Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes
Outubro 17, 2008
Um grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de “pentecostalismo” dois fenômenos distintos. De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem — nem devem — ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus.
Podemos afirmar, ainda, um segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como “evangélicas”. Elas próprias, por muito tempo, relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação “evangélica” por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil. O evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento.
Se o pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo. O discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé. Chamar o bispo Macedo de protestante é de fazer tremer o Muro da Reforma, em Genebra, e os ossos de Lutero e Calvino em seus túmulos. Muita gente tem incluído a IURD, e assemelhadas, como pentecostais, evangélicas ou protestantes, para inflar, de forma triunfalista, os números, ou por temor de retaliações legais, ou extralegais, vindas daquelas instituições. Se sociólogos têm denominado manifestações novas na cristandade, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, ou a Ciência Cristã, como “seitas para-cristãs”, podemos denominar a Igreja Universal e congêneres de “seitas para-protestantes”.
O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo. Esse “bloco histórico” em formação, para se consolidar, não apenas deve se conhecer mais mutuamente, somando conceitos e subtraindo preconceitos, mas também responder aos desafios de um pluralismo que inclui a diversidade do catolicismo romano, o pseudo-pentecostalismo, o esoterismo, os sem-religião e um agressivo secularismo, emoldurado pelo relativismo pós-moderno. Isso passa, necessariamente, pelo aprender com a história da igreja — durante, depois e “antes” da Reforma — e pela superação de uma iconoclastia que, equivocadamente, equipara o artístico com o idolátrico.
Contamos com estadistas do reino de Deus, com humildade, visão e coragem para consolidar esse bloco?
• Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br
Fonte: Revista Ultimato
Entry Filed under: Pentecostalismo Clássico. .
5 Comments Add your own
Leave a Comment
Some HTML allowed:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <pre> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>
Trackback this post | Subscribe to the comments via RSS Feed
1.
Cláudio Pires | Novembro 20, 2008 at 3:36 pm
Concordo plenamente com o artigo publicado pelo blog a respeito do Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes, pois, apesar de um ancião da igreja Adventista do Sétimo Dia, e termos algumas diferenças doutrinárias, respeito e admiro muitos os pentecostais, mais precisamente a Assembleia de Deus, principalmente pelo seu fervor e zelo pelas coisas de Deus, porém não vejo nada que seja bíblico nessas igrejas “neo-pentecostais”.
Deus os abençoe.
2.
Danielle Ribeiro Santos | Janeiro 23, 2009 at 6:41 pm
Finalmente, alguém desmascarando essa seita chamada erroneamente de igreja (especificamente a IURD me refiro). Que tal, agora, ele demonstrar que realmente é um servo de Deus, desmascarar a sua própria denominação (Anglicana), que não passa de uma igreja MORTA E MUNDANA, ou seja, com a CARA DO MUNDO. Na igreja Anglicana há até ordenação até de transsexuais. Ou seja, o SUJO FALANDO DO MAL LAVADO.
3. Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes « DaniloMiguel.com | Fevereiro 12, 2009 at 10:57 am
[...] Excelente texto que encontrei aqui, Pentecostalismo, e que pode deve ser lido o restante aqui [...]
4.
Gilson | Março 22, 2009 at 6:34 pm
Pra mim é tudo uma questão de tempo. Um pouquinho de fermento leveda toda a massa, é so dar tempo. Nas ass. de Deus não ha (ainda) sal grosso, rosa vermelha, arruda, gruta do milagre, etc, mas tem as receitas (que imitam a ICAR) tais como faz 3 jejuns na semana (um a mais que os fariseus), faz uma campanha de 7 semanas de oração (ainda acrescentam so com muita oração), como se quantidade resolvesse (mateus 6). Estamos caminhando na mesma direção, os erros do passado voltam a ocorrer assim como o sol nasce todos os dias e a terra gira. A idolatria não é uma escultura ou objeto como alguns pensam e alguns lideres (concupiscentes) ensinam errado, para não serem enquadrados no flagrante delito, a idolatria é uma idéia, modo de pensar, atribuir poder a outrem ou coisa que não o próprio Deus. Adicionam alguns mais uma perola: Pouca oração, pouco poder.
E Mateus 6 deve estar rasgado da bíblia de muitos, pois agem como verdadeiros pagãos da citação do Senhor Jesus. Precisamos de mais um Lutero (que não tenha rabo preso), urgente.
5.
renato bernardino da silveira | Junho 2, 2009 at 6:59 pm
mar:9,32a34:mas eles não entendiam esta palavra,e receavam interrogá-lomas eles calaram-se;porque pelo caminho tinham disputado entre si qual era o maior;irmãos vcs não são diferentes,são farinhas do mesmo saco é repuguinante abrir sites evangélicos para ouvir,ler e ver tantas asneiras botem os juelhos no chão olhem para cima e tentem ver Jesus ascentado no trono que lhe é de direito,olhem para vossos umbigo e entenda vcs são como todos que estão em Cristo:trapo de imundicias,ponto pacífico!!!.