variedade de dons espirituais é para que todos participem dessa graça e possa assim, colaborar com o amadurecimento mútuo. Como lembra o teólogo pentecostal Stanley M. Horton:

   

O propósito da variedade (dos dons espirituais) é possibilitar o corpo a funcionar como unidade. A variedade, portanto, não visa a vantagem do indivíduo, ao dar mais coisas para desfrutarmos. Visa, pelo contrário, a vantagem da Igreja… Deus, deliberadamente, concedeu dons e ministérios a pessoas diferentes. Ele quer que reconheçamos ser necessário precisarmos uns dos outros

   Só mesmo a comunhão no Espírito pode promover essa verdadeira espiritualidade. Infelizmente muitos pentecostais valorizam experiências que não edificam a sua comunidade e nem promove um unidade no Espírito em torno da Palavra. O individualismo leva a buscar os prazeres místicos do “cair no espírito” ou da “risada santa”, que em nada edificam a igreja, mais trazem uma satisfação egoísta. É muito forte o testemunho do pastor Paul Gowdy, sobre os efeitos da “bênção de Toronto”(cair, danças, rolar, pular, rugir no espírito) sobre a igreja canadense, do qual ele era membro: “Desde que a bênção de Toronto chegou, ficamos esfacelados”³. Gowdy, que abandonou o movimento neopentecostal da Igreja de Vineyard, relata que a igreja que caia no espírito, caiu no mais baixo nível espiritual enquanto passava por esse “avivamento”. O modismos não promovem comunhão, mas divisão, assim como aconteceu na igreja do ex-lider neopentecostal Paul Gowdy.Nenhum pentecostal pode esquecer que os dons espirituais estão no contexto da comunhão eclesiástica. O Espírito Santo opera em indivíduos, isso por meio da regeneração, santificação, batismo pelo Espírito Santo e batismo no Espírito Santo. Mas todas as operações no indivíduo o leva para o corpo, pois o trabalho a Terceira Pessoa da Trindade é no corporativo. O Rev. Augustus Nicodemus, teólogo reformado, fez uma ponderação interessante sobre o referido assunto: 

   Creio que essa verdade bíblica tem faltado em muito do que se tem dito hoje sobre a plenitude do Espírito. A ênfase quase sempre está em aspectos individualistas, reações físicas individuais, experiências pessoais, e coisas do gênero. O aspecto corporativo da plenitude do Espírito, a compreensão do plano redentor de Deus que ele produz e Cristo como sendo a expressão objetiva e subjetiva da experiência são aspectos esquecidos ou pouco enfatizados, aspectos que, para Paulo, são essencialmente ligados à operação do Espírito na Igreja de Cristo.4   

 Portanto, a conclusão que se tira deste assunto é que a operação do Espírito Santo é no contexto da edificação de sua igreja. Manifestações pragmáticas e experimentalistas, onde a doutrina é relativizada, onde a comunhão é desprezada e o Fruto do Espírito é esquecido, trata-se de um falso pentecostalismo. Nesses movimentos e modismos, o ego humano é super-valorizado, a auto-ajuda é tema de pregação, o deus papai-noel satisfaz os gostos de seus “bons meninos de fé” e o triunfalismo é a grande onda. O avivamento é tratado com um meio de obter e ganhar e não entregar. O pentecostalismo bíblico não condiz com esse “cristianismo” individualista, centrado e sentado no trono do ego humano. 

   Referências Bibliográficas:   

 1- COLSON, Charles. In Entrevista. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 09, p. 12, Set-Out-Nov/2003.  

  2- HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 231, 232 e 236.    

3- DANIEL, Silas (ed.). Ex-líder da Igreja de Toronto denuncia arrependido farsas heréticas: Paul Gowdy confessou recentemente, em artigo, o que está por trás de modismos famosos que sua igreja disseminou no meio evangélico mundial. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, CPAD, Setembro de 2007. N. 1468. p. 14-15. 

   4- NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 19.   

Autor: Gutierres Siqueira

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Análise crítica do Congresso de Missões dos GMUH

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Os Gideões Missionários da Última Hora (GMUH) é uma organização evangélica que faz um ótimo trabalho de missões por todo o mundo. Há vários missionários sustentados por esse ministério e os GMHU, tem feito um trabalho eficaz na Amazônia e no Nordeste. O propósito desse artigo não é contestar o trabalho missionário dos GMUH e nem a seriedade dos integrantes desse ministério, mas sim, analisar de maneira crítica, um evento anual e de grande sucesso: O congresso de missões dos GMUH.

 

Esse congresso reúne milhares de pessoas na cidade de Camburiú, em Santa Catarina , e é até prestigiando pelo governo local, pois há uma grande movimentação na cidade. É um dos eventos mais disputados por cantores e pregadores de cunho “avivalista”. Além disso, o congresso conta com a participação de famosos pregadores, como Marco Feliciano, Hidekasu Takaiama, Gilmar Santos etc.

 Antes da análise é preciso esclarecer que esse texto foi escrito por um pentecostal, pertencente à Igreja Evangélica Assembléia de Deus e que o objetivo não é ofender pessoas, mas como acima está foi exposto, o propósito é analisar esse congresso anual do GMUH.

Quais são os pontos críticos do evento?

  

01) Promove os manikos do pentecostalismo.

  Manikos é uma expressão na teologia pentecostal para designar as manifestações extravagantes atribuídas ao poder do Espírito Santo. Essas manifestações nada tem haver com os dons espirituais, mas são extra-bíblicos, e baseados em experiências de homens do passado. O fenômeno do “cair no espírito”, “risada santa”, “êxtase”, “unção dos animais” podem ser classificadas como manikos, pois não há base bíblica para tais manifestações.

No congresso dos GMHU é comum a promoção desses fenômenos, herdadas da “bênção de Toronto”. É certo que, esse congresso foi o maior divulgador de tais fenômenos no Brasil.

  

02) Não há visão apologética e de preservação doutrinária.

  

O evento é promovido por uma congregação pertencente à Assembléia de Deus, denominação pentecostal clássica. Apesar dessa base, não há visão apologética no congresso, exemplo disso foi à participação do Pr. Carlos Móises, líder unicista de uma seita que nega a doutrina da Santíssima Trindade.

 

A “renovação apostólica” tem o seu espaço no evento do GMUH. Geziel Gomes e Oriel de Jesus, agora dizem que são “apóstolos”. Esses dois pastores, que moram nos Estados Unidos, e os seus liderados, são constantes no congresso.

 

Um líder muito celebrado nos GMUH é Benny Hinn; sempre há menção honrosa ao seu nome por alguns pregadores. Benny Hinn é um dos mais controvertidos dos pregadores contemporâneos.

   

03) Promove um culto exclusivamente emocional

  

É claro que o homem é um ser emocional, isso faz parte da natureza humana. Mas não se pode esquecer que junto com a Queda de Adão, as emoções foram afetadas pelo pecado, assim como a racionalidade. Uma fé baseada em emoções tende ao fracasso.

 

O estilo de pregação no congresso é altamente emocional e pouca reflexiva. Os assuntos abordados nos sermões, isso quando há sermões, são de auto-ajuda ou triunfalistas. É claro que não são todos. Há pregações que, às vezes, são altamente sensacionalistas.

  

04) Crítica sem fundamento aos “não alinhados”.

  

Muitos pregadores desse congresso criticam duramente a quem não está alinhado com a forma adotada por eles. Um dos preletores há alguns anos, criticou o Congresso Mundial Pentecostal, realizado pela Assembléia de Deus em 1997, na cidade de São Paulo, pois “ali não houve milagres”.

 

Só é pentecostal quem se encaixa a aquela maneira extravagante de pentecostalismo, adotada pela maioria dos pregadores desse evento. Eles, na verdade, já criaram um estilo que permeia por todo o Brasil.

 

Os tradicionais já foram chamados de igrejas “sorveterianas”, isso é uma falta de respeitos aos irmãos tradicionais, que também são habitação do Espírito Santo, pois foram regenerados por Cristo.

  

Conclusão:

  

Tudo na vida cristã deve ser analisado a luz da Escrituras, mesmo que a verdade não agrade a alguns. Esse texto encerra com essa forte frase paulina: “Nada podemos contra a verdade, senão pela verdade”.

    Autor: Gutierres Siqueira, professor de EBD e membro da Assembléia de Deus.

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Dons Espirituais: Reflexões pastorais sobre a interpretação e uso dos dons

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Introdução

Ao ser convidado a preparar um artigo, meus pensamentos foram passando pela literatura lida e escrita sobre os dons espirituais, durante anos passados, inclusive pela minha atuação como intérprete e ajudante de missionários estrangeiros em campanhas de cura divina. (Aliás, é bom lembrar que hoje, há grande aceitação mundial dos missionários avivalistas provenientes do Brasil – talvez o maior país exportador de reavivamento).

  

Essas lembranças porque, na data do convite, minha tese Os Dons do Espírito Santo, escrita em caneta e tinta em fins de 1963, e posteriormente publicada em várias tiragens por diferentes editoras, acabara de ter uma edição revista lançada na 17ª Bienal do Livro em São Paulo, em abril de 2002. A mesma editora me pediu, com urgência, para traduzir imediatamente em seguida, um livro chamado Os Dons Milagrosos são para Hoje?, fruto de um simpósio dirigido pelo Dr. Wayne Grudem, com mais quatro participantes de grande fama e capacidade. Nele, havia citações de quase uma dúzia de livros em inglês que já existiam em português, e aos quais fui consultando. Inclusive algumas dessas obras estive envolvido desde 1969, tais como Eles falam em outras línguas, de John Sherrill e Vai, Disse-me o Espírito, de Davi Duplessis. 

  

Pois bem, foram quarenta dias intensivos nessa tradução, com as leituras paralelas, e foram trazidas à mente muitas lembranças, tanto da prática, quanto de alguns debates religiosos em nível das igrejas. (Tomo a liberdade de adiantar para possíveis leitores da obra de Wayne Grudem, que a meu ver, todo o peso da argumentação teológica, enaltece o Espírito Santo, e que mesmo o “menos pentecostal” reconhece todos os milagres nos tempos de Jesus e dos apóstolos, e a operação do Espírito Santo hoje, inclusive na cura divina).

     

1. O Cessacionismo 

  

Um dos assuntos levantados, ao lidar com o volume traduzido agora, foi o “cessacionismo,” defendido por um dos participantes do debate. É a teoria de que muitos milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do Novo Testamento. A idéia é que os milagres confirmaram a divindade de Cristo (fato este que está fora de dúvida) e, semelhantemente, confirmaram a origem divina da atuação e doutrina dos apóstolos (outro fato inabalável). 

  

Tudo isso concorreu para os registros em todos os livros do Novo Testamento serem reconhecidos como obra legítima e permanente de Deus, parte integrante das Escrituras Sagradas. E isso também é certo. Quando me converti a Cristo, a conversão envolveu a aceitação da inspiração plenária, inerrância e infalibilidade da Bíblia. Inclusive entendo que qualquer conceito da Bíblia que não a reconhece assim, está fora do arraial do cristianismo. 

  

a) Quando cessou a atuação do Espírito na Igreja? Só que é mais difícil entender como o cessacionismo vai explicar em qual momento, uma vez completadas as Escrituras, o Espírito Santo, de quem elas falam e que justamente foi prometido por Jesus à Igreja, antes da sua crucificação e ascensão, especificamente para continuar com os fiéis, para fazer as vezes de Jesus, de ser sua presença real entre nós hoje – quando teria cessado a atuação do Espírito Santo? O cessacionismo quer declarar que os dons milagrosos do Espírito Santo cessaram com a morte dos apóstolos e com a definição do conteúdo do Novo Testamento.  

  

b) Cânon Fechado. A intenção dos cessacionistas parece ser preservar o “cânon fechado” contra novas revelações que se colocariam de encontro com o Novo Testamento que possuímos. Contudo, nenhum crente pentecostal, que eu possa imaginar, está pensando que algum dom de profecia ou de línguas com interpretação vá diminuir, substituir, ou acrescentar à Bíblia que, por si só, é obra do Espírito Santo. Jesus disse, ao prometer a vinda do Espírito Santo aos fiéis, que seria para nosso bem que Ele iria embora. Foi para poder nos enviar o Espírito Santo (Jo 16.7), que estará conosco para sempre (Jo 14.16). E a atuação do Espírito Santo fica semelhante àquela narrada nos Evangelhos e em Atos. “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome lhes ensinará todas as coisas  e lhes fará lembrar o que eu lhes disse”, Jo 14.26. Este texto refere-se ao conteúdo didático. A aplicação de ensinos existentes está em: “Aquele que crê em mim fará também as mesmas obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai”, Jo 14.12. Que é o conteúdo prático, já que o Espírito Santo confirmava com milagres a divindade de Jesus e a doutrina dos apóstolos. Ele continuará com a confirmação dos mesmos fatos, por onde quer que os cristãos levarem a fé.  

     

2. Línguas em Atos 2

  

Nos debates sobre a palavra “línguas” em Atos 2, vejo que é incomum reconhecer que se trata de duas palavras no original. Há chamas em forma de “línguas” (v3). Há  palavras faladas com a operação do Espírito Santo sobre a língua física humana – “línguas” (v4). O que o povo ouviu nessa ocasião, eram “idiomas” (grego dialektos) (v. 6 e 8). E o resumo é que o povo escutava as glórias a Deus sendo faladas nas suas próprias “línguas” – o dom de línguas em operação, com a interpretação milagrosa fornecida pelo Espírito Santo.

  

Notei na exegese teológica em Cambridge a desculpa, para não levar em conta a atuação sobrenatural do Espírito Santo, é que é “imponderável” e um fator difícil de medir. Daí me ocorreu que a diferença entre o orçamento para construir uma casa num terreno, e para fazer obra idêntica debaixo do mar, também seria bem complicada – mas isso não quer dizer que o mar não existe! 

  

Vejo que os escritos dos Profetas canônicos na Bíblia atacam abertamente o suborno, a corrupção e muitos males da sociedade moderna, mas parece que há pessoas que  procuram mais “futurologia” do que instruções para a ética na vida pessoal e coletiva. Entendo que “profecia” é mais “falar da parte de Deus” às pessoas. As pessoas que acham que os dons espirituais não devem existir hoje, estão mais preocupadas com o dom da profecia, por pensarem que possa surgir nova revelação além da Bíblia, e até mesmo contrária a ela.

  

Mas, em primeiro lugar, entendo que, mediante a inspiração do Espírito Santo é que a Bíblia é infalível, inerrante e de inspiração verbal plenária. Portanto, nenhuma mensagem proveniente do Espírito Santo estaria contraditória às eternas Palavras de Deus.  

  

Classifico como seita herética qualquer grupo que vai inventando “novas profecias” para tomar o lugar da Bíblia ou mesmo para existir em paralelo a ela. Nada de “Bíblia mais Papa”, “Bíblia mais Livro de Mórmon” , “Bíblia mais Helen White”, “Bíblia mais a interpretação dos russelitas”, nem sequer “Bíblia mais teólogos”, pois onde existir mais carne humana, a própria Bíblia acaba sendo desrespeitada, e seu Autor, o Espírito Santo, repudiado. Certamente deve haver uma caminhada lado a lado dos dons com os frutos do Espírito Santo. E o poder do Espírito Santo com a vida espiritual semelhante à de Jesus Cristo, que enviou o Espírito para nos tornar reais a pessoa e as palavras Dele mesmo. 

  

Pensando na responsabilidade de cada crente ler bastante a Bíblia, por conta própria, deixando o Espírito Santo falar ao seu coração, deparei no título de um livro: A  Libertação da Teologia, e consegui adquiri-lo, imaginando que se tratasse da fé íntima que não dependeria demais dos sistemas teológicos organizados. Tinha muitas páginas falando de “espiritualidade” intercaladas com outras sobre a teologia – mas a “teologia” atacada era o próprio estudo individual das Sagradas Escrituras! Classifico como espiritismo semelhantes conceitos. 

  

Vejo a obra do Espírito Santo brotando da fé bíblica, da conversão, da santificação – sendo todas estas, por si só, são milagres do Espírito Santo – mas acho que buscar visões, milagres, sinais sem instrução bíblica na igreja, sem leitura bíblica devocional prolongada e fervorosa pelos membros, fazem com que os alicerces fiquem fracos.

     

3. As Profecias 

  

3.1. No Antigo Testamento

  

Quanto à profecia, sem se tratar de mensagens inscrituradas de modo perpétuo através do Espírito Santo, vemos grande quantidade de profetas, profecias, e profetizar nos livros históricos da Bíblia. Esses livros eram chamados Os profetas anteriores pelos judeus antigos – desde Josué até Neemias – principalmente porque neles surgiam, de tempos em tempos, e sem aviso prévio, servos de Deus (muitos deles anônimos) que interviam com mensagens da parte de Deus, ou que inclusive dominavam a narrativa por algum tempo, tais como Samuel, Elias, Eliseu. E também havia grupos de profetas, escolas de profetas, dos quais se diz apenas que “profetizavam.” Até mesmo temos Saul “profetizando”, sem prever o futuro nem ditando Escrituras.

  

No contexto histórico, esse verbo dá mais a impressão de fervoroso louvor e glorificação. Nenhuma tentativa de concorrer com novas doutrinas. Por contraste com os “Profetas Posteriores” – de Isaías até Malaquias – cuja doutrina é registrada por toda a eternidade.

     

3.2. No Novo Testamento

  

Semelhantemente, no “dom da profecia” no Novo Testamento, temos profecias “ad hoc” – aplicadas à situação momentânea de uma ou mais pessoas, sem transmitirem nova doutrina – é somente “adiáfora” matéria que não faz diferença ao conteúdo da fé. O contexto é idealmente uma reunião da igreja, com leitura bíblica, pregação, louvor, orações espontâneas, com a presença do Espírito Santo em plena manifestação (e não uma presença “alegada” como no caso de um Concílio do Vaticano). Num culto assim, surge milagrosamente uma mensagem de profecia, ou em línguas, seguida de interpretação, que é exatamente o que alguém está precisando naquele exato momento – e é pelo Espírito que esse alguém reconhece que se trata de Deus falando ao seu coração. Acaba sendo um duplo milagre – assim como em Atos 2, os apóstolos falaram segundo o dom das línguas milagrosas, e os circunstantes entendiam segundo seus idiomas ou dialetos maternos. Repudiável seria fazer um registro de semelhantes mensagens, e guardar na igreja como uma preciosidade perpétua; já ouvi, também, de “profetisas” abrirem “consultórios” particulares, de profecias sob encomenda – até pagas! É melhor ter os dons no seu ambiente espiritual, como flores no seu próprio canteiro. 

  

Minha experiência mais notável de uma profecia, ou mensagem de Deus, através de línguas com interpretação, foi ao ser batizado na Assembléia de Deus em Cambridge. Cheguei aí porque me via cercado por teólogos modernistas – estudantes e professores – e eu, me dedicando ao estudo da própria Bíblia nos idiomas originais, sentia-me tão acossado como o profeta Elias, até meditar na unção que procede do Santo, “a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas como essa unção, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele tal como os ensinou”, 1 Jo 2.20-27. Vi que precisava da unção do Espírito Santo, e um universitário (não estudante de Teologia) falou em eu ser batizado (nas águas) para receber o dom do Espírito Santo. Com convicção no Espírito, fui assim batizado e, ao sair das águas, ouvi uma mensagem num idioma que não entendia, mas que parecia ser da África Central, de Zimbábue, e a interpretação me dizia para não me afligir com as pressões, porque a teologia dos modernistas não passava de paganismo bem organizado, debaixo de uma leve máscara de cristianismo. A partir de então, nunca me senti oprimido pelo modernismo, só que agora considero que estudá-lo, mesmo para refutá-lo ou para fazer parte dos deveres de teólogo, é entrar em diálogo com Satanás, conforme fez Eva. A partir de então, passei a considerar a ética ensinada nas epístolas, não mais como as “letras miúdas” da salvação, mas, sim, como um ambiente jubiloso de realidade no Espírito Santo.

  

O pentecostalismo confirma totalmente a fé na totalidade da Bíblia.

     

4. Dom de Línguas

  

No tocante ao dom de línguas, a experiência de líderes internacionais, tais como Donald Gee e Davi Du Plessis, baseada em conhecimentos mundiais de movimentos pentecostais, tem revelado que onde esse dom tem sido deixado de lado, a igreja tem sofrido em todos os aspectos. Referem-se aos movimentos pentecostais que surgiram a partir de 1906. Referindo-me à igreja de modo global, minha convicção é que se alguém lançar fora uma parte da fé bíblica, a parte dos dons milagrosos do Espírito Santo, acaba repudiando todos os milagres na Bíblia, inclusive o nascimento e ressurreição de Jesus Cristo, a própria inspiração da Bíblia, e até mesmo a existência de Deus. 

  

Nos países onde o cristianismo nominal oferece cargos altamente pagos por conta do governo, chegamos a ter “pastores” e “teólogos” que repudiam todos os essenciais da fé – é essa a situação que chamo de “modernismo.” Parece que muitas pessoas que não estão esperando um derramamento do Espírito Santo com avivamento, santificação, dons e milagres no fim dos tempos, estão colocando muitíssima ênfase no Anticristo.  

  

Na Conferência de Niágara em 1895, foi resolvido excluir os milagres dos Cinco Fundamentos da Fé, e colocar, no seu lugar, uma cláusula sobre pré-milenismo. Mas foi em 1906 que, em resposta a uma renovada busca do padrão bíblico, os estudantes na Rua Azusa receberam o derramamento do Espírito Santo. Foi aí que muitos receberam a mensagem como aquilo que mais desejavam na vida, e outros se puseram veementemente contra. E assim fica forçada, a partir de então, em todas as igrejas mundialmente, uma decisão pró ou contra a obra do Espírito Santo.  

  

Uma crítica contra o pentecostalismo hoje diz que há diversidade de opiniões e interpretações. Mas vejo que as interpretações humanas da própria Palavra de Deus são igualmente divergentes – sem isso ser uma crítica contra a Bíblia, sem se tratar de a Bíblia ser insuficiente.

  

Os seres humanos distorcem a Bíblia, e também podem distorcer a obra do Espírito Santo, sem haver falha nem defeito em uma ou outra. As igrejas oferecem, com razão, métodos de estudo da Bíblia, manuais, dicionários, e comentários da Bíblia,  recomendam grupos de oração, meditações, orientação pastoral, apóiam pregadores, conferencistas, preletores – tudo para haver entendimento apropriada da Bíblia! Tudo isso é precioso com a unção do Espírito Santo. Sem ela, tudo em vão. A democracia espiritual na igreja é cada um ter seu próprio acesso às Escrituras, e também à pessoa do Espírito Santo. É um direito, mas também um dever.  Se os membros não estiverem com a vida espiritual em dia, a igreja ficará oca, como árvore aparentemente viçosa que por dentro é escavada por cupins. 

  

Os judeus antigos nos tempos de Cristo desviavam-se do Antigo Testamento para suas tradições. No Talmude, existem fartas citações de um rabino que cita outro, que cita outro, e remonta a ainda outro. Quando Jesus Cristo surge como o cumprimento do Antigo Testamento, os fariseus o rejeitaram,  porque já tinham se montado na vida como líderes religiosos na carne, e Jesus já não se encaixaria no sistema deles. Como cumprimento do Novo Testamento, Jesus enviou o Espírito Santo, mas a cristandade, depois de chegar aos poderios e honrarias carnais, passou a menosprezá-lo e a considerá-lo assunto para “seitas” fora da igreja oficializada. 

  

Numa convicção pessoal minha sobre os dons, prefiro enfatizar o conceito de presente da parte de Deus para o necessitado que pede com fé. Num avivamento de cura divina, por exemplo, penso em termos de muitas pessoas comparecendo com esperança em Deus, e Deus querendo atender com compaixão. Nesse caso, um grupo da igreja, com um pastor ou outro obreiro, marca uma data e um ponto de encontro, anuncia a reunião, e as pessoas comparecem. Há hinos, pregação bíblica, orações, testemunhos. E a fila de curas. E saem bênçãos. Só que não deve haver exagero de glória para o obreiro, pois se ele se orgulhar, o Espírito Santo pode operar soberanamente sem depender de ninguém. 

  

Outra experiência notável foi em Ituverava, acompanhando como intérprete missionário Burnie Davies, das Assembléias de Deus dos Estados Unidos. Tinha havido bastante divulgação, e algumas reuniões preliminares, antes da chegada do missionário, e da minha. Eu pessoalmente nunca tinha orado pelos enfermos, e dava todo valor àqueles que tinham esse dom. Acontece que Burnie chegara com gripe, e o obreiro norte-americano não conseguia “levantá-lo,” conforme disse. O pior, é que fui posto para substituí-lo! Não sei fazer. Então, surge a fila para oração. Uns quinze, talvez. Por amor à causa de Deus, e aos enfermos, comecei a orar um por um. Fui orando em voz alta, mas sem capacidade minha. Lembro-me, por exemplo, no caso de alguém com ferida na perna. Fui orando para ele não mais chegar bêbado em casa e bater na esposa. Parece que Deus ia me ajudando naquilo que devia orar. Tudo estava além das minhas possibilidades. Depois do que me parecia um “tempão”, levantei os olhos para ver se a fila estava chegando ao fim. Era bem maior! Perdi, “então” a consciência do tempo. Foi depois que o porteiro me contou: as pessoas tinham saído curadas, e contando aos outros; e vinha mais gente de fora. Foram estimados em duzentos, e eu numa concentração fervorosa por mais de duas horas. O resultado final confirma que Deus me ensinava o que eu devia pedir, pois ele mesmo queria fazer a obra. Certamente não era caso de eu saber orar para obter da parte de Deus determinadas bênçãos que as pessoas queriam. 

  

Então pensei comigo mesmo: Deus me capacitou para a cura divina! E depois me ocorreu que havia outros para essa obra, mas que eu fora chamado a me formar em Cambridge no grego e hebraico, com as demais matérias teológicas, para estudar a Bíblia nas línguas originais, e para transmitir esses conhecimentos no Brasil, num período em que não havia ninguém para ocupar a vaga. E assim fiquei no ensino e literatura bíblicas! Ou seja, no pedacinho do Corpo de Cristo que me cabia: no texto original da Bíblia como obra do Espírito Santo. 

  

É claro que presenciei muitos milagres nos avivamentos, e isso de maneira bem especial como intérprete, pois freqüentemente estava com uma mão no ombro de algum missionário, e a outra segurando o enfermo, e traduzindo a troca de palavras entre os dois. A maior garantia contra possível sugestão ou fraude foi o que eu via no Parque da Iberapuera, ao lado do missionário Morris Cerullo. Fiquei segurando no colo um nenê cego de nascença e, quando Morris orou, foi maravilhoso ver o olhar da criancinha que enxergava pela primeira vez – olhar feliz de admiração!

  

Na mesma reunião, uma menina surda de nascença. Morris orava, e batia palmas atrás dela; quando voltou a audição,  ela deu um pulo com o barulho! Em seguida, olhava em derredor, procurando alguma coisa. Daí correu para a sanfona no palco. Descobrira o que era som, e que este provinha de certos objetos!

  

Voltando à inspiração do Novo Testamento: entendo que a fidelidade a Ele determina quem faz parte de igreja, e não a igreja que determina quais escritos devem pertencer ao NT. Li um livro anglicano, obrigatório no curso, de Introdução ao Novo Testamento; tudo muito bem, só que no fim deu a entender que a Mãe Igreja é que escolheu os Livros para fazer parte do NT – e que ela seria superior a ele. 

  

A diferença entre o NT e os escritos da igreja posterior é que a carne ia entrando, década após década. O Espírito Santo faz do NT aquilo que é, e ele mesmo imprime essa convicção da sua inspiração divina naqueles que se convertem a Cristo. É a autoridade do Espírito Santo, mais do que a autoridade da Igreja, que determina o que é Bíblia. Quaisquer discípulos, apóstolos, mestres, profetas neotestamentários, dependiam do Espírito Santo, e não ele, da confirmação deles. 

  

A denominação em favor da qual fui estudar em Cambridge, declarava ter a Bíblia como única norma de fé, doutrina, e prática. Então eu estava bem dentro, pois pautava minha vida exclusivamente pela Bíblia. Mas aí surgem as “normas para o culto,” como acréscimo à Bíblia, e então não tenho nada mais que ver. Num excelente instituto bíblico onde fui professor, foi lido um documento no qual foi esclarecido que, embora Paulo tenha declarado “Não proibais o falar em línguas” os dirigentes, por receberem sustento de igrejas não pentecostais, sentenciaram: “Nós, porém, doravante vamos proibir.” Toda denominação evangélica crê na Bíblia, mas na hora em que uma ou outra igreja coloca algumas regras, costumes ou decisões em posição antagonística à Bíblia, acabará perdendo pontos. Certamente existem muitos questões que biblicamente estão abertas à consciência individual, e devemos ter coração amplo de fraternidade espiritual para nos aceitarmos em mútuo amor. Minha experiência tem sido: ampla fraternidade entre os crentes em 1959, 1963 etc, mas hoje, minha impressão é que muitos grupos,  pelo rádio, querem “vender seu próprio peixe” e não ouço mais muita Bíblia nem tanto em conversão a Jesus Cristo. 

  

Os dons do Espírito Santo são debatidos como assunto distintivo e específico do pentecostalismo. Tempos atrás, achei excelente a definição do doutor Ness, da Igreja Pentecostal do Canadá: “A teologia pentecostal é idêntica à evangélica tradicional, só que também tem os dons do Espírito Santo.” 

  

Por outro lado, vejo que um modo sobrenaturalista de ver as coisas deve permear mais do que isto. Deve haver uma visão totalmente nova da interpretação bíblica.

  

Conheci de perto, por exemplo, Orlando Boyer, e percebo que nos escritos dele existe um modo de entender globalmente e espiritualmente a Bíblia, de modo que coloca seu dedo no âmago do sentido, enquanto volumes teológicos de tamanho muitas vezes maior não enxergam tanta coisa de valor.

  

Donald Stamps também vinha muitas vezes ao meu escritório no sítio, e vi nele um herói da fé – inclusive, quanto aos seus comentários de Jó, Eclesiastes, e dos Salmos de aflição. É o único teólogo que sabia entender essas partes da Bíblia do ponto de vista de quem estava morrendo de câncer. Myer Pearlman também tinha a unção pentecostal nos seus comentários bíblicos. Nas aulas em escolas bíblicas pentecostais, sempre falo que é imperdoável quando os alunos não lêem esses autores. A interpretação bíblica tem que ser no Espírito; ou seja, com a ajuda do próprio autor. 

  

Existem movimentos que criticam o “espiritualizar” – como se fosse o caso de “tornar espiritual” aquilo que não o é. Fico boquiaberto ao ver grupos pentecostais aceitarem uma interpretação “na carne,” mormente do Apocalipse. Da mesma forma, espero que o Espírito Santo nos dê gosto pela música especificamente “sacra” ou “espiritual.” Os hinários contêm música e letra que inspiram, e acho que o rebaixamento do gosto musical, adotando ritmos mundanos, não deve ser considerado sinal de  pentecostalismo. Quando dou um curso sobre Atos dos Apóstolos, além de explicar que é um manual de orientação para a igreja hoje, e falando nos milagres que confirma a pregação cristã, menciono que houve alguns milagres de castigo: Simão Mago, Elimas, Herodes, e Ananias e Safira. Nas igrejas “binitarianas”, faltas morais parecem passar como coisas corriqueiras. 

  

Numa reunião pentecostal, porém, a situação seria “mentir contra o Espírito Santo” – isto é, contra tudo aquilo que Deus está derramando. Procura-se o Espírito Santo para bênçãos e poder, mas recebendo essa obra sobrenatural,  o Espírito Santo também deve ser procurado para a santidade, para o temor a Deus, para uma vida de resistência às tentações.  

  

Depois de Os Dons do Espírito Santo também escrevi O Espírito Santo na Vida de Paulo (CPAD), cujo intuito foi demonstrar que o Espírito Santo também impulsiona à obra, com dedicação e sacrifício. Não sei se esse aspecto também gozou de popularidade entre os irmãos. Nesse sentido, sendo que o Espírito Santo age conforme quer, não nos é possível faltar nos nossos deveres ministeriais, pensando que o Espírito Santo terá que “abençoar” a nossa preguiça. Depois de o Espírito Santo me ter dado, inesperadamente, durante as celebrações de Pentecostes em Zimbábue, a capacidade milagrosa de entender o Afrikaans de um momento para outro, vi-me diante do hebraico. Tenho ainda, em mãos, a Gramática Elementar da Língua Hebraica que usei – a página interna está cheia de orações tiradas dos hinos que decorei em Afrikaans. O hebraico envolveu cinco mil horas de estudo em silêncio por três anos (isto, só a gramática básica). Nenhum milagre estrondoso, mas a disposição para estudar, e a renúncia envolvida, não deixa também de ser uma bênção espiritual. 

  

Jesus, nas suas obras milagrosas, explicou que Deus continua operando no sábado, e Ele, também. Podemos dizer que o Espírito Santo não nos deixou órfãos, não nos deixou desamparados com a ascensão de Jesus, com o último suspiro do último dos Doze Apóstolos, nem com a última letra do Novo Testamento. 

  

A Igreja de Cristo não é um acidente da natureza, uma instituição contrária à vontade de Deus, e assim como o Novo Testamento nos apresenta Jesus Cristo e também a obra do Espírito Santo, assim também a fé cristã continua sendo em Deus Pai, Deus Filho, e em Deus, o Espírito Santo.

Autor: Pr. Gordon Chown é missionário britânico no Brasil, professor de Hebraico, tradutor de diversas obras teológicas e das notas da Bíblia de Estudo Pentecostal e autor da obra Gramática Hebraica (CPAD). Autor do livro: “Dons Espirituais”(Ed. Vida).

Add comment Novembro 29, 2007

Conhecimento produz avivamento

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Proclamação da Palavra promove discernimento, obediência e zelo

 

 

O estudo da Palavra de Deus, sua divulgação e prática, são os elementos predecessores de um real avivamento. Vai longe o tempo em que associava-se conhecimento com ceticismo e frieza espiritual. Sabemos da grandiosidade do poder de Deus através de sua Palavra e, quanto mais a conhecemos, mais cientes ficamos de nossa dependência e do quanto Ele nos protege.

 

Conta-se a estória de uma família que se dispôs a fazer um cruzeiro em um navio de primeira classe. Como em toda a viagem marítima, receberam um manual de instruções contendo as informações necessárias aos tripulantes. Nele, estavam contidos todos os deveres, direitos e regalias das quais os viajantes precisavam tomar conhecimento.

 

No dia previsto, ignorando as informações previstas no manual, a família embarcou para a tão sonhada viagem e como era precavida, levou mantimento para passar quinze dias de navegação. Todos os dias nos horários das refeições enquanto as pessoas se dirigiam para o restaurante, os membros da família abriam suas lancheiras e se punham a degustar os alimentos que trouxeram. No décimo quinto dia, já não havia mais condições de engolirem aquela comida. Então, a força da necessidade falou mais alto que a da negligência e o pai da família resolveu convidar a todos para almoçarem no restaurante da embarcação.

 

Na entrada havia um recepcionista bem vestido que providenciava mesa e demais comodidades aos viajantes. A família se dirige até ele e o líder da casa, imaginando quão tremendo estrago causará no bolso por comparecer a um lugar tão grã-fino como aquele, arrisca a pergunta: “Quanto custa o almoço?” O rapaz com um sorriso nos lábios lhe responde gentilmente: “Quando o senhor retirou os bilhetes não recebeu um manual? Nele estava a informação de que, na compra dos bilhetes, estão incluídas as refeições de todos os dias”. 

 

Esta historieta nos dá a noção do que pode causar a falta de conhecimento. Todo avivamento espiritual registrado na Bíblia é resultado direto de uma renovada proclamação da Palavra de Deus e da obediência a Ela.

 

O grande teólogo Donald Stamps, autor das notas e estudos da Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD), afirmou que todos os reais e duradouros avivamentos são marcados pela reposição da Palavra de Deus ao seu devido lugar de autoridade e honra.

 

Reforma, Teologia e avivamento

 

O protagonista da Reforma Protestante, Martinho Lutero (1483-1546), foi um dos monges agostinianos mais disciplinados e competentes de seu tempo. Após estudar acuradamente a Bíblia, e depois de certificar-se que nela não havia nada sobre purgatório e muito menos pagamento como condição para alguém salvar-se, formulou 95 teses nas quais expunha os pontos básicos da Reforma condenando a venda de indulgências e enfatizando a temática da justificação pela fé, essência do protestantismo.

 

A publicação da Reforma deu-se em 31 de outubro de 1517 quando Lutero afixou na porta da Igreja de Witemberg. Por esta causa foi excomungado pelo papa. E não seria demais reafirmar que esse revolucionário movimento fora deflagrado em seu coração através do estudo da Palavra de Deus, em especial o texto de Rm 1.17 que diz: “Porque nele se descobre a justiça de Deus de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá da fé”.

 

No início do século passado por volta de 1900, alguns alunos de uma escola teológica começaram a estudar sobre o batismo no Espírito Santo. Entre esses alunos estavam Agnes Ozman e duas outras mulheres. O estudo ministrado pelo pastor Parham a seus 40 primeiros alunos era realmente gratificante, porém, a experiência durante o culto da noite de 1 de janeiro de 1901 foi algo marcante.

 Agnes Ozman, sentindo um forte desejo de ser batizada no Espírito Santo, perguntou ao pastor Parham se ele poderia impor suas mãos e orar para que ela recebesse a promessa.

De acordo com o relato de Parham, “Agnes Ozman falou chinês por três dias, durante os quais não podia falar nem escrever inglês”.

 

O mês de janeiro, então, é considerado a data oficial do movimento pentecostal que se estende até nossos dias.

 

A mensagem do pastor Parham e a notícia do que havia acontecido, influenciou J. A. Warren a abrir uma nova Escola Bíblica em Houston, Texas. Warren era orador leigo, metodista, assistente de Parham e Willian J. Seymour.

 

Seymour era negro e juntamente com outros, que se interessaram pela mensagem do Movimento da Fé Apostólica, mudou-se para Los Angeles e ali iniciou um ponto de pregação em uma casa de família na Bonnie Brae Street para um público mesclado. Ensinava, mediante as Escrituras, algo que ele mesmo ainda não havia provado. Entretanto, na data de 9 de abril de 1906, um domingo, o próprio Seymour e outros sete irmãos receberam o batismo no Espírito Santo. A repercussão foi instantânea e, com isso, o ambiente em pouco tempo tornou-se pequeno.

 

Seymour viu-se obrigado a obter um espaço maior, num lugar acessível a todos, foi assim que descobriu um prédio de uma Igreja Metodista Episcopal que estava fechado na rua Azusa, 312. Fundou-se então, nesse local, a Apostolic Faith Gospel Mission (Missão Evangélica da Fé Apostólica).

 

O movimento de Azusa Street 312 foi tão poderoso que causou grande vulto entre o povo, atraindo até mesmo a mídia secular, que por sua vez encarregou-se de divulgar os fatos e, à semelhança da Igreja Primitiva, que caiu na graça de todo o povo, vinham pessoas de várias partes do país e até mesmo do exterior, as quais recebiam poder do alto e levavam consigo a chama pentecostal para os pontos mais longínquos do globo terrestre, a exemplo de Gunnar Vingren e Daniel Berg, fundadores da AD e do movimento pentecostal no Brasil.

  

Restabelecendo o ensino

 

Tudo o que eu julgo ser bom, útil e importante para mim, é, e deve ser objeto de minha constante busca. Se a invulnerabilidade da vida cristã consiste em ser cheio do Espírito Santo, esse então é o meu objetivo. Minha vontade e meu desejo me encorajam a buscar essa virtude. E, se a via correta e racional para atingir esse alvo é o estudo da Palavra de Deus e não o emocionalismo ilusório, minha capacidade de busca optará por fazê-lo.

  

Descoberta, valorização e utilidade

 

Quando nos voltamos para o texto de 2Crônicas 34.15, onde diz: “E Hilquias respondeu e disse a Safa, o escrivão: Achei o livro da Lei na Casa do Senhor. E Hilquias deu o livro a Safa”; ficamos a pensar na deplorável situação em que se encontrava o majestoso templo construído no reinado de Salomão, todo trincado com fendas extremamente largas, em outros pontos da construção o estado era caótico, pois encontrava-se totalmente em ruínas.

 

Na memória de alguns, creio, imperava a lembrança do período áureo daquele local, onde era utilizado para cultuarem ao Senhor.

 

Imaginamos o descuido com algo tão importante como o Livro da Lei do Senhor existente no Templo por ordenança de seu escritor, o legislador Moisés (Dt 31.9-11, 24-26), a posição anterior do Livro junto à Arca do Concerto oferecia às pessoas seu valor e sua importância, mas agora lá estava Ele, jogado entre os escombros e entulhos do Santuário, semidestruído, como se nada representasse ou que nada significasse.

 Surge então um jovem rei que toma a sábia iniciativa de restaurar a Casa do Senhor, tanto no aspecto de benfeitorias no prédio como no restabelecimento do culto religioso.A descoberta do Livro foi importante mas nada significaria se não houvesse por parte de quem o achou interesse em desvendá-lo através da leitura e da execução do seu conteúdo.

A Bíblia afirma que o rei Josias foi o mais crente de todos os reis e que celebrou a maior festa espiritual (2Rs 23.25 e 2Cr 35.18).

 

Ele foi mais privilegiado em inteligência? Seu dia possuía mais horas que o das demais pessoas? Com certeza, não! Ele simplesmente não ignorou o valor da descoberta.

  

Equipe de apoio 

 

O rei contava com o apoio de uma equipe fiel e eficiente (2Cr 34.8-13,20,22). Uma parte cuidava das coisas espirituais e outra, das materiais. O escrivão Safa, autorizado pelo rei, falou com as pessoas responsáveis pela avaliação do orçamento (2Cr 34.8), logo após, foram até o sumo sacerdote Hilquias e entregaram a soma de dinheiro (2Cr 34.9) e, finalmente, levaram o montante e passaram às mãos de uma equipe que iria executar o serviço (2Cr 34.10-14). O rei ficou despreocupado pois sua equipe de pessoas competentes e, acima de tudo honestas, as quais receberam o dinheiro e o empregaram sem desperdiçá-lo (2Rs 22.7 e 2Cr 34.9-12).

 Já dentro do templo o sacerdote encontra o Livro da Lei e o entrega a Safã, porque o que lhe interessava era o bem estar do reino e não sua autopromoção (2Cr 34.15).

Percebe-se então que o departamento da ED precisa mais do que qualquer outro, de uma equipe de apoio aliada a um superintendente criativo. O corpo docente cuida da “Lei”, ou seja, do ensinamento da Palavra, e a equipe de apoio atende à parte administrativa da ED, auxiliando a todos. Coisas como: recepcionar visitantes, observar as pessoas que estão faltando, idealizar e promover eventos extraclasses (marketing) para estimular a freqüência da ED.

  

Avivamento com conhecimento

 

Avivamento sólido e real, com características autênticas e resultados concretos, consolida-se através do desempenho de etapas dentro do processo ensino/aprendizagem.

 

A Bíblia é rica em lições para nossas vidas. Se propusermo-nos a estudá-la, com certeza seremos mais abençoados. Existem pessoas que por desconhecerem as Escrituras, coagem Deus a lhes dar pela Bíblia aquilo que na verdade não lhe é devido.

  

Oração 

 

Tenha propósito definido em suas orações. Não peça porção dobrada do Espírito de Deus, isso é impossível que Ele faca, pois se fizer estará criando um deus superior a Ele.

 

Ore como Habacuque pedindo avivamento (Hc 3.1,2), não só você, mas todo o departamento de educação cristã.

  

Requisitos canalizadores e estimuladores do avivamento através do ensino

 

Você e sua equipe deverão ter visão ampla e criatividade para afastarem a monotonia e a rotina. É necessário triagem periódica para a identificação de problemas que, se ignorados, poderão avolumar-se. Com base nos episódios do rei Josias e das parábolas da ovelha e dracma perdidas (Lc 15.1-10), vamos analisar o ponto em comum existente entre seus acontecimentos.

  

Perceptibilidade 

 

Pode parecer fácil, mas se você não tiver unção do Espírito Santo e a assessoria devida de uma equipe, talvez não consiga perceber e identificar a falta de alguma coisa.

 

O rei Josias percebeu a precisão de uma reforma no templo para que, desse modo, garantisse o futuro da tribo de Judá, pois uma vida de espiritualidade efêmera está fadada ao fracasso. Com o templo o povo poderia cultuar a Deus e dessa forma ser mais submisso.

 

O homem que tinha cem ovelhas (Lc 15.4) só soube que faltava uma porque certamente conhecia todo o seu rebanho e valorizava-o por igual.

 

Semelhantemente a mulher que perdera sua dracma (Lc 15.8), ela tinha conhecimento do valor de sua moeda e mantinha afinidade com ela de igual modo.

 

E você, está sabendo valorizar os seus alunos?

  

Interesse 

 

O rei interessou-se pelo bem estar da sua alma como também com o de seus súditos. Preocupou-se em fazer conforme estava escrito no livro (2Cr22.13; 23.3).

 

A demonstração do interesse do homem por suas ovelhas e também da mulher por suas dracmas, pode ser percebido facilmente no fato de que, para que sentissem falta delas, no mínimo eram contadas todos os dias, pela manhã e pela tarde.

 

Se nosso departamento não se interessar pelo bem estar dos alunos faltosos, em pouco tempo não contaremos nem com a presença dos assíduos. Devemos mostrar empatia e preocupação pelos seus problemas e necessidades.

  

Disposição 

 

O rei se dispôs para que a obra fosse concluída. Mobilizou de um lado, mexeu de outro, e concretizou seu desejo. Evidente que isso tornou-se mais fácil, porque ele não se empenhou sozinho, mas delegou poderes a uma equipe disposta a qual estava trabalhando ao seu lado para atingir o mesmo objetivo.

 

O homem dono do rebanho com certeza enfrentou obstáculos mil para deixar seus compromissos e se lançar aos perigos de uma busca incerta. A mulher relegou tudo a segundo plano até encontrar sua dracma perdida.

  

Método

 

O condutor de Judá estava com o Livro da Lei nas mãos. Já o havia lido, porém não sabia que atitude tomar, foi quando então lhe veio à mente que sua equipe fiel e eficiente poderia consultar o Senhor, por ele e pelo povo (2Rs 22.13). Contudo, antes de tomar essa decisão ele havia feito quatro coisas comoventes que contribuíram decisivamente para o avivamento: (1) “…o teu coração se enterneceu…”; (2) “…e te humilhaste…”; (3) “…rasgaste as tuas vestes…”; (4) “…e choraste perante mim…” (2Rs 22.19).

 Compadeceu-se pelo povo (O aluno quer sentir isso do professor?).Reconheceu sua falibilidade (Só o aluno erra?).Esqueceu sua posição de superioridade e autoritarismo (Perco a minha autoridade sobre os alunos procedendo assim?).

Chorou por si e pelo povo (Temos orado para darmos exemplo? E nas orações, temos incluído nossos alunos?).

 

Não sabemos quanto tempo o pastor gastou procurando pela ovelha. Quem sabe levou alimento e passou muitos dias caminhando muitos quilômetros sob o sol escaldante. E utilizou vários meios diferentes para resgatá-la. Aja de forma imparcial e incondicional. Faça planos, defina objetivos, trace metas e convide sua equipe a convergir igualmente os esforços para sanar deficiências. Crie meios de atrair a atenção e depois conscientize os alunos de suas responsabilidades.

  

Divulgação

Naquela época não existia sistema de alto-falante, rádio, televisão, telefone e Internet. Então como o rei reuniu todo o povo desde o adulto até a criança? Mais uma vez o rei contou com a eficiência e disponibilidade de sua equipe que, com certeza, fez um grande trabalho de divulgação e convite, tão in tensivo que não faltou ninguém (2Rs 23.1,2).

 

O pastor após retornar de sua exaustiva jornada, ainda teve coragem de se dirigir à casa de amigos e vizinhos, convidando-os para juntos se alegrarem pelo encontro e resgate de sua ovelha (Lc 15.6). Em todos os casos, apesar de milenares, as personagens históricas funcionaram como importantes divulgadores do século 21.

 

Lembro-me quando foi lançada a campanha Biênio da Escola Dominical 96/97, Achei o Livro da Lei na Casa do Senhor (2Cr 34.15), nascida na visão da liderança da Casa Publicadora das Assembléias de Deus (CPAD), alarmada com o fato de 80% dos crentes não freqüentarem a igreja aos domingos pela manhã. Os avanços acontecidos depois dessa campanha são inúmeros e impossíveis de mencionar.

 

Aqueles que popularizam sua ED estão ganhando almas e mais alunos com esse recurso. Muitas pessoas não a freqüentam por causa da falta de estímulo de seus dirigentes e coordenadores. Crie e mostre a necessidade de o aluno ir à ED, lembre-se que o que é bom, útil e importante pode e deve ser desejado. Promova mais a ED e você verá os resultados.

  Bibliografia

CARVALHO, César Moisés. Conhecimento produz avivamento. Revista Ensinador Cristão, ano 3, nº 9. Rio de Janeiro: CPAD, jan/mar 2002. pp.44-7.

Autor: César Moisés de Carvalho, pastor assembleiano e escritor.

Add comment Novembro 29, 2007

O Espírito Santo nas Escrituras

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1. Títulos do Espírito Santo

 

Para muitas pessoas de nossa sociedade, os nomes pessoais não têm a mesma relevância que os da literatura bíblica. Os pais dão nome às crianças sem pensar no significado, simplesmente copiando dos parentes, amigos ou personagens públicas. Um casal pode dar o nome de Miguel a um filho, sem o mínimo conhecimento do significado original do nome (“Quem é como Deus?”). Os pais que têm um tio muito querido, chamado Samuel (“Seu nome é Deus”), talvez dêem o mesmo nome a um filho. Para um israelita, o nome Samuel proclamava que o portador do nome era um adorador de Deus.

 

Os nomes e títulos do Espírito Santo nos revelam muita coisa a respeito de quem é o Deus Espírito Santo. Embora o nome “Espírito Santo” não ocorra no Antigo Testamento, vários títulos equivalentes são usados. O problema teológico da personalidade do Espírito Santo gira em torno da revelação e compreensão progressivas, bem como da maneira de o leitor abordar a natureza da Bíblia. O Espírito Santo, como membro da Trindade, conforme revela o Novo Testamento, não aparece na Bíblia hebraica. Mesmo assim, o fato de a doutrina do Espírito Santo não estar plenamente revelada na Bíblia hebraica não altera a realidade da existência e obra do Espírito Santo nos tempos do Antigo Testamento. A Terra nunca foi o centro físico do Universo. Mas antes de terem as observações da criação divina — feita por Copérnico, Galileu e outros — comprovado o contrário, tanto os teólogos quanto os cientistas dos tempos passados acreditavam que a Terra era o centro do Universo.

 

Conforme já foi observado, ainda não houve uma revelação da parte de Deus, quer na Bíblia, quer na criação, que abrangesse a totalidade de tudo quanto Deus está dizendo ou fazendo. O modo de entender o Servo sofredor, depois da ressurreição, conforme sintetiza a explicação que Filipe fez de Isaías 53.7, 8 ao eunuco etíope (At 8.26-40), não era uma revelação nova, mas um modo mais exato de compreender uma revelação antiga.

 

O título mais freqüente no Antigo Testamento é “o Espírito de Yaweh” (heb. Ruach YHWH [Yahweh]), ou, conforme consta nas Bíblias em português, “o Espírito do Senhor”. Considerando o ataque que os críticos modernos fazem à presença do Espírito Santo no Antigo Testamento, talvez devamos usar o nome pessoal de Deus, “Yahweh”, ao invés do título “Senhor” (que os judeus dos tempos posteriores ao Antigo Testamento substituíram pelo nome). O que nos interessa aqui é um dos significados de Yahweh: “aquele que cria, ou faz existir”. Cada emprego do nome Yahweh é uma declaração a respeito da criação. O “Senhor dos Exércitos” é melhor traduzido como “aquele que cria as hostes” — tanto as hostes celestiais (as estrelas e os anjos, de acordo com o contexto) quanto às hostes do povo de Deus. O Espírito de Yahweh estava ativo na criação, conforme revela Gênesis 1.2, com referência ao “Espírito de Deus” (heb. ruach ’elohim).

 

Uma preciosa série de títulos do Espírito Santo encontra-se em João 14 – 16. Jesus promete enviar outro Consolador (“Ajudador” ou “Conselheiro”). A obra do Espírito Santo como Conselheiro inclui o papel do Espírito da Verdade, que habita dentro de nós (Jo 14.16; 15.26), como aquEle que ensina todas as coisas, como aquEle que faz lembrar tudo quanto Cristo tem dito (14.26) e como aquEle que convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo (16.8).

 

   Vários títulos do Espírito Santo podem ser encontrados nas Epístolas: “o Espírito de santificação” (Rm 8.2); “o Espírito de adoção de filhos” (Rm 8.15); o “Espírito Santo da promessa” (Ef 1.13); “o Espírito eterno” (Hb 9.14); “o Espírito da graça” (Hb 10.29); e “o Espírito da glória” (1 Pe 4.14).

  

2. Símbolos do Espírito Santo 

 

Os símbolos oferecem quadros concretos de coisas abstratas, tais como a terceira Pessoa da Trindade. Os símbolos do Espírito Santo também são arquétipos. Em literatura, arquétipo é uma personagem, tema ou símbolo comum a várias culturas e épocas. Em todos os lugares, o vento representa forças poderosas, porém invisíveis; a água límpida que flui representa o poder e refrigério sustentador da vida a todos que têm sede, física ou espiritual; o fogo representa uma força purificadora (como na purificação de minérios) ou destruidora (freqüentemente citada no juízo). Tais símbolos representam realidades intangíveis, porém genuínas. 

 

Vento. A palavra hebraica ruach tem amplo alcance semântico. Pode significar “sopro”, “espírito” ou “vento”. É empregada em paralelo com nephesh. O significado básico de nephesh é “ser vivente”, ou seja, tudo tem fôlego. A partir daí, seu alcance semântico desenvolve-se a ponto de referir-se a quase todos os aspectos emocionais e espirituais do ser humano vivente. Ruach adota parte do alcance semântico de nephesh. Por isso, em Ezequiel 37.5-10, achamos ruach traduzido como “espírito”, ao passo que, em 37.14, Yahweh explica que porá em Israel o seu Espírito.

 

Água. A água, assim como o fôlego, é necessária ao sustento da vida. Jesus prometeu rios de água viva, “e isso disse ele do Espírito” (Jo 7.39). O fôlego e a água, tão vitais na hierarquia das necessidades físicas humanas, são igualmente vitais no âmbito do Espírito. Sem o fôlego vivificante e as águas vivas do Espírito Santo, nossa vida espiritual não demoraria a murchar e a ficar sufocada. A pessoa que se deleita na Lei (heb. torah _ “instrução”) de Yahweh e nela medita de dia e de noite é “como a árvore plantada junta a ribeiros de águas… cujas folhas não caem” (Sl 1.3). O Espírito da Verdade flui da Palavra como águas vivas, que sustentam e refrigeram o crente e revestem de poder. 

 

Fogo. O aspecto purificador do fogo é refletido claramente em Atos 2. Ao passo que uma brasa tirada do altar purifica os lábios de Isaías (6.6, 7), no dia de Pentecostes são “línguas de fogo” que marcam a vinda do Espírito (At 2.3). Esse símbolo é empregado uma só vez para retratar o batismo no Espírito Santo. O aspecto mais amplo do fogo como elemento purificador encontra-se no pronunciamento — ou profecia — de João Batista: “Ele vos batizará com o Espírito Santo e com fogo. Em sua mão tem a pá, e limpará a sua eira, e recolherá no celeiro o seu trigo, e queimará a palha com fogo que nunca se apagará” (Mt 3.11, 12; ver também Lc 3.16, 17).

 

As palavras de João Batista aplicam-se mais diretamente à separação entre o povo de Deus e os que têm rejeitado a Ele e ao Messias. Os o rejeitaram serão condenados ao fogo do juízo. Por outro lado, o fogo ardente e purificador do Espírito da Santidade também operam no crente (1Ts 5.19).

 

Óleo. Pedro, em seu sermão diante de Cornélio, declara: “Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude” (At 10.38). Citando Isaías 61.1, 2, Jesus proclama: “O Espírito do Senhor é sobre mim, pois que me ungiu para evangelizar os pobres” (Lc 4.18). Desde os primórdios, o azeite é usado primeiramente para ungir os sacerdotes de Yahewh, e depois, os reis e os profetas. O azeite é o símbolo da consagração divina do crente para o serviço no reino de Deus. Em 1 João, os crentes são advertidos a respeito dos anticristos:

 

E vós tendes a unção do Santo e sabeis tudo… E a unção que vós recebestes dele fica em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina todas as coisas, e é verdadeira, e não é mentira, como ela vos ensinou, assim nele permanecereis (1Jo 2.20, 27).

 

Receber a unção do Espírito da Verdade, que faz brotar rios de águas vivas no mais íntimo do nosso ser reveste-nos de poder para servir a Deus. Na simbologia do Espírito Santo, a água e o óleo (azeite da unção) realmente se misturam!

 

Pomba. O Espírito Santo desceu sobre Jesus na forma de uma pomba, segundo o relato dos quatro evangelhos. A pomba é arquétipo da mansidão e da paz. O Espírito Santo habita em nós. Ele não toma posse de nós, mas nos liga a si mesmo com amor, em contraste às correntes dos hábitos pecaminosos. Ele é manso e, nas tempestades da vida, produz paz. Mesmo ao lidar com os pecadores, Ele é suave, conforme se vê quando conclama a humanidade à vida, no belo, porém tristonho apelo que se encontra em Ezequiel 18.30-32: “Vinde e convertei-vos de todas as vossas transgressões com que transgredistes e criai em vós um coração novo e um espírito novo; pois por que razão morreríeis…? Porque não tomo prazer na morte do que morre, diz o Senhor Jeová; convertei-vos, pois, e vivei”.

 

Os títulos e símbolos do Espírito Santo são chaves para o entendimento de sua obra em nosso favor.

 Autor: Mark D. McLean, teólogo e pastor pentecostal norte-americano. Trecho da obra: HORTON, S. M. Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 1996.   

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Espiritualidade, avivamento e equilíbrio

eeee.jpgIntrodução 

“Deus estava perto de nós no culto. Na oração, o Espírito Santo se manifestou Poderosamente. Alguns riam debaixo do poder, outros falavam em línguas, outros  profetizavam, e todos se alegraram muito. Nunca vi o poder de Deus derramado num culto como hoje na Vila Correia. O Espírito Santo fez, Ele mesmo, por meio de uma irmã, o convite para os pecadores se converterem. Uma grande multidão se reuniu ao ver esta manifestação maravilhosa do poder de Deus. Também durante a pregação, as bênçãos de Deus caíam sobre os crentes! Aleluia!”1.  Foi dessa forma que o missionário Gunnar Vingren descrevia um culto realizado no Estado do Pará no dia 2 de maio de 1913. Percebemos na seqüência alguns termos que já são bem populares no vocabulário pentecostal moderno. São eles: ri debaixo do poder, falar em línguas e profetizar. Fenômenos como esses aconteciam com freqüência entre os primeiros pentecostais. A bem da verdade, esses fenômenos que faziam aflorar as emoções dos crentes não se limitavam aos avivamentos pentecostais, ou ao que outros movimentos avivalistas experienciaram de forma diferente, mas com semelhantes emoções. A questão não deve ser focalizada, portanto, na existência ou não desses fenômenos, mas na maneira como se reage a eles.

 Os Perigos dos Pneumatismos Anárquicos

 Muito se tem falado na teologia pentecostal moderna sobre os “modismos”, “inovações” e os “excessos” no exercício dos dons espirituais. Pesquisadores sérios como Esequias Soares, Paulo Romeiro e Ricardo Gondim têm demonstrado os perigos doutrinários a que se pode chegar quando um avivamento é divorciado dos princípios bíblicos. 

 Há o perigo dos “pneumatismos” que conduzem à anarquia espiritual. Na gênese das seitas que dizem ser criação do Espírito de Deus, encontra-se com abundância as mais insidiosas aberrações teológicas. Esse é um problema que não pode ser simplesmente ignorado por se desejar preservar um evangelicalismo ou um suposto avivamento. Um fato de fácil observação e que merece ser destacado é que uma dicotomia extremada parece querer dominar todos os campos das verdades teológicas. Os dons espirituais, portanto, não são exceções à regra. Já no período de 1742 a 1743, Jonathan Edwards pregou uma série de sermões que, em 1746, veio a se tornar um Tratado Sobre Afeições Religiosas, no qual ele tratava desse problema. N. R. Needham observa que Jonathan Edwards “teve que lutar em duas frentes. Por um lado, tinha que argumentar contra aqueles que descartavam todo o avivamento como histeria irracional; por outro, tinha que argumentar contra aqueles que pareciam pensar que tudo o que aconteceu no avivamento era (de Deus), não importa quão estranho, extremista ou desequilibrado isso fosse. Essas duas posições antagônicas parecem familiares?”2.  Uma das faces dessa dicotomia é vista por um lado naqueles que estão prontos a acreditarem e defenderem qualquer fenômeno espiritual sem a mínima preocupação de dar-lhe uma fundamentação bíblica e teológica. Para estes, a regra da validação dos dons espirituais parece ser a sobrenaturalidade. As perguntas que validam tais fenômenos costumam ser: É sobrenatural? É fenomenal? É tremendo? Donde se chega à conclusão: Então é de Deus! Uma outra coisa que precisa ser dita sobre esse modelo de “avivamento” é que ele além de não ser bíblico produz apenas uma espiritualidade superficial nos crentes.  A.W.Tozer observou: “Creio que a imperativa necessidade do momento não é apenas de reavivamento, mas de uma reforma radical que atinja a raiz dos nossos males morais e espirituais e que trate mais das causa que das conseqüências, mas do mal que dos sintomas. Minha sincera opinião é esta: nas atuais circunstâncias não estamos desejando de todo um reavivamento. Um vasto reavivamento, do tipo do cristianismo de que hoje temos conhecimento (…) pode bem provar ser uma tragédia moral da qual não nos recuperaremos dentro de cem anos.”3  

Os Perigos de uma Ortodoxia Engessante

 Por outro lado, as teologias que engessam qualquer manifestação do Espírito Santo caracterizam a outra face da dicotomia. O Espírito Santo parece perder o seu direito de falar para a Igreja hoje. A.W.Tozer já demonstrava uma grande preocupação com essa maneira de enxergar os dons espirituais. Em seu livro O caminho do poder espiritual, ele diz: “Por toda uma geração, certos mestres evangélicos nos têm dito que os dons do Espírito cessaram por ocasião da morte dos apóstolos ou quando se completou o Novo Testamento. Certamente esta doutrina não tem a seu favor sequer uma sílaba de autoridade bíblica. Os que defendem tal idéia devem assumir inteira responsabilidade por essa aberrativa manipulação da Palavra de Deus.”4  Será que na nossa teologia pentecostal de hoje não há mais espaço para as manifestações carismáticas do Espirito Santo? Como obreiro pentecostal, tenho me preocupado com a forte reação negativa aos dons espirituais demonstrada por alguns setores dentro do pentecostalismo. A desculpa de que os fenômenos espirituais no pentecostalismo são pura meninice ou excesso parece muito simplista e não toca no cerne da questão. O teólogo Martin Lloyd Jones já dizia, ao se referir a um avivamento: “E assim temos esta curiosa, estranha mistura, de grande convicção de pecado e grande alegria, um grande senso de temor do Senhor, ações de graças e louvor. Sempre, num avivamento, há o que alguém definiu como uma divina desordem (…) Há ocasiões em que as pessoas estão tão convictas e sentem o poder do Espírito de tal forma que desmaiam e caem no chão, e têm até convulsões, convulsões físicas. E às vezes as pessoas parecem cair num estado de inconsciência, numa espécie de transe, e podem permanecer assim por horas”.5 As manifestações “estranhas”, “meninices” que ocorrem durante a manifestação dos fenômenos espirituais em avivamentos não devem constituir motivo para que não os desejemos. As manifestações periféricas existem e devem ser devidamente tratadas, mas a essência do avivamento é outra. Quem já conviveu e presenciou o exercício dos dons espirituais sabe exatamente o que significa o que o apóstolo Paulo quis dizer: “Assim vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja”, 1Co 14.12. Os dons espirituais edificam e tornam o avivamento proveitoso. 

Mapeando os Fenômenos de um Avivamento  

Dois autores têm se destacado no estudo dos fenômenos espirituais do pentecostalismo e do neopentecostalismo. São eles Jack Deer e John White, respectivamente. Como psiquiatra, Jonh White procura dar explicações sobre as manifestações das emoções nesses avivamentos. Por outro lado, Jack Deer, que possui uma sólida formação teológica (Deer é Doutor em Teologia e ex-professor de Antigo Testamento e hebraico do Dallas Theological Seminary, onde foi instrutor de mestrado por alguns anos), faz um resgate histórico desses fenômenos na história da igreja, procurando sempre mostrar o lado positivo dos fenômenos pentecostais. As obras desses autores foram publicadas no Brasil. Surpreendido pela voz de Deus, Jack Deer (Vida); Surpreendido pelo poder do Espírito, Jack Deer (CPAD); e Quando o Espírito vem com poder, John White (ABU Editora). 

Cair no Espírito 

Tanto Deer como White têm dado forte ênfase aos dons espirituais. Infelizmente, é justamente na manifestação exterior dos fenômenos espirituais que a batalha tem se concentrado.  John Wesley enfrentou forte oposição de outros líderes cristãos justamente porque durante a sua pregação algo incomum acontecia. No seu diário há vários casos relatados. Wesley registrou nele algo que ocorreu durante a sua pregação do dia 25 de abril de 1739: “Imediatamente um, depois outro e outro caíram no chão; eles caíam em toda parte, como atingidos por um raio”. Em outra parte do seu diário, o pai do metodismo registra: “Um, depois outro e mais outro foram lançados ao chão, tremendo excessivamente na presença do Seu poder. Outros gritaram, em voz alta e amargurada: O que devemos fazer para ser salvos?’”.6  O cair sob o poder de Deus ao qual Wesley se refere é conhecido hoje na  teologia pentecostal como “cair no Espírito”. A obra The New International  Dictionary of Pentecosta and Charismatic Movements observa que essa é “uma expressão moderna para denotar o fenômeno religioso de uma queda individual, sendo que a causa é atribuída ao Espírito Santo. O fenômeno é conhecido entre os pentecostais modernos e na renovação carismática sob vários nomes, incluindo ‘caindo sob o poder’, ‘dominado pelo Espírito’, e ‘descanso no Espírito’’.7  William W. Menzies acrescenta: “Nessas reuniões ardentes (dos pentecostais), não era raro uma pessoa – ou muitas – cair numa espécie de transe, às vezes agitando-se violentamente. ‘Cair no Espírito’ era também um fenômeno muito difundido”. 8  Alguns autores querem diferenciar o “cair sob o poder” no avivamento wesleyano do “cair no Espírito” do pentecostalismo clássico ou moderno, afirmando que em Wesley isso ocorria como conseqüência de uma convicção de pecado, enquanto essa prática no pentecostalismo não apresenta essa mesma evidência. Sem desmerecer essa tese, ela parece muito subjetiva e carece de fundamentação mais sólida. Não há elementos que nos garantam afirmar que alguns fenômenos de “cair no Espírito” hoje não ocorram como conseqüência das mesmas convicções que experimentaram os seguidores de Wesley. Contudo duas observações sobre a ocorrência desse fenômeno parecem ser oportunas agora, e isto se deve ao fato da grande confusão criada em torno desse assunto.  

A primeira é que existe um fenômeno de “cair no Espírito” como manifestação de uma autêntica experiência espiritual bem documentada na história do pentecostalismo clássico; a outra é que existe a manipulação grosseira dessa mesma experiência. Ao se referir aos abusos causados por essa prática, Paulo Romeiro relembra que as Escrituras não oferecem qualquer apoio a esse fenômeno como algo a ser esperado ou buscado na vida cristã normal. Em seguida, Romeiro cita o Dicionário dos Movimentos Pentecostal e Carismático em sua antiga edição, que corrobora o seu pensamento: “A evidência para o fenômeno de ‘cair no Espírito’ é, portanto,  inconclusiva. Do ponto de vista experimental, é inquestionável que, através dos séculos, os cristãos têm experimentado um fenômeno psicológico no qual as pessoas caem; além disso, elas têm atribuído o fenômeno a Deus. É igualmente inquestionável que não exista qualquer evidência bíblica para a experiência como algo normal na vida cristã.”9 Rir no Espírito Apenas relembrando o que disse Gunnar Vingren em seu diário de 1913: “Na oração, o Espírito Santo se manifestou poderosamente. Alguns riam debaixo do poder”. Outra vez é oportuno enfatizar que tal fenômeno de “rir” não se limita ao movimento pentecostal. Jonathan Edwards registra que “sua regozijante surpresa fez com que seus corações estivessem a ponto de dar um salto, de forma que se condicionaram a dar vazão a risadas, lágrimas muitas vezes ao mesmo tempo fluindo numa enxurrada, e em meio a um choro audível”.10.  Deve ser dito, no entanto, e com tristeza, que essa prática tem ido a extremos. As bizarrices do “rir no Espírito” veiculadas pela mídia chega a causar náuseas. Ainda possuo comigo uma fita de vídeo que recebi dos Estados Unidos. O conteúdo da fita é de um Seminário de Inverno ocorrido na tarde de terça-feira do dia 23 de fevereiro de 1995. A fita fora intitulada When the Spirit Gets to Movin” (Quando o Espírito de Deus se Move). Isso aconteceu no auge daquilo que os apologistas chamam de a “unção do riso”. Após um estudo bíblico, o preletor começa a ministrar a cada pessoa individualmente. Ele encoraja as pessoas a se alegrarem no Senhor. A princípio as coisas acontecem dentro de certa normalidade, mas por fim ficam fora de controle. Há pessoas rindo como numa histeria coletiva por todo o auditório. Outros se contorcem em movimentos bruscos, enquanto outros riem até cair. O excesso e abuso das coisas espirituais ficam em evidência.  John White reconhece que essa experiência pode ser imitada, mas argumenta que esse não deve ser o motivo para negarmos a genuinidade da verdadeira. Ao falar do “rir no Espírito”, diz: “Em alguns círculos traz prestígio. Cair no riso do Espírito ou fazê-lo acontecer em outras pessoas pode tornar- se um marco de uma conquista espiritual. Nessas circunstâncias pode-se sentir uma certa pressão. As risadas ficam forçadas e desagradáveis. Mas não podemos desprezar as verdadeiras por temermos as falsas”.  Como citei Edwards anteriormente: “Embora haja falsas emoções na religião, e às vezes exaltadas, contudo sem dúvida há também verdadeiras, santas e boas emoções; e quanto mais estas são exaltadas, tanto melhor. E quando são exaltadas a uma altura extremamente elevada, não devem ser objeto de suspeita por causa do seu grau, mas, pelo contrário, devem ser estimadas”. 11 

Evitando os Abusos

 Seguem algumas diretrizes que julgo serem úteis para um obreiro buscar e se  conduzir frente ao avivamento:  

1) Cuidado para que o centro do avivamento esteja em Cristo e não numa manifestação espiritual exterior; 

2) Tenha sempre como fundamento a Palavra de Deus. Tenho observado que muitos pregadores quando ministram numa reunião de avivamento abandonam a Palavra de Deus (ou usam como pretexto nos seus sermões), para se concentrarem nos dons espirituais.

 3) Cuidados devem ser tomados com os pregadores que em nome de um suposto avivamento atuam como artista de púlpito, apenas animando o auditório e valendo-se de técnicas psicológicas para provocarem um emocionalismo superficial. Na verdade, esses pregoeiros estão buscando a autoglorificação.  

4) Cuidado com os avivamentos induzidos. Os estudiosos dos avivamentos observam que um avivamento acontece em primeiro lugar como resultado da vontade soberana de Deus. Os avivamentos ocorrem também como conseqüência da busca sincera de um coração puro e ardente pela manifestação da glória de Deus. Foi assim com o avivamento de 1904 no país da Gales com Evans Robert e no grande avivamento pentecostal de 1906 nos Estados Unidos da América. 

5) Cuidado com os pregadores sensacionalistas. Há relatos de pregadores que durante a ministração da Palavra de Deus param de pregar para atender Jesus no celular! Outros fazem coreografia para impressionar a Igreja. 

6) Cuidado com o avivalista que geralmente usa o nome de missionário e profeta, para exibir uma espiritualidade que não possui com objetivo de manipular a igreja e colocá-la sempre contra o seu pastor. 

7) Acompanhe de perto as reuniões de oração em busca de avivamento para que, quando este chegar, você possa canalizá-lo na direção certa.

  8) Julgue todas as supostas manifestações espirituais pela Palavra de Deus, não importando o quão espetacular pareçam ser.  

9) Procure ser sensível ao Espírito Santo, pois, quando em um avivamento acontecer alguma manifestação espiritual, Ele lhe dará convicção se aquilo é Dele ou não.  10) Observe os efeitos do avivamento. Se ele não glorificar a Jesus Cristo, não produzir mudança de vida, não promover a derrubada de ídolos, então não é do Espírito de Deus. É o Reavivamento Moderno Profundo? Fiquemos como reflexão final com as palavras de Donald Gee, um dos mais importantes representantes do pentecostalismo clássico, que ao analisar o avivamento moderno disse: “Pode ser que eu esteja errado, mas uma das coisas que percebo no reavivamento moderno é a grande tendência de manter a congregação feliz (…) se eu entendo a minha Bíblia, um reavivamento verdadeiro começa por fazer todos infelizes. A verdadeira felicidade começa com a infelicidade, com a preocupação dos pecadores. Outra coisa que me preocupa é a apostasia fácil hoje em dia. Meu receio é que da mesma maneira rápida como as pessoas vêm, elas se vão”.   A terceira pergunta a respeito do reavivamento moderno, e que me está causando a mais grave preocupação, é o declínio do sobrenatural. Que Deus conserve o Pentecoste pentecostal! Acredito firmemente que devemos receber a manifestação do Espírito de Deus em nós.  Tenho notado, em toda parte, como as reuniões estão seguindo uma rotina: começam com três hinos, depois vêm os pedidos de oração e tudo o mais segue de acordo com o programa. 

A liturgia é boa. “Todavia, numa igreja pentecostal livre, verdadeira, nunca se sabe o que poderá acontecer em seguida. Se o leitor me perguntasse o que considero a mais profunda necessidade entre nós, eu diria que é o arrependimento. Se o arrependimento não estiver no reavivamento, este não terá profundidade suficiente. O arrependimento é o requisito do batismo no Espírito Santo. Fico a pensar se a falta de arrependimento não é a razão dos nossos batismos atuais serem tão superficiais.  Oremos por um novo derramamento do Espírito Santo sobre o pregador e sobre todos nós, até que a terra amoleça com uma chuva serôdia, até que tenhamos um profundo reavivamento, reavivamento que nos conservará quebrantados, derretidos e amaciados diante do Senhor.”

12 Revista Obreiro, Ano 27, n.29, jan-mar, 2005, p.40-45.   

BIBLIOGRAFIA 

1 VINGREN, Gunnar. O Diário do Pioneiro. 5ª edição, Casa Publicadora das Assembléias de Deus, Rio de Janeiro, RJ, 1993. 

2 NEEDHAM, N. R. no prefácio do livro de Jonathan Edwards: “A Genuína Experiência Espiritual”.PES – Publicações Evangélicas Selecionadas. São Paulo, SP.

 3 TOZER, A. W. O Caminho do Poder Espiritual Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP. 

 4 TOZER, A. W. op.cit.

5 JONES, D.M. Lloyd. Avivamento. PES – Publicações Evangélicas Selecionas, São Paulo, SP.  

6 BURGESS, Stanley M. & MAAS, Eduard M. Van. The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Zondervan, Grand Rapids, Michigan, U.S.A, 2002. 

7 MENZIES, William W. No Poder do Espírito – fundamentos da Experiência Pentecostal. Editora Vida, São Paulo, SP. 

8 ROMEIRO, Paulo. Evangélicos em Crise. Editora Mundo Cristão, São Paulo, SP pág. 791.  

9 EDWARDS, Jonathan. The Works of Jonathan Edward. Citado por John White em Quando O Espírito Vem Com Poder. ABU – Aliança Bíblica Universitária. 

10 WHITE, John. Quando o Espírito Vem Com Poder. ABU Editora. São Paulo, SP, 1998.  

11 GEE, Donald. Depois do Pentecostes. Editora Vida, São Paulo, SP.   

Autor: Pr. José Gonçalves é líder da Assembléia de Deus em Senhora dos Remédios (PI), conferencista, escritor e professor de Grego, Hebraico e Religiões Comparadas.

2 comments Novembro 29, 2007

O Batismo no Espírito Santo

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“Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias.” At 1.5 Uma das doutrinas principais das Escrituras é o batismo no Espírito Santo. A respeito do batismo no Espírito Santo, a Palavra de Deus ensina o seguinte: 

1. O batismo no Espírito é para todos que professam sua fé em Cristo; que nasceram de novo, e, assim, receberam o Espírito Santo para neles habitar. 

2. Um dos alvos principais de Cristo na sua missão terrena foi batizar seu povo no Espírito (Mt 3.11; Mc 1.8; Lc 3.16; Jo 1.33). Ele ordenou aos discípulos não começarem a testemunhar até que fossem batizados no Espírito Santo e revestidos do poder do alto (Lc 24.49; At 1.4,5,8). 

3. O batismo no Espírito Santo é uma obra distinta e à parte da regeneração, também por Ele efetuada. Assim como a obra santificadora do Espírito é distinta e completiva em relação à obra regeneradora do mesmo Espírito, assim também o batismo no Espírito complementa a obra regeneradora e santificadora do Espírito. No mesmo dia em que Jesus ressuscitou, Ele assoprou sobre seus discípulos e disse: “Recebei o Espírito Santo” (Jo 20.22), indicando que a regeneração e a nova vida estavam-lhes sendo concedidas. Depois, Ele lhes disse que também deviam ser “revestidos de poder” pelo Espírito Santo (Lc 24.49; cf. At 1.5,8). Portanto, este batismo é uma experiência subseqüente à regeneração. 

4. Ser batizado no Espírito significa experimentar a plenitude do Espírito, (cf. 1.5; 2.4). Este batismo teria lugar somente a partir do dia de Pentecoste. Quanto aos que foram cheios do Espírito Santo antes do dia de Pentecoste (e.g. Lc 1.15,67), Lucas não emprega a expressão “batizados no Espírito Santo”. Este evento só ocorreria depois da ascensão de Cristo (1.2-5; Lc 24.49-51, Jo 16.7-14). 

5. O livro de Atos descreve o falar noutras línguas como o sinal inicial do batismo no Espírito Santo (2.4; 10.45,46; 19.6). 

6. O batismo no Espírito Santo outorgará ao crente ousadia e poder celestial para este realizar grandes obras em nome de Cristo e ter eficácia no seu testemunho e pregação (cf. 1.8; 2.14-41; 4.31; 6.8; Rm 15.18,19; 1Co 2.4). Esse poder não se trata de uma força impessoal, mas de uma manifestação do Espírito Santo, na qual a presença, a glória e a operação de Jesus estão presentes com seu povo (Jo 14.16-18; 16.14; 1Co 12.7). 

7. Outros resultados do genuíno batismo no Espírito Santo são: 

a. mensagens proféticas e louvores (2.4, 17; 10.46; 1Co 14.2,15);

 b. maior sensibilidade contra o pecado que entristece o Espírito Santo, uma maior busca da retidão e uma percepção mais profunda do juízo divino contra a impiedade (ver Jo 16.8; At 1.8); 

c. uma vida que glorifica a Jesus Cristo (Jo 16.13,14; At 4.33); 

d. visões da parte do Espírito (2.17); 

e. manifestação dos vários dons do Espírito Santo (1Co 12.4-10); 

f. maior desejo de orar e interceder (2.41,42; 3.1; 4.23-31; 6.4; 10.9; Rm 8.26); 

g. maior amor à Palavra de Deus e melhor compreensão dela (Jo 16.13; At 2.42); e

 h. uma convicção cada vez maior de Deus como nosso Pai (At 1.4; Rm 8.15; Gl 4.6). 

8. A Palavra de Deus cita várias condições prévias para o batismo no Espírito Santo. 

a. Devemos aceitar pela fé a Jesus Cristo como Senhor e Salvador e apartar-nos do pecado e do mundo (2.38-40; 8.12-17). Isto importa em submeter a Deus a nossa vontade (“àqueles que lhe obedecem”, 5.32). Devemos abandonar tudo o que ofende a Deus, para então podermos ser “vaso para honra, santificado e idôneo para o uso do Senhor” (2Tm 2.21). 

b. É preciso querer o batismo. O crente deve ter grande fome e sede pelo batismo no Espírito Santo (Jo 7.37-39; cf. Is 44.3; Mt 5.6; 6.33). 

c. Muitos recebem o batismo como resposta à oração neste sentido (Lc 11.13; At 1.14; 2.1-4; 4.31; 8.15,17). 

d. Devemos esperar convictos que Deus nos batizará no Espírito Santo (Mc 11.24; At 1.4,5). 

9. O batismo no Espírito Santo permanece na vida do crente mediante a oração (4.31), o testemunho (4.31, 33), a adoração no Espírito (Ef 5.18,19) e uma vida santificada (ver Ef 5.18 notas). Por mais poderosa que seja a experiência inicial do batismo no Espírito Santo sobre o crente, se ela não for expressa numa vida de oração, de testemunho e de santidade, logo se tornará numa glória desvanecente. 

10. O batismo no Espírito Santo ocorre uma só vez na vida do crente e move-o à consagração à obra de Deus, para, assim, testemunhar com poder e retidão. A Bíblia fala de renovações posteriores ao batismo inicial do Espírito Santo (ver 4.31 nota; cf. 2.4; 4.8, 31; 13.9; Ef 5.18). O batismo no Espírito, portanto, conduz o crente a um relacionamento com o Espírito, que deve ser renovado (4.31) e conservado (Ef 5.18).

Autor: Donald Stamps foi missionário no Brasil, autor da Bíblia de Estudo Pentecostal e Mestre em Teologia.

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