Somos deuses?

Incursões teológicas no contexto das Escrituras mostram a fragilidade do argumento dos que transformam opiniões em doutrina

 

Nova Era, o mormonismo, os espíritas e até alguns evangélicos têm sido desencaminhados com idéias anti-bíblicas em circulação na atualidade e que dizem, com efeito, que o homem é um deus ou tem a capacidade de tornar-se um. Às vezes, a afirmação de Jesus em João 10.34 é citada em suporte a tal tese: “Respondeu-lhes Jesus: Não está escrito na vossa lei: Eu disse: sois deuses?” Nesse texto Jesus está fazendo claramente menção do Salmo 82.6: “Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo”.

Os oponentes de Jesus, então, aproveitaram a circunstância para acusá-los de blasfêmia: “Os judeus responderam, dizendo: Não te apedrejamos por alguma boa obra, mas pela blasfêmia; porque, sendo tu homem, te fazes Deus a ti mesmo”, João 1033. Antes de examinarmos a lógica de Jesus na totalidade da resposta (10.34-38), será de grande valia olhar para a citação no Antigo Testamento em seu imediato a abrangente contextos.

Isso pode surpreender alguns, mas a palavra hebraica genérica para Deus (Elohim) tem outros significados no Antigo Testamento. (Ela é plural em número e pode convenientemente ser traduzida “deuses” quando aplicado ao homem). Nós devemos lembrar que isso não é aliança divina ou nome pessoal (Jeová / Yahweh), nem ela é Adonai (Senhor). A palavra elohim é também usada para divindades pagãs, porém mais para o ponto do nosso estudo, ela é usada com respeito ao homem.

O Salmo 82 indica a injustiça dos juízes em Israel. O versículo 1 afirma que “Deus está na congregação dos poderosos; julga no meio dos deuses (elohim)”.

O uso da palavra hebraica nesse sentido pode ser vista na passagem como a de Êxodo 22.8-9 a qual afirma que “se o ladrão não for achado, então o dono da casa ou ambas as partes envolvidas no caso da quebra de confiança serão levadas diante dos juízes (elohim)”.

O Targum (Traduções Aramaicas ou paráfrase das passagens do Antigo Testamento) interpreta a palavra nas passagens do Salmo 82 e em Êxodo 22 como significando juízes.

A mesma tradução pode ser aplicada em Êxodo 21.6 (NVI) que se refere ao escravo livre que deseja permanecer com seu mestre; e esse mestre os levará aos juízes (elohim). A Septuaginta, nesse verso, usa a palavra kriterion, que significa corte de julgamento ou tribunal. Essa palavra grega é encontrada em Tiago 2.6 e em 1Coríntios 6.2-4 com o mesmo significado básico.

Enquanto algumas das traduções possam ser contestadas, entretanto, é claro na palavra hebraica, especialmente no Salmo 82.6, referir-se ao homem. Como, então, pode ser uma palavra comum para Deus ser usada para designar homens como juízes?

Keil e Delitzsch afirmam que os juízes, que estão em posição de autoridade, são delegados por Deus, e portadores de sua mensagem. Por essa razão, com seus representantes, são também eles mesmos chamados elohim, “deuses”. Eles acrescentam mais: “o nome não pertencia a eles originalmente, nem poderiam eles mostrarem-se capazes de ser moralmente merecedores disso”. Essa declaração posterior é clara no Salmo 82.2-5. Esse conceito de que os juízes humanos são representantes de Deus é ecoado por Paulo em Romanos 13.1-7. Um ponto imperioso necessita ser observado que é o fato de que esses indignos juízes do Salmo 82.7 são mortais. “Todavia morrereis como homens, e caireis como qualquer dos príncipes”, Salmo 82.7.

Então deve ser notado que o Antigo Testamento é muito esparso na aplicação da palavra elohim ao homem. Isto é, por conseguinte, inapropriado generalizar deste modo o limitado e, muitas vezes, disputado uso da palavra, assim como meio de resistir à possibilidade de “divindade” para tudo.

Ademais, é extremamente importante entender o motivo pelo qual Jesus citou na passagem do Salmo 82. Ele não a citou para promover a idéia de que os homens são potencialmente deuses. Qualquer tentativa do homem ser como Deus é expressamente condenada à falha. Satanás manobrou para frustrar os planos de Deus ao tentar Adão e Eva prometendo a eles que “seriam como Deus” (Gênesis  3.5). A tentativa do primeiro casal de ser como Deus somente resultou na imagem de Deus neles sendo desfigurada, o que os removeu também da comunhão com Deus.

Herodes Agripa I sentiu satisfação intensa na adulação da multidão que disse que “sua voz era de Deus, e não de homem” (Atos 12.22-23). Embora ainda que o homem tenha sido criado à imagem e semelhança de Deus (Gênesis 1.26-27), ele foi feito um pouco menor do que Deus (Salmo 8.5). Essa última afirmação é uma resposta a essa questão, “Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites?”, Salmo 85.4.

A palavra elohim, no versículo 5 é, às vezes, entendida como que significando anjos, especialmente na visão de Hebreus 2.6-8, que cita a passagem da Septuaginta. “Mas em certo lugar testificou alguém dizendo: Que é o homem, para que dele te lembres? Ou o filho do homem, para que o visites? Tu o fizeste um pouco menor do que anjos, de glória e de honra o coroaste, e o constituíste sobre as obras de tuas mãos; todas as coisas lhe sujeitaste debaixo dos pés”.

O MOTIVO DE JESUS

De volta ao motivo pelo qual Jesus citou o Salmo 82.6, Ele poderia estar argüindo que se os juízes, que eram representantes de Deus, poderiam ser chamados de deuses, por que estão seus oponentes o acusando de blasfêmia quando ele alega ser alguém que parece ser menos – o filho de Deus – e não o Deus em si mesmo?

Também poderia ser que Jesus estivesse argüindo do menor ao maior. Os juízes no Salmo 82, ainda que fossem chamados de deuses, são indignos dessa designação porque eles têm a falsa aparência de ser alguma coisa como Deus. “Até quando julgareis injustamente, e aceitareis as pessoas dos ímpios? (Sela). Fazei justiça ao pobre e ao órfão; justificai ao aflito e necessitado. Livrai o pobre e o necessitado; tirai-os das mãos dos ímpios. Eles não conhecem, nem entendem; andam em trevas; todos os fundamentos da terra vacilam”, Salmo 2-5.

Porque então deveriam os oponentes de Jesus acusá-lo de blasfêmia porque ele se identificou a si mesmo tão rente com Deus, considerando que sua vida e trabalhos estavam em completo contraste com aqueles injustos juízes?

Isso é inquestionável e muitas vezes teologicamente perigoso generalizar uma aplicação limitada de uma passagem das Escrituras. Jesus não estava falando sobre a habilidade do homem em tornar-se ou ainda em agir como se Ele fosse Deus. O limite foi para sempre delineado entre Deus e o homem. Ele é o Criador, e nós somos criaturas suas. Ele tem nos honrado ao nos criar em sua imagem e semelhança, mas em nenhum lugar, as Sagradas Escrituras sugerem que nós temos a capacidade de nos elevarmos ou de sermos elevados ao status de deuses. Ele é Deus, e além Dele não pode haver outros deuses.

Nós somos seus filhos – filhos e filhas do Altíssimo – mas nós nunca poderemos chegar ao que Jesus inerentemente é, o Filho de Deus em senso único ao que Ele é da verdadeira natureza de Deus.

 

Por, Anthony D. Palma – Ministro do Evangelho, teólogo e escritor.
Manual do Obreiro (CPAD) – 2005

 

2 comments Julho 6, 2008

Sob o fogo do ESPÍRITO

 

 

Testemunha ocular relata fatos sobre o desdobramento do mover do Espírito em Azusa Street

Em 22 de maio de 1955, a senhora Flower e eu participávamos dos cultos da Bethel Pentecostal Church of Newark, em Nova Jérsei, onde tínhamos em mãos a cópia da edição da revista Pentecostal Evangel (Evangelho Pentecostal). Nós observamos na página 15 a nota de morte do ministro pioneiro pentecostal, Howard D. Stanley, com a idade de 79 anos.

A partida de Howard D. Stanley poderia ter sido sem importância se não fosse o fato de que ele foi um dos alunos de Topeka, Kansas. Esteve com aqueles que experimentaram o glorioso batismo no Espírito Santo em 3 de janeiro de 1901.

Na Escola Bíblica Betel, foi tomada, pelo corpo de estudantes, uma decisão instantânea, a partir dos estudos do livro de Atos, de que a evidência escriturística inicial do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas, como o Santo Espírito nos dava a pronunciar.

Essa não foi a primeira vez, desde os tempos apostólicos, que o Espírito Santo tinha sido derramado, acompanhado de manifestações espirituais, que incluíam profecia e o falar em línguas, como bem notou em With Sings Following (Com os Sinais Seguindo), Stanley H. Frodsham. 1

Nos Estados Unidos havia movimentos do Espírito Santo tão cedo quanto os de 1854 em Nova Inglaterra, entre os que eram conhecidos como “O povo doador”. Em Moorhead, Minnesota, em 1903, sob o ministério de John Thompson, o ministro da Missão Sueca, o Espírito Santo foi derramado e aqueles que receberam o Espírito falaram em línguas. A influência desse avivamento permaneceu conosco até esse dia.

Então nós aprendemos da Igreja de Deus, que o Espírito Santo derramado nos primeiros dias dessa comunidade na Shearer School House em Cherokee Country, Carolina do Norte, é que todos aqueles que foram batizados no Espírito Santo falavam em línguas, outras profetizavam e os milagres de cura ocorriam.

Enquanto haviam notáveis moveres do Espírito Santo nos quais os crentes falavam em outras línguas, profetizavam e as curas de doenças eram experimentadas, nenhum desses reavivamentos floresceu no Movimento Pentecostal, mas foram resultado do revestimento do Espírito que veio por volta da virada do século na Escola Bíblica Betel de Charles Parham.

Quando os estudantes daquela escola bíblica julgaram em seus estudos das Sagradas Escrituras que a evidência do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas, eles então permaneceram firmes e esperaram essa experiência até que o tempo da inauguração de um movimento chegou e foi circundar o mundo, tornando-se fortificado em todos os continentes e em quase todas as nações do globo.

Nós estávamos vivendo o período no qual a ciência tinha conseguido a excelência no átomo, e nós ouvimos sobre a fissão nuclear e o encadeamento de nações. Isso poderia parecer que há um paralelo entre a descoberta dos segredos do átomo e o derramamento do Espírito Santo.

Em primeiro de janeiro de 1901, uma jovem senhora chamada Agnes N. Ozman, aluna da Escola Bíblica de Topeka, Kansas, pediu que mãos se estendessem sobre ela, porque queria receber o Espírito Santo, de acordo com o exemplo registrado no livro de Atos. Embora os líderes da Escola tivessem todo receio pela autoridade que possuíam, eles responderam ao pedido impondo as mãos sobre ela e Deus honrou a fé de Agnes, batizando-a no Espírito Santo. Ela falou em línguas e glorificou ao Senhor.

Esse é um átomo espiritual que explodiu e produziu uma nuvem de efeitos. As partículas ativadas difundiram-se pelo Kansas, para o Missouri, ao Texas, e finalmente a Los Angeles, na Califórnia. Dali expandiu-se para todas as partes da Terra. Com a possível exceção da Igreja de Deus e da Casa das Meninas, na Índia, dirigida por Pandita Ramabai, toda unidade pentecostal em existência hoje pode ser trilhada de volta a esse ignorado começo no Estado do Kansas.

Os recém-batizados estudantes foram inspirados para começar primeiro pela adjacência da Escola, depois pelas cidades vizinhas incluindo Lawrence; Kansas City; Galena, Kansas e Joplin, Missouri. A história do Movimento Pentecostal avivando Galena em 1903, em Orchard e Houston, Texas, em 1904 e 1905, é registrada em With Sings Following, que é leitura importante. 2

O derramamento do Espírito Santo em Los Angeles, e o avivamento na Missão da Azusa Street foi, de fato, um estopim e um efeito da reação em cadeia.

William J. Seymour, o pregador negro da santidade, chegou em Los Angeles sob a influência do Movimento da Fé Apostólica (como o movimento pentecostal ficou primeiramente conhecido) em Houston, Texas.

Embora tenha sido admoestado pelos irmãos a não ir a Los Angeles até que recebesse o batismo pentecostal, Seymour, todavia, sentiu-se impelido a aceitar o convite que lhe foi feito. O resultado de sua ida para Los Angeles é bem conhecida, pois em Los Angeles, Califórnia, em 9 de abril de 1906, quando as primeiras pessoas na cidade receberam o Espírito Santo, de acordo com a promessa, outro átomo espiritual foi explodido, o qual espalhou a mensagem pentecostal até os confins da Terra.

O brilho dessa explosão pentecostal foi tão grande, que muitos não se aperceberam das ligações em cadeia. Isso pode ser traçado de volta até Houston, onde o grande avivamento pentecostal ainda estava em progresso, e ainda mais longe de volta à escola Bíblica Betel.

O Movimento da Fé Apostólica, que se centrou em Houston, foi crescendo gradualmente em poder espiritual e influência. Tem sido estimado que, por volta desse tempo (1955) existirem cerca de mil pessoas no meio oeste batizadas no Espírito Santo e 60 ou mais ministérios reconhecidamente pentecostais. O original Movimento da Fé Apostólica no sudoeste foi destinado a formar o núcleo da Assembléia de Deus alguns anos mais tarde. Deve ser notado que em 20 de dezembro de 1913, a edição de Word and Witness (Palavra e Testemunho), um periódico pentecostal publicado em Malvern, Arkansas, a lista de 352 ministros reconhecidos do Movimento foi publicada, muitos dos quais estavam trabalhando para Cristo nos estados do Meio-oeste.

O grande ímpeto para a expansão da mensagem pentecostal mundialmente veio de Los Angeles. Foi lá que as Boas-Novas se expandiram para o mundo pelo boca-a-boca e pela palavra impressa. Foi para Los Angeles que centenas de ministros se encaminharam e receberam o Espírito Santo na plenitude pentecostal, e então se difundiu a mensagem para todas as partes dos Estados Unidos e Canadá. O periódico, Apostolic Faith (Fé Apostólica), publicado em Los Angeles, também foi um instrumento para levar a mensagem para muitos cristãos famintos, que, inspirados pelo que estava acontecendo em outra parte, procuraram ao Senhor diligentemente, difundindo deste modo o fogo em suas comunidades que ainda não tinham sido tocadas pelas mensagens pregadas pelas personalidades de Los Angeles.

C. H. Manson, um ministro negro da santidade, deixou sua casa em Menphis, Tennessee, e foi a Los Angeles em 1906. Lá recebeu o batismo pentecostal e de lá retornou para casa para difundir a experiência entre seu próprio povo. Ele foi o fundador da Igreja de Deus em Cristo, a qual, de acordo com que alegam, disputava um número de membros com a maior igreja pentecostal de brancos. C. H. Manson é altamente reverenciado tanto por negros quanto brancos pentecostais por causa de seu trabalho.

G. B. Cashwell, um ministro da Associação da Santidade da Carolina do Norte, veio a Los Angeles em 1906, recebeu o batismo no Espírito Santo e retornou à sua casa em Dunn, na Carolina do Norte, onde alugou um grande armazém e começou os encontros. G. B. Cashwell foi a ligação na expansão da mensagem pentecostal que se abriu para os estados do Sudeste.

Está registrado que, antes de 1907, estava concluído tudo ou aproximadamente tudo, os ministros de fogo batizados na Igreja da Santidade haviam recebido a experiência pessoal do batismo no Espírito Santo. Três grupos nos estados do Sudeste, que tinham recebido a mensagem por meio do irmão Cashwell, mais tarde combinaram e formaram a Igreja Pentecostal da Santidade.

Um ano depois de G. B. Cashwell ter voltado ao Sudeste, em janeiro de 1908 ele pregou em Cleveland, Tennessee, no encerramento da Conferência Geral da Igreja de Deus. A. J. Tomlinson, nessa época pastor da Igreja em Cleveland, recebeu o batismo pentecostal. Ele não foi o primeiro a aceitar a mensagem pentecostal, embora a igreja em que ele servia fosse pentecostal desde o derramamento pentecostal em 1896. Irmão Tolinson era de personalidade forte e líder capaz. Ele foi escolhido como moderador da Assembléia Geral de 1909. A igreja foi confirmada em sua posição pentecostal, e ao longo dos anos que se seguiram, foi contribuindo grandemente para a difusão da mensagem pentecostal.

Outros, influenciados por G. B. Cashwell, incluíam os dois evangelistas denominados H. G. Rodgers e M. M. Pinson. Esse homem levou a mensagem para Geórgia, Alabama e para o Mississipi. Eles também a divulgaram no sul da Flórida. Mais tarde, esses dois homens foram um instrumento para trazer para a Assembléia de Deus um número de igrejas que haviam sido criadas sob seu ministério no Sudeste. Entrementes, o fogo pentecostal foi levado ao Canadá por R. E. McAlister, irmão e irmã Hebden de Toronto, além de A. H. Argue, de Winnipeg. Não demorou muito para que a mensagem pentecostal fosse espalhada por todo o território.

A senhorita Ivey Campbell, mulher de profunda piedade, recebeu o batismo no Espírito Santo em Loas Angeles e levou a mensagem a Akron, Ohio.

No verão de 1907, aconteceu um glorioso encontro no campo Beulah Park em Cleveland, Ohio, onde muitos dos ministros e cristãos leigos e a Aliança Missionária viveram a experiência pentecostal. Muitos desses, mais tarde se aliaram à Assembléia de Deus. Outros continuaram com a Aliança, modificando suas visões relativamente ao falar em línguas, em conformidade com a posição da Aliança nessa matéria.

Os anos de 1906 a 1908 foram notáveis, porque durante esses anos a mensagem pentecostal foi propagada por todo mundo. Los Angeles e a missão da rua Azusa tornaram-se símbolos do pentecostes. O movimento, entretanto, estava fora de controle, por causa dos novos centros que estavam sendo estabelecidos e que não tinham particular submissão à missão da rua Azusa. Periódicos começaram a aparecer seguindo o estilo dos primeiros periódicos surgidos, publicados em Houston, Texas, o Apostolic Faith (Fé Apostólica), e o segundo que possuía o mesmo nome, mas que era publicado em Los Angeles.

Outros periódicos logo surgiram, como o: The Bridegroom’s Messenger (Mensagem do Noivo), publicado em Atlanta, Geórgia; The way of Faith (Caminho da Fé) de Columbia, Carolina do Sul; The New Actos (Os novos Atos), Alliance, Ohio; The Latter Rain Evangel (Evangelho das últimas chuvas), e Pentecostal Testimony (Testemunho Pentecostal), Chicago, Illinois; The Church of God Evangel (Igreja de Deus da Boa-nova), Cleveland, Tennessee; The Pentecostal Holiness Advocate (Defensor da Santidade Pentecostal), Franklin Springs, Geórgia. Todos esses contribuíram para difundir o movimento pentecostal que estava imediatamente tão longe quanto a liderança da Missão da Rua Azusa ou o grupo de Houston, Texas, pudessem se preocupar. O Movimento da Fé Apostólica tinha de fato se tornado o Movimento Pentecostal, e o vigor para ser reconhecido no mundo religioso.

Mas a propagação do Movimento não ficou confinada aos Estados Unidos e Canadá. Ele foi propagado além-mar a todo continente, e a rapidez com a qual a reação em cadeia tomou lugar foi surpreendente também.

Quem pode entender os caminhos do Senhor? Quem poderia imaginar a conseqüência da decisão feita pelo pastor T. B. Barrat de visitar os Estados Unidos em 1906? Pastor Barrat, ministro da Igreja Metodista em Christiania, Noruega, visitou a América para pedir fundos para abrir uma missão numa cidade grande, próxima à capital do seu país. Sua angariação de fundos não foi bem-sucedida, mas ele veio a ter contato com a Missão da Fé Apostólica em Nova Iorque, que lhe conduziu à convicção das suas necessidades espirituais. Barret abriu seu coração e não tardou a receber o batismo pentecostal em 7 de outubro de 1906. O pastor Barrat retornou para casa e, sob seu ministério, o avivamento tomou conta da Noruega, em janeiro de 1907.

Christiania, mais tarde denominada Oslo, tornou-se o centro da reação em cadeia que carregou a mensagem pentecostal para a Suécia, Inglaterra, Dinamarca, e muitos outros lugares no continente. Pastor Lewi Pethrus leu sobre os encontros de Barret em um jornal de Estocolmo em janeiro de 1907, e foi a Oslo. Por meio desse contato, a mensagem pentecostal foi introduzida na Suécia.

A. A. Boddy, diretor da Igreja Episcopal de Todos os Santos em Suderland, Inglaterra, ficou quatro dias com o pastor Barrat, e depois retornou para casa. Sob seu ministério, foram despejadas em abundância as últimas chuvas em Suderland, em setembro de 1907. A primeira cidade na Escócia a experimentar o batismo das últimas chuvas foi a cidade de Kilsyth, também no ano de 1907. Dois missionários foram de Oslo para a Suíça, levando a mensagem pentecostal a esse país em 1908.

A África do Sul foi visitada pelo avivamento pentecostal no início de 1908. Thomas Hezmalhalch foi de Los Angeles para Indianópolis, em março de 1907. Ele e seu grupo então voltaram a Zion, Illinois, onde Deus deu a eles projeção ao ministério pentecostal. O trabalho em Zion foi aberto em 1906 por Charles F. Parham, o líder do Movimento da Fé Apostólica em Houston, Texas; por isso o grupo ficou bem preparado para o ministério de Hezmalhalch. Seguindo esse encontro, o grupo retornou à Indiana e os planos eram organizar o grupo para ir à África do Sul. A caravana consistia de Thomas Hezmalhalch e esposa, John G. Lake e esposa, J. O. Lehman, Lois Schneiderman, entre outros, que deixaram a América e foram diretamente para Johannesburg. Os mesmos sinais que seguiram o ministério da Palavra nos Estados Unidos foram experimentados no Sul da África, e a Fé Apostólica nasceu. Mais tarde, obreiros retornaram à América, mas as sementes plantadas continuaram a germinar até que a Missão da Fé Apostólica alcançasse as proporções atuais (em 1955).

O que mais poderíamos dizer? Os primeiros missionários foram à China e para a Índia. O livro da senhorita Minnie Abrams intitulado, The Baptism of the Holly Ghost an Fire (O Batismo no Espírito Santo e com Fogo), que descreve o avivamento na casa das meninas dirigida por Pandita Ramabai, caiu nas mãos de W. C. Hoover, missionário Metodista no Chile, em 1907. Como resultado, o Espírito Santo foi derramado no Chile sob o ministério do irmão Hoover, em julho de 1909.

Durante esses primeiros anos, a mensagem pentecostal foi carregada por um encadeamento espiritual na Alemanha, na Europa Oriental, Rússia, Bulgária, Hungria, Itália, Egito, muitas partes da África, Índia, China, Japão, Américas Central e do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Seria impossível contar toda a história.

Centenas e centenas, talvez milhões de almas tenham sido esclarecidas com o privilégio em Cristo de receberem a plena salvação, e tenham recebido o batismo no Espírito Santo. Os Atos dos Apóstolos têm sido repetidos em grande escala, os quais ultrapassam as almejadas expectativas dos pioneiros. Como o final será, ninguém pode possivelmente saber.

Por, J. Roswell – Foi secretário das Assembléias de Deus, em 1914. Esse artigo foi publicado em 29 de janeiro de 1956. Traduzido e publicado com autorização do Pentecostal Evangel.
Mensageiro da Paz (CPAD) – 2006.

NOTAS

1 FRODSHAM, Stanley H. With Signs Following, (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1941), 253-2262.
2 Ibid., 19-29.

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Pneumatologia, por Gordon Chown

 


O Espírito Santo: uma Pessoa ou uma energia?

Apesar de tudo quanto podemos acolher com gratidão daquilo que o Antigo Testamento nos ensina a respeito do Espírito Santo, a doutrina realmente distintiva a respeito provém do Novo Testamento.

Em João 7.39, lemos que “Até então o Espírito ainda não tinha sido dado, pois Jesus ainda não fora glorificado”. O que fica claro é que o Espírito, até então, nunca tinha sido outorgado no sentido mais pleno, e que não seria derramado sobre toda carne até que Jesus fosse glorificado. Ou seja: o Espírito Santo, conforme é definido no Novo Testamento, é outorgado às pessoas como resultado da obra de Jesus Cristo. O Novo Testamento, a partir de então, continua ressaltando a íntima conexão entre o Espírito e Jesus.

O ESPÍRITO DE JESUS

O Espírito Santo é “o Espírito de Jesus” (Atos 16.7), “o Espírito de Jesus Cristo” (Filipenses 1.19), “o Espírito de Cristo” (Romanos 8.9), “o Espírito do seu [de Deus] Filho” (Gálatas 4.6). A obra de Jesus e a obra do Espírito estão profundamente entrelaçadas entre si. O Espírito dá testemunho de Jesus (João 15.26), faz as pessoas lembrarem-se daquilo que Jesus disse (João 14.26) e glorifica a Jesus (João 16.14).

Não se pode negar que o Novo Testamento é marcado por uma profusão da atividade do Espírito, tanto assim que Atos dos Apóstolos poderia ser chamado “Atos do Espírito Santo”. Os Evangelhos relatam o que Cristo fez e disse, enquanto Atos relata o que o outro Consolador fez e disse.

Tudo isso é sempre considerado como uma das conseqüências da encarnação. Não há referência no Novo Testamento a alguma obra do Espírito à parte de Cristo – trata-se do “Espírito de Cristo”. Portanto, o Espírito Santo, ao nos alcançar, transmite a nós os pensamentos de Cristo, suas emoções, sua vontade, sua vitalidade.

MÁ INTERPRETAÇÃO

Repudia-se, assim, uma suposta “Dispensação do Espírito” no sentido de o Pentecostes ter possibilitado um relacionamento com Deus independentemente de Cristo. É da máxima importância ressaltar que ser cristão depende daquilo que Cristo fez.

Hoje, Jesus Cristo faz em mim, mediante o Espírito, aquilo que Ele já fez por mim séculos atrás, na Cruz, por meio de sua Pessoa. É essa revelação do Espírito no Novo Testamento que ocupará a nossa atenção até ao fim desse estudo, no qual selecionaremos os aspectos mais importantes e veremos sua relevância para hoje.

A primeira questão é se o Espírito é uma Pessoa ou uma coisa? É um ser vivente real assim como o Pai e o Filho, ou é um poder, uma influência ou uma força que leva a efeito o propósito divino? Fica claro o impacto primário do ensino do Novo Testamento: o Espírito é considerado consistentemente como uma pessoa. Quanto a Deus Pai, a própria palavra “Pai” tem significado implícito que nos leva a considerá-lo como Pessoa, no sentido mais pleno da palavra. Quanto ao Deus Filho, é mais fácil ainda pensar nele como o Menino de Belém, o Carpinteiro de Nazaré, o Mestre da Galiléia, apesar da sua plena divindade manifestada na Ascensão.

O Espírito Santo, porém, sem o conceito de “Pai” e sem o da encarnação de Filho, é mais difícil retratarmos. Sua operação é interior e invisível, pos Ele nos dá graça, orientação, forças etc. Tanto que poderíamos atribuir a Ele uma influência procedente do Pai. “Espírito” é neutro em grego (e em inglês). Ele é simbolizado no Novo Testamento pelo óleo, fogo, vento, água etc., de modo que as seitas, como as Testemunhas de Jeová e os Adventistas do Sétimo Dia, dentre muitas outras, facilmente o imaginam como uma força inanimada.

CONSOLADOR OU CONSELHEIRO

A palavra grega em pauta é parakletos, que literalmente significa alguém “chamado ao lado” de outra pessoa, normalmente para ajudar. Pode ser para falar uma palavra favorável no julgamento desta. Nesse sentido, consta em 1João 2.1: “Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo”. Na versão King James, coloca-se Advocate, “defensor” (que não devemos transliterar como Advogado, pois a Bíblia tem juiz, réu e vítima, com suas respectivas testemunhas, todavia não tem o “advogado” moderno).

As demais passagens onde ocorre parakletos são João 14.16, 26; 15.26; 16.7, com a tradução tradicional de Consolador. Na Nova Versão Internacional, é Conselheiro. O essencial, aqui, é que a palavra teria sido entendida pelos leitores originais de João como referente a uma pessoa – seja Consolador, Conselheiro, Intercessor, Defensor, Ajudador (sendo todas essas palavras tipicamente aplicadas a Deus no Antigo Testamento).

Em grego, “espírito” é uma palavra de gênero neutro, conforme mencionamos supra, e o respectivo pronome ou adjetivo está na forma neutra. O apóstolo João obedece essa regra quando as duas palavras estão juntas. Todavia, fora disso, usa o masculino “ele”. Para a gramática rigorosa, é incorreto, mas nos leva a entender que João pensava habitualmente no Espírito em termos pessoais. Veja o que João 16.13 diz: “…aquele [masculino] Espírito [neutro]…” (ARC).

Continuando a análise em grego, precisamos definir “outro Consolador” (João 14.16). Em grego, temos állos, que significa “outro do mesmo tipo”, e héteros, “outro de tipo diferente”.

Na mesa, alguém nos oferece uma laranja e, depois, pedimos állos – mais outra. Se pedirmos héteros, seria outra fruta – banana, maça, pêra etc. Jesus se refere a “állos Consolador” – alguém semelhante a Ele, Jesus.

Nos discursos de despedida de Jesus (João 14.15-17, 25-26; 15.26-27; 16.5-11, 12-15), veremos que o Espírito é sempre referido como uma Pessoa. Ele fará as pessoas se lembrarem daquilo que Jesus falou e as ensinará (João 14.26); testemunhará a respeito de Jesus (15.26); guiará as pessoas, ouve e fala (João 16.13); e glorificará a Jesus e declarará determinadas coisas (João 16.14). Fica claro, então, que no Evangelho de João, o Espírito é considerado consistentemente como Pessoa, e não como mera influência ou poder.

ESPÍRITO SANTO NOS ESCRITOS PAULINOS

O Espírito Santo ocupa espaço considerável nos escritos do apóstolo Paulo. Chega ao ponto de ele dizer: “Se alguém não têm o Espírito de Cristo, não pertence a Cristo”, Romanos 8.9, e pela proposição positiva: “…porque todos os que são guiados pelo Espírito de Deus são filhos de Deus”, Romanos 8.14.

Quando Paulo encontrou alguns supostos cristãos, perguntou imediatamente: “Vocês receberam o Espírito Santo quando creram?” (Atos 19.2). Diante da resposta negativa, Paulo passou imediatamente a retificar a situação: “Mas Paulo disse: Certamente João batizou com o batismo de arrependimento, dizendo ao povo que cresse no que após ele havia de vir, isto é, em Jesus Cristo. E os que ouviram foram batizados em nome do Senhor Jesus. E, impondo-lhes Paulo, as mãos, veio sobre eles o Espírito Santo; e falavam em línguas e profetizavam. E estes eram ao todo uns doze varões”, Atos 19.4-7.

Devido a importância que Paulo atribui ao Espírito Santo, suas epístolas abundam em referências ao Espírito Santo. Usualmente, ele refere-se ao Espírito como ativo de alguma maneira. Na base dessas atividades, vê-se que o Espírito é forçosamente uma Pessoa. Vejamos, por exemplo, o que diz 1Coríntios 12.11: “Mas um só e o mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer”. Essas operações são atribuídas a uma pessoa e o “querer” caracterizam personalidade.

PERSONALIDADE

A personalidade está envolvida na “mente” ou “intenção” do Espírito (Romanos 8.27), que é considerado entidade pensante, assim como em 1Coríntios 2.11 – “O Espírito conhece”. Não se trata de um ser friamente intelectual, pois Paulo fala do “amor do Espírito” (Romanos 15.30) e da possibilidade de “entristecer” o Espírito Santo (Efésios 4.30). O amor e cuidado do Espírito pelas pessoas são vistos na sua intercessão intensiva “com gemidos inexprimíveis” (Romanos 8.26), e isso “de acordo com a vontade de Deus” (v27), o que enfatiza sua união com o Pai. O Espírito Santo “clama” (Gálatas 4.6), habita nas pessoas (Romanos 8.9), as dirige (Romanos 8.14) e as ensina (1Coríntios 2.13). “O próprio Espírito testifica ao nosso espírito que somos filhos de Deus”, Romanos 8.16.

Semelhantemente, Paulo repetidas vezes associa o Espírito com o Pai e o Filho, como, por exemplo, quando diz: “A graça do Senhor Jesus Cristo, o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo seja com todos vocês”, 2Coríntios 13.13; “Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito Santo é dada a cada um para o que for útil”, 1Coríntios 12.4-6; “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; Um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Um só Deus e pai de todos, o qual é sobre todos e por todos, e em todos”, Efésios 4.4-6.

Não se pode imaginar que Paulo quisesse nos dizer que, apesar de o Pai e o Filho serem Pessoas, o Espírito Santo não é Pessoa. Os três são invocados em pé de igualdade.

DISTINTO DO PAI E DO FILHO

Assim, chegamos a questão do relacionamento entre o Espírito, por um lado, e o Pai e o Filho, por outro lado. A maioria das referências ao Espírito no Novo Testamento alude a Ele em operação, mas sem referência ao Pai ou ao Filho. Exemplificando: “Pelo Espírito, a um é dada a palavra de sabedoria”, 1Coríntios 12.8. Aqui temos o Espírito fazendo algo dentro do crente. Segundo a impressão dada pelo referido texto e por inúmeros outros no Novo Testamento, Ele é classificado como Entidade individual.

No entanto, não podemos ficar somente com alguma impressão. Existem várias passagens que falam de todas as três Pessoas da Trindade. Temos a “graça” em 2Coríntios 13.14, as “unidades” (“um só”) em Efésios 4.4-6 e as “diversidades” em 1Coríntios 12.4-6.

Temos ainda a fórmula batismal registrada em Mateus 28.19: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. Em Marcos 1.10-11, lemos que o Espírito desceu em forma de pomba sobre Jesus e, ao mesmo tempo, a voz do Pai veio dos Céus. Cada membro da Trindade tem seu respectivo papel separado nesse episódio.

No mesmo sentido, vemos o Filho orando ao Pai para ele enviar o Espírito (João 14.16). Tanto o Pai quanto o Filho estão envolvidos na missão do Espírito (João 14.26; 15.26; 16.15). Às vezes, toda a Trindade é mencionada: “Por meio dele [de Cristo] tanto nós como vocês temos acesso ao Pai, por um só Espírito”, Efésios 2.18 (RA). Uma dupla menção acha-se em Romanos 8.11: “E, se o Espírito daquele [de Deus] que ressuscitou a Jesus Cristo dentre os mortos habita em vocês, aquele [Deus] que ressuscitou a Cristo dentre os mortos também dará vida a seus corpos mortais, por meio do seu Espírito, que habita em vocês”. Veja também Romanos 15.16; 1Coríntios 6.11; 2Tessalonicenses 2.13; Tito 3.4-6; 1Pedro 1.2 e Judas 20-21. Essas são passagens suficientes para vermos que o Novo Testamento ensina sobre as três Pessoas em conjunto.

Há passagens que se referem a dois membros da Trindade de modo que não podem ser considerados idênticos. Jesus nos diz: “…é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei”, João 16.7. Esse texto inclui a possibilidade de a identidade entre Jesus e o Espírito ser confundida. Da mesma forma, vemos o Espírito Santo fazendo intercessão por nós diante do Pai (Romanos 8.26-27), o que exclui a identidade do Espírito ser confundida com a do Pai. Por meio desses textos, notamos claramente que é, então, mantida uma distinção entre os membros da Trindade, e é excluída a idéia de o Espírito ser um “aspecto” ou “força” do Pai e do Filho. Assim, o Espírito não é uma coisa, mas uma Pessoa.

ASSOCIAÇÃO COM O PAI E O FILHO

Já notamos que existem várias passagens no Novo Testamento onde o Espírito é mencionado na mais íntima conexão com o Pai e o Filho. Nelas, nada se diz a respeito do relacionamento entre os membros da Trindade. No entanto, muita coisa está subentendida, conforme veremos. Na fórmula batismal (“…batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo”, Mateus 28.19), não há definição da natureza essencial dos membros da Trindade. Quanto à deidade, nenhum ser no Céu ou na Terra poderia ser colocado na mesma expressão, na mesma categoria. A palavra “nome” está no singular – o que expressa a unidade das três Pessoas. A deidade consiste no Pai, no Filho e no Espírito Santo.

O mesmo pode ser dito a respeito de todos os textos que vinculam entre si as três Pessoas. O Espírito é um ser em igualdade de condições com o Pai e o Filho. O Espírito participa da inauguração do ministério de Jesus, ao descer sobre Ele no batismo (Marcos 1.10-11). O Espírito também se destaca na encarnação de Jesus.

Em Mateus 1.18, Maria se achou grávida pelo Espírito Santo (Lucas 1.35), vemos ainda o Espírito Santo levando as pessoas a Jesus, testemunhando Dele e continuando a sua obra (João 14.26; 15.26; 16.13-15).

Paulo, em Romanos 15.16, fala dos gentios sendo “santificados pelo Espírito Santo”. As Boas-Novas daquilo que Cristo fez em favor das pessoas incluem um lugar para a operação do Espírito. A obra do Pai em dar vida às pessoas é “pelo seu Espírito, que habita em vós” (Romanos 8.11).

O conceito de Deus, por mais sublime e enaltecido que seja, vir a conviver com o homem em amor e misericórdia é visto em muitas partes das Escrituras: “Pois assim diz o Alto e Sublime, que vive para sempre, e cujo nome é santo: Num alto e santo lugar habito, e também com o contrito e humilde de espírito”, Isaías 57.15.

Às vezes, é deixado claro que é por meio do Espírito Santo que Deus convive entre as pessoas e dentro delas. É assim que Paulo escreve aos coríntios: “Não sabeis, vós que sois templos de Deus, e que o Espírito de Deus habita em vós? Se alguém destruir o templo de Deus, Deus o destruirá; porque o templo de Deus que sois vós, é santo”, 1Coríntios 3.16-17.

O santuário é onde as pessoas buscam a presença de Deus, é onde Deus habita de modo especial. E no santuário, aqui mencionado, é o “Espírito de Deus” que habita. A inferência é clara: o Espírito Santo é Deus – Deus habitando no homem (1Coríntios 6.19).

De acordo com o registro de João, Jesus, na noite antes da crucificação, disse aos apóstolos: “E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; o Espírito da verdade que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós”, João 14.16-17.

Não se trata de uma manifestação fugaz e secundária. A presença do Espírito dentro das pessoas é “para sempre”, enquanto o crente nutri-la. Essa presença santificadora e eterna, como num santuário, não pode ser menos do que Deus.

AS COISAS MAIS PROFUNDAS DE DEUS

Paulo, referindo-se à sabedoria que o Espírito nos revela (1Coríntios 2.6-10a), explica: “O Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as coisas mais profundas de Deus. Pois, quem conhece os pensamentos do homem, a não ser o espírito do homem que nele está. Da mesma forma, ninguém conhece os pensamentos de Deus, a não ser o Espírito de Deus”, 1Coríntios 2.10-11.

O Espírito, tendo a própria natureza da deidade, tem nítido conhecimento das coisas de Deus. As mensagens dos profetas, registradas no Antigo Testamento, não tiveram sua origem na sagacidade, entendimento e habilidade deles, mas “falaram da parte de Deus, impelidos pelo Espírito Santo” (2Pedro 1.21). O Espírito Santo, de dentro da deidade, inspirou os profetas nas coisas que nenhuma pessoa criada poderia saber por conta própria.

BLASFÊMIA CONTRA O ESPÍRITO

Em todos os três Evangelhos Sinóticos, está registrada a declaração de Jesus no sentido de a blasfêmia contra o Espírito Santo ser considerada o mais hediondo de todos os pecados (Mateus 12.31-32); Marcos 3.28-29 e Lucas 12.10). Mateus e Lucas declaram especificamente que é pior do que a blasfêmia contra o Filho do Homem, Jesus Cristo. Decerto, não se refere a algumas meras palavras levianas ou caluniadoras. Seria mais uma atitude total à vida.

A ocasião foi a declaração dos oponentes de Jesus, no sentido de Ele expulsar demônios por meio de “Belzebu, o príncipe dos demônios” (Mateus 12.24). Atribuíram, deliberadamente, os atos de misericórdia de Jesus, realizados no poder do Espírito Santo, aos poderes do Maligno. Classificaram o bem como iniqüidade, e assim rejeitaram tudo quanto Cristo representava. A consciência de tais pessoas normalmente está cauterizada, em contraste com a consciência tenra, aflita com a possibilidade de ter falado algo assim, sem querer.

Posto que o Espírito Santo caracteriza especificamente a vida nova que Cristo veio trazer, pecar contra o Espírito Santo é repudiar semelhante vida. À luz da revelação luminosa e clara do Evangelho, esse repúdio viola as convicções do intelecto, a iluminação da consciência e os ditames do coração. É atribuir a Satanás uma obra nitidamente da parte de Deus, é dizer que o Espírito Santo é um espírito maligno do inferno, e que Cristo é o próprio Satanás. No presente estudo, o assunto em pauta é a divindade do Espírito Santo, e vemos que blasfemá-lo é pior do que a blasfêmia contra Jesus Cristo, cuja divindade não está em dúvida entre os cristãos.

Confirmação dessa divindade é vista no começo do ministério Jesus, quando “o Espírito o impeliu para o deserto” (Marcos 1.12). Aqui, o Espírito Santo pode ser inferior a Jesus. Da mesma forma, na primeira pregação de Jesus, Ele declarou ser o cumprimento da profecia de Isaías: “O Espírito do Senhor está sobre mim” (Lucas 4.18 e Isaías 1.1-2). Seu ministério foi realizado no poder e na orientação do Espírito Santo, que , portanto, não pode ser menos deidade do que Jesus Cristo.

ATRIBUTOS DIVINOS

Em todas as partes do Novo Testamento, vê-se que o Espírito Santo tem atributos divinos. Assim como Deus Pai é considerado onipresente, assim também o Espírito Santo: “Pois em um só corpo todos nós fomos batizados em um único Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um único Espírito”, 1Coríntios 12.13. Forçosamente, o Espírito precisa estar em todos os lugares para poder exercer semelhantes funções. Semelhantemente, vemos isso na passagem sobre “as coisas profundas de Deus” (1Coríntios 2.10). Nada, nem sequer as coisas que pertencem à própria natureza de Deus, está desconhecido ao Espírito.

Quanto à onipotência, é possível que seja atribuída ao Espírito Santo em passagens tais como Romanos 15.19 (“… pelo poder de sinais e maravilhas e por meio do poder do Espírito de Deus…”) ou 1Coríntios 12.11, que fala do Espírito que distribui os seus dons “individualmente, a cada um, como quer”. No mínimo, nada ou ninguém pode impedi-lo de fazer tais coisas. A capacidade de salvar, que é atribuída ao Espírito Santo por todo o Novo Testamento (Romanos 8.2, 11 e Tito 3.5), também pode ser considerada atributo divino – no Antigo Testamento, é prerrogativa de Deus dar a salvação ao seu povo.

Nessa categoria de atributos divinos, devemos classificar as passagens que declaram que o Espírito Santo é Autor das Sagradas Escrituras, tais como Atos 1.16 (“…era necessário que se cumprisse a Escritura que Espírito Santo predisse por boca de Davi…”) e mormente Hebreus 10.15 (“O Espírito Santo também nos testifica…”). Ao examinarmos a passagem do Antigo Testamento citado nesse texto, que é Jeremias 31.33, vemos que são palavras do Senhor Deus. Em Hebreus 3.7-9, a expressão “Assim, como diz o Espírito Santo” inclui “onde os seus antepassados me tentaram”. Em Êxodo 17.7, o texto “puseram o Senhor à prova” refere-se a Deus. Fica claro que o Espírito Santo é considerado Deus no sentido mais plenário. Ainda mais porque o Espírito Santo, como Autor do Antigo Testamento, é Autor das palavras reconhecidamente pronunciadas por Deus.

A conclusão lógica é atingida numa declaração explícita de que o Espírito Santo é Deus. Pedro, falando ao marido de Safira, diz: “Ananias, como você permitiu que Satanás enchesse o seu coração, a ponto de você mentir ao Espírito Santo? (…) Você não mentiu aos homens, mas sim a Deus”, Atos 5.3-5. Há, portanto, evidências abundantes da divindade do Espírito. Mas, a conclusão não depende somente das passagens citadas. A divindade do Espírito Santo não é questão de textos isolados, mas é confirmada pelo conceito global da obra inteira Dele.

E isso é de importância tremenda. Quando tomarmos consciência de que o poder que entra em nosso coração e vida ao nos tornarmos cristãos não é o poder de nenhuma criatura, mas do próprio Deus, isso faz de fato a diferença. Para alguns, ter íntima comunhão com um ser angelical poderia valer algo; ter experiência em primeira mão com uma força cósmica, também; mas, conhecer o poder e presença contínua do próprio Deus é algo muito acima de tudo isso.

Por, Gordon Chown – Missionário, tradutor e professor de Teologia.
Manual do Obreiro (CPAD) – 2006.

1 comment Julho 6, 2008

Não quero ser apóstolo

 

Não Quero Ser Apóstolo

Os pastores possuem um fino senso de humor. Muitas vezes, reúnem-se e contam casos folclóricos, descrevem tipos pitorescos e narram suas próprias gafes. Riem de si mesmos e procuram extravasar na gargalhada as tensões que pesam sobre os seus ombros. Ultimamente, fazem-se piadas dos títulos que os líderes estão conferindo a si próprios. É que está havendo uma certa, digamos, volúpia em pastores se promoverem a bispos e apóstolos. Numa reunião, diz a anedota, um perguntou ao outro: “Você já é apóstolo?” O outro teria respondido: “Não, e nem quero. Meu desejo agora é ser semideus. Apóstolo está virando arroz de festa, e meu ministério é tão especial que somente o título de semideus cabe a mim”. Um outro chiste que corre entre os pastores é que se no livro do Apocalipse o anjo da igreja é um pastor, logo, aquele que desenvolve um ministério apostólico seria um “arcanjo”.

Já decidi! Não quero ser apóstolo! O pouco que conheço sobre mim mesmo faz-me admitir, sem falsa humildade, que eu não teria condições espirituais de ser um deles. Além disso, não quero que minha ambição por sucesso ou prestígio, que é pecado, se transforme em choça.

O apostolado consta entre os cinco ministérios locais descritos pelo apóstolo Paulo em Efésios 4.11. Não há como negar que os apóstolos foram estabelecidos por Deus em primeiro lugar, antes dos profetas, mestres, operadores de milagres e curas, aqueles que prestam socorro, aqueles que governam e aqueles que falam variedades de línguas. Mas resigno-me contente à minha simples posição de pastor. Já que nem todos são apóstolos, nem todos são profetas, nem todos são mestres ou operadores de milagres, como consta em 1 Coríntios 12.29, parece não haver demérito em ser um mero obreiro.

Meus parcos conhecimentos do grego não me permitem grandes aventuras léxicas. Mas qualquer dicionário teológico serve para ajudar a entender o sentido neotestamentário do verbete “apóstolo”, ou “apostolado”. Vejamos o que registra a Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã:

O uso bíblico do termo “apóstolo” é quase inteiramente limitado ao NT, onde ocorre setenta e nove vezes; dez vezes nos evangelhos, vinte e oito em Atos, trinta e oito nas epístolas e três no Apocalipse. Nossa palavra em português é uma transliteração da palavra grega apostolos, que é derivada de apostellein, enviar. Embora várias palavras com o significado de enviar sejam usadas no NT, expressando idéias como despachar, soltar, ou mandar embora, apostellein enfatiza os elementos da comissão — a autoridade de quem envia e a responsabilidade diante deste. Portanto, a rigor, um apóstolo é alguém enviado numa missão específica, na qual age com plena autoridade em favor de quem o enviou, e que presta contas a este.

Jesus foi chamado de apóstolo em Hebreus 3.1. Ele falava os oráculos de Deus. Os doze discípulos mais próximos de Jesus também receberam esse título. Parece que o número de apóstolos era fixo, porque há um paralelismo com as doze tribos de Israel. Jesus se refere a apenas doze tronos na era vindoura (Mt 19.28; cf. Ap 21.14). Depois da queda de Judas, e para que se cumprisse uma profecia, ao que parece, a igreja sentiu-se obrigada, no primeiro capítulo de Atos, a preencher esse número. Mas, na história da igreja, não se tem conhecimento de esforços para selecionar novos apóstolos para suceder àqueles que morreram (At12.2). Com o passar do tempo, as exigências para que alguém se qualificasse ao apostolado já não poderiam se cumprir:

É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição (At 2.21, 22).

Portanto, alguns dos melhores exegetas do Novo Testamento concordam que as listas ministeriais de 1 Coríntios 12 e Efésios 4 referem-se exclusivamente aos primeiros, e não a novos apóstolos.

Há, entretanto, a peculiaridade do apostolado de Paulo. Uma exceção que confirma a regra. Na defesa de seu apostolado em 1 Coríntios 15.9, ele afirma que foi testemunha da ressurreição (viu o Senhor na estrada de Damasco), mas reconhece que era um abortivo (nascido fora de tempo): “Porque sou o menor dos apóstolos, que mesmo não sou digno de ser chamado apóstolo, pois persegui a igreja de Deus” (1 Co 15.10). O testemunho de mais de dois mil anos de história é que os apóstolos foram somente aqueles doze homens que andaram com Jesus e foram comissionados por Ele para serem as colunas da igreja, comunidade espiritual de Deus.

O que preocupa em relação aos apóstolos pós-modernos é ainda mais grave. Está ligado à nossa natureza, que cobiça o poder, que se encanta com títulos e que faz do sucesso uma filosofia ministerial. Tem acontecido uma corrida frenética nas igrejas para ver quem é o maior, quem está na vanguarda da revelação do Espírito Santo e quem ostenta a unção mais eficaz. Tanto que os que se afoitam ao título de apóstolo são os líderes de ministérios de grande visibilidade e que conseguem mobilizar grandes multidões. Possuem um perfil carismático, sabem lidar com massas e, infelizmente, são ricos.

Não quero ser um apóstolo porque não desejo a vanguarda da revelação. Desejo ser fiel ao leito principal do cristianismo histórico. Não quero uma nova revelação que tenha sido despercebida por Paulo, Pedro, Tiago ou Judas. Não quero ser apóstolo porque não quero me distanciar dos pastores simples, dos missionários sem glamour, das mulheres que oram nos círculos de oração e dos santos homens que me precederam e que não conheceram as tentações dos megaeventos, do culto espetáculo e da vanglória da fama. Não quero ser apóstolo porque não acho que precisemos de títulos para fazer a obra de Deus, especialmente quando eles nos conferem status. Aliás, estou disposto até mesmo a abrir mão de ser chamado pastor, se isso representar uma graduação, e não uma vocação ao serviço.

Não desdenho as pessoas. Apenas sinto um profundo pesar em perceber que a ambiência evangélica conspira para que homens de Deus sintam-se tão atraídos à ostentação de títulos, cargos e posições. Embriagados com a exuberância de suas próprias palavras, crentes que são especiais aceitam os aplausos que vêm dos homens e esquecem que não foi esse o espírito que norteou o ministério de Jesus de Nazaré.

Jesus nos ensinou a não cobiçar títulos e a não aceitar as lisonjas humanas. Quando um jovem rico o saudou com um “Bom Mestre”, rejeitou a interpelação: “Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Mc 10.17, 18). A mãe de Tiago e João pediu um lugar especial para os seus filhos. Jesus aproveitou o mal-estar causado para ensinar:

Sabeis que os governadores dos povos os dominam e que os maiorais exercem autoridade sobre eles. Não é assim entre vós; pelo contrário, quem quiser tornar-se grande entre vós, será esse o que vos sirva; e quem quiser ser o primeiro entre vós será vosso servo; tal como o Filho do Homem, que não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. (Mt 20.25-28.)

Os pastores estão se esquecendo do principal. Não fomos chamados para ter ministérios bem-sucedidos, mas para continuar o ministério de Jesus, que foi amigo dos pecadores e compassivo com os pobres, e identificou-se com as dores das viúvas e dos órfãos. Ser pastor não é acumular conquistas acadêmicas, não é conhecer políticos poderosos, não é ser um gerente de grandes empresas religiosas, não é pertencer aos altos escalões das hierarquias religiosas. Pastorear é conhecer e vivenciar a intimidade de Deus com integridade. Pastorear é caminhar ao lado da família que acaba de enterrar um filho prematuramente e que precisa experimentar o consolo do Espírito Santo. Pastorear é ser fiel a todo o conselho de Deus; é ensinar ao povo a meditar na Palavra de Deus. Ser pastor é amar os perdidos com o mesmo amor com que Deus os ama.

Pastores, não queiram ser apóstolos, mas busquem o secreto da oração. Não ambicionem ter megaigrejas, mas busquem ser achados despenseiros fiéis dos mistérios de Deus. Não se encantem com o brilho deste mundo, mas busquem ser apenas serviçais. Não alicercem seus ministérios sobre o ineditismo, mas busquem manejar bem a Palavra da verdade, aquela mesma que Timóteo ouviu de Paulo e que deveria transmitir a homens fiéis e idôneos, que por sua vez instruiriam a outros. Pastores, não permitam que os seus cultos se transformem em shows. Não alimentem a natureza terrena e pecaminosa das pessoas; preguem a mensagem do Calvário.

Santo Agostinho afirmou: “O orgulho transformou anjos em demônios”. Se quisermos nos parecer com Jesus, sigamos o conselho de Paulo aos filipenses: “Tende o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo, tornando-se em semelhança de homens; e, reconhecido em figura humana, a si mesmo se humilhou, tornando-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fp 2.5-8).

por Pr. Ricardo Gondim, líder da Assembléia de Deus Betesda.

2 comments Julho 6, 2008

Pentecostalismo Clássico e Metodismo

Influências, Similaridades e Conexões Histórico-Doutrinárias

 

 

O movimento pentecostal não tem uma só origem, mas muitas. Sua herança rica e diversa, bem como sua marcante presença, experiência e importância na história do cristianismo dos últimos 100 anos, tem chamado atenção de historiadores, teólogos, antropólogos, sociólogos e pesquisadores, dentre eles Donald Dayton, Justo L. Gonzáles, Ruben César Fernandes, David Martin, Vinson Synan e David Stoll, para citar alguns apenas. Estes, na busca por explicação para as raízes do movimento, vêem o pentecostalismo como um dos filhos ou desenvolvimentos do movimento metodista ou wesleyano, que fora fundado e liderado inicialmente pelos irmãos João Wesley e Carlos Wesley.

 

De fato, há fortes evidências de paralelos históricos e doutrinários entre o pentecostalismo clássico, notadamente as Assembléas de Deus, e o metodismo. Do ponto de vista histórico, observa-se que o movimento pentecostal bebeu de “poços” wesleyanos, além de ter encontrado seu nascedouro e fertilidade em meio ao avivamento Holiness (santidade), ocorrido durante a segunda metade do século 19, que também se estribou e se inspirou fortemente no metodismo. O movimento Holiness, que surgiu do coração do metodismo, é tido como o mais importante precursor imediato ao pentecostalismo (2001:2). O historiador e teólogo cubano Justo L. Gonzáles, por exemplo, não tem qualquer dúvida de que o pentecostalismo em geral e, mais especificamente, o movimento pentecostal clássico latino-americano, é um herdeiro de João Wesley (2003:16-18). Segundo Justo Gonzáles, quando o avivamento de Azusa Street começou,

 

“muitas igrejas viram-se obrigadas a tomar uma decisão a respeito. Muitas delas rejeitaram o [despertamento] que estava ocorrendo como [se fosse] obra demoníaca… [mas] muitos outros grupos do movimento Holiness abraçaram o avivamento, que mais tarde deu origem às principais igrejas pentecostais, [incluindo] a Igreja de Deus em Cleveland, Tennessee, e as Assembléias de Deus.” (2003:18, tradução minha)

 

Gonzáles também assegura que o início da interpretação teológica das primeiras experiências do “batismo com fogo” relacionadas à glossolália (falar em línguas estranhas) foi dado por Charles Fox Parham, um ministro do evangelho que havia recebido forte formação metodista (2003:18). Parham teria encontrado no raciocínio, experiência e tradição wesleyana abundante informação para sustentar o “batismo com fogo” em sólidas bases bíblicas e teológicas. Para Vinson Synan,

 

“Foi de Wesley que o movimento Holiness desenvolveu a teologia da ’segunda bênção.’ Foi o colega de Wesley, John Fletcher, entretanto, quem chamou esta segunda bênção de ‘batismo no Espírito Santo’, uma experiência que [traz] poder espiritual para aquele que o recebe, além de limpeza interior. (…) Durante o século 19, milhares de metodistas diziam receber esta experiência, muito embora ninguém naquele tempo tenha visto qualquer conexão com a espiritualidade de falar em línguas ou quaisquer outros carismas [ou dons]. No século seguinte, Edward Irving [pastor presbiteriano] e seus amigos em Londres sugeriram a possibilidade de uma restauração dos carismas na igreja moderna.” (2001:2, tradução minha)

 

Desta forma, quando a experiência pentecostal e o próprio pentecostalismo surgiu com força para tronar-se o maior e mais formidável movimento cristão do século 20, já existiam há mais de 100 anos outros movimentos que enfatizavam a “segunda bênção” ou o “batismo no Espírito Santo” (Synan 2001:3). Contudo, em particular os reflexos ou efeitos que o movimento metodista Holiness causou na espiritualidade cristã da época, serviram de sólo fértil para que a semente pentecostal germinasse, crescesse e florecesse para a glória de Deus.

 

Da chamada “experiência do coração aquecido” que João Wesley teve em 24 de maio de 1738, por ele chamada de “novo nascimento”, vieram as bases da experiência de plenitude de vida ou plenitude do Espírito. Muito frustrado com o trabalho missionário que fora fazer na Geórgia, Estados Unidos, de ver a morte de perto na viagem de navio de volta a Londres, e de descobrir (durante a mesma viagem na qual encontrou-se com cristãos Moravianos) que não possuía convicção de sua salvação pessoal, Wesley abateu-se profundamente. Dias após sua chegada a Londres, numa típica tarde londrina, Wesley foi sem muita vontade para uma reunião na Aldersgate Street. Ele descreve a experiência da seguinte forma:

 

“Quando cheguei alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola de Paulo aos Romanos. Cerca das vinte horas e quarenta e cinco minutos, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti o meu coração estranhamente aquecido. Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação, e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte.” (Diário de João Wesley referente ao ocorrido no dia 24 de maio de 1738, tradução minha, itálico adicionado)

 

É acurado dizer, então, que Aldersgate Street está para o movimento metodista da mesma forma como Azusa Street está para o movimento pentecostal. E esta é mais uma das várias razões pelas quais o pentecostalismo e o metodismo são tão similares nas suas ênfases e desenvolvimentos originais e experimentais, bem como na identificação com os seus respectivos contextos sócio-econômicos e culturais.

 

 

A Perfeição Cristã

 

Em particular a doutrina da perfeição cristã ou “santificação”, que desde o início ganhou forte ênfase na experiência e espiritualidade pentecostal, teve origem com João Wesley. A doutrina pentecostal da subseqüência foi derivada dos ensinos de Wesley a respeito da “segunda bênção”, ou “inteira santificação”. Explorando as origens do movimento pentecostal, Vinson Synan afirma:

 

“Os pentecostais herdaram de João Wesley a idéia de uma subseqüente experiência crítica, freqüentemente chamada de ‘inteira santificação’, ‘perfeição em amor’, ‘perfeição cristã’, ou ‘pureza do coração’. Foi João Wesley que propôs tal possibilidade em um dos seus influentes escritos, A Plain Account of Christian Perfection (1766).” (2001:2, tradução minha)

 

Os escritos de Wesley mencionados por Synan são realmente extensos e compôem vários volumes, demonstrando o quanto Wesley tornou-se apaixonado pelo tema. Entretanto, capturar o exato entendimento de Wesley sobre a perfeição cristã não é tão fácil quanto parece, razão pela qual esta doutrina tem sido interpretada por vários ângulos diferentes e, por vezes, controversos. Contudo, Wesley esforçou-se por relacionar a experiência da perfeição cristã à “mente de Cristo”, isto é, total devoção a Deus, e, portanto, amor a Deus e ao próximo (Dayton 1987:47). O próprio Wesley, sabendo que poderia vir a ser mal interpretado, tentou sintezar suas idéias da seguinte forma:

 

“De um ponto de vista, é pureza de intenção, dedicação da vida inteira a Deus. É o dom divino nos nossos corações; é um desejo e desenho comandando toda o nossa disposição [isto é, temperamento, atitude, estado de mente, moldura do pensamento, humor, espírito, constituição, natureza e caráter]. É devotar, não uma parte, mas tudo; nossa alma, corpo e substância para Deus. De outro ponto de vista, é [possuir] toda a mente que estava em Cristo, habilitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda impureza, toda poluição interna e externa. É uma renovação do coração na inteira imagem de Deus, a total semelhança d´Aquele que criou [o coração]. E ainda noutra perspectiva, é amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Agora, tome qualquer uma destas perspectivas que lhe agrade, (pois não há nelas nenhuma diferença material).” (Wesley´s Work, sect. 27, 11:444, tradução minha)

 

Para João Wesley, perfeição cristã não significa instantânea e absoluta ausência de pecado, mas, sim, o processo pelo qual nossa vida, pelo poder regenerador e purificador do sangue derramado na cruz e pela ação santificadora do Espírito Santo, se conforma (isto é, toma a forma) e se aperfeiçoa segundo a mente de Cristo. Em última análise, perfeição cristã em Wesley pode ser condensada nas expressões “santificação” e “perfeição em amor”, isto é, estar em Cristo e Cristo em nós, e amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. O pentecostalismo, melhor do que qualquer outro movimento surgido após o nascimento do metodismo, soube entender esta doutrina e traduzí-la na prática de vida e missão.

 

Outras Influências e Similaridades

 

Dentre outros paralelos históricos, há algumas similaridades básicas entre o pentecostalismo e metodismo. Primeiro, os dois movimentos se desenvolveram no meio da pobreza, na linha extrema da exclusão social. Richard P. Heitzenrater explica que “No estágio inicial do seu desenvolvimento, as sociedades [metodistas] começaram a demonstrar um interesse especial pelas [ansiedades] do pobre e desprovido, dando-lhes comida e dinheiro para suas necessidades, visitando os doentes e aprisionados, e ensinando as crianças dos desafortunados” (1995:23). Para Howard Snyder, este tipo de sensibilidade e preocupação pelo pobre e desvalido foi “especialmente notado no brilho do metodismo [amadurecido]” (Snyder 1996a:15). Esta é a razão pela qual “Os primeiros metodistas eram conhecidos por sua preocupação e cuidado pelo pobre, o estrato da sociedade de onde muitos deles vieram” (Snyder 1996b:142-143). De igual forma, representando o pentecostalismo clássico no Brasil, as Assembléias de Deus também se importaram, se sensibilizaram e cresceram entre os pobres e oprimidos. Além disso, deram respostas relevantes às necessidades daqueles que enfrentavam lutas sociais e econômicas, provendo não somente assistência imediata (comida, roupa, teto etc.), mas também comunidade, senso de pertencimento, rede de relacionamentos de ajuda, reconstrução da identidade pessoal e comunitária, restauração da dignidade humana, participação igualitária, e educação formal e informal.

 

Segundo, os dois movimentos se desenvolveram reconhecendo a importância fundamental do laicato. Laicato é o mesmo que “leigos”, isto é, cristãos não-profissionais ou que não pertencem a alguma ordem eclesiástica, denotando a distância e a distinção existente em relação aos que possuem treinamento especial e/ou ordenação para o exercício do ministério. Laicato é um termo controverso no seu uso e aplicação, frenqüentemente substituido ou propriamente expandido pela expressão “Povo de Deus”.

 

Pois bem, da mesma forma como pentecostais clássicos o fazem até hoje, os metodistas contumavam confiar inteiramente no papel explícito do Espírito Santo como fonte de conhecimento e frutos, bem como nos dons do Espírito para o ministério exercido pelo povo “leigo”, confiando e permitindo que trabalhassem livre e criativamente. Segundo Howard A. Snyder,

 

“Enquanto o ministério de Wesley se desenvolvia e ele [assim] começou a comissionar um enorme regimento de pregadores leigos, duas opções se apresentaram a ele para explicar biblicamente o que estava acontecendo. A primeira teria sido uma radical afirmação da doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, uma asserssão de que, biblicamente e no plano de Deus, todo crente é chamado a ministrar e que as várias formas de ministério são fundamentadas na obra carismática do Espírito Santo, ao invés de estar baseada na credencial institucional da igreja. A outra opção, que Wesley tomou essencialmente, foi admitir a validade normal da ordenação eclesiástica, mas ver o Espírito Santo [pervadindo, enchendo e] traspasando este molde e criando um padrão ‘extraordinario’ de ministério que acontecesse não somente fora, mas também paralelo às estruturas eclesiásticas.” (1996a:155, itálico adicionado, tradução minha)

 

De fato, tal como aconteceu com as Assembléias de Deus no Brasil, o movimento wesleyano na Inglaterra e na América do Norte tinha uma preocupação especial em “prover liderança que fosse espiritualmente viva, doutrinariamente sonora, e missiologicamente ativa”, como nota Heitzenrater (1995:182). Mais do que qualquer outro movimento na história antes do surgimento do pentecostalismo, ao longo dos primeiros ciclos de sua história, o metodismo “[confiou e] dependeu mais e mais substancialmente nas pessoas leigas que não possuiam educação teológica ou treinamento em liderança religiosa” (1995:182). O líderes eram levantados do laicato. Da mesma dorma como o pentecostalismo clássico, foi através e por causa do laicato que os metodistas íam ao encontro do povo, não esperando que as pessoas, por si mesmas, viessem à igreja. Isto porque, tanto para o metodismo primitivo quanto para o pentecostalismo contemporâneo, a essência da Igreja — a comunidade de crentes cheios do Espírito Santo e enviados para a missão — não dá espaço para qualquer distinção entre cléricos e leigos, exceto quando e onde os papéis sacerdotais tornam-se contextuais e funcionais.

 

Ontem Ensinou, Hoje Aprende

 

Se por um lado o metodismo influenciou o movimento pentecostal no passado, por outro lado a experiência do pentecostalismo clássico, mais especificamente as Assembléias de Deus no Brasil, relembra o movimento metodista de suas origens rústicas, porém efetivas ao ter começado, servido e crescido no meio da pobreza na Inglaterra do século 18. O exemplo contemporâneo das Assembléias de Deus, então, é extremamente inspirador quanto a apontar o caminho para os metodistas de hoje no que tange a redescobrirem sua verdadeira identidade enquanto movimento missionário, serem revisitados pela singularidade do poder do Espírito Santo, e fazerem teologia e missão de forma relevante e integral. Da mesma maneira como ocorreu com o pentecostalismo primitivo no nordeste do Brasil e, por extensão, através do país inteiro, o metodismo primitivo em Bristol, Inglaterra, experimentou uma preocupação efetiva pelo pobre e uma humilde identificação com a cultura local, o que conduziu o movimento a ganhar força e estabilidade entre a classe trabalhadora, notadamente entre os pobres que trabalhavam das minas de carvão.

 

De igual forma, a maneira assembleiana de fazer teologia e missão também denuncia como os metodistas de hoje afastaram-se de suas próprias origens teológicas, eclesiológicas e missiológicas em relação aos pobres e ao laicato. Isto faz com que o metodismo de hoje tente recuperar aspectos que acabaram esquecidos ou negligenciados em sua prática de missão, coisas que o pentecostalismo trouxe à realidade ao aprender, absorver e desenvolver as mesmas premissas teológicas e missiológicas que os metodistas possuíam desde o começo do movimento wesleyano.

 

Bibliografia Citada

 

Dayton, Donald W.

1987 Theological Roots of Pentecostalism. Grand Rapids, MI: Francis Asbury Press.

 

Gonzáles, Justo L.

2003 Wesley para a América Latina Hoje (Wesley for Latin America Today). São Paulo, SP, Brazil: Editeo.

 

Heitzenrater, Richard P.

1995 Wesley and the People Called Methodists. Nashville, TN: Abingdon Press, c1995.

 

Snyder, Howard A.

1996a The Radical Wesley & Patterns for Church Renewal. Pasadena, CA: Wipf & Stock Publishers.

 

1996b Liberating the Church: The Ecology of Church and Kingdom. Pasadena, CA: Wipf & Stock Publishers.

 

Synan, Vinson, editor

1975 Aspects of Pentecostal-Charismatic Origins: Eleven Leading Scholars Examine the Roots and Early Growth of the Greatest Religious Movement of the Twentieth Century. Plainfield, NJ: Logos International.

 

2001 The Century of the Holy Spirit: 100 years of Pentecostal and Charismatic Renewal, 1901-2001. Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers.

 

Wesley, João

1766 A Plain Account of Christian Perfection. Sect. 27, na edição Jackson de Wesley´s Work, sect. 27, 11:444.

 

Por Luís Wesley, teólogo metodista.

 

Add comment Julho 6, 2008

Uma inspiração

Frida Vingren foi uma mulher fantástica. Esposa do fundador das Assembléias de Deus no Brasil, ela tinha brilho próprio.

É possível conhecer sua têmpera pelo pouco de sua ternura que transbordou em um hino que compôs, e que faz parte do cancioneiro pentecostal.

A poesia de Frida Vingren contraria a onda triunfalista que assola os religiosos que ainda têm a petulância de se denominarem evangélicos –  coisa que não são.

Eu já cantei esse hino entre lágrimas e sempre que estou debaixo de muito estresse, gosto de citá-lo - já que não consigo cantar mesmo.

1
Bem-aventurado o que confia
No Senhor, como fez Abraão;
Ele creu, ainda que não via,
E, assim, a fé não foi em vão.
É feliz quem segue, fielmente,
Nos caminhos santos do Senhor,
Na tribulação é paciente,
Esperando no seu Salvador.

2
Os heróis da Bíblia Sagrada,
Não fruíram logo seus troféus;
Mas levaram sempre a cruz pesada,
Para obter poder dos céus,
E depois, saíram pelo mundo,
Como mensageiros do Senhor,
Com coragem e amor profundo,
Proclamando Cristo, o Salvador.

3
Quem quiser de Deus ter a coroa,
Passará por mais tribulação;
Às alturas santas ninguém voa,
Sem as asas da humilhação;
O Senhor tem dado aos Seus queridos,
Parte do Seu glorioso ser;
Quem no coração for mais ferido,
Mais daquela glória há de ter.

4
Quando aqui as flores já fenecem,
As do céu começam a brilhar;
Quando as esperanças desvanecem,
O aflito crente vai orar;
Os mais belos hinos e poesias,
Foram escritos em tribulação,
E do céu, as lindas melodias,
Se ouviram, na escuridão.

5
Sim, confia tu, inteiramente;
Na imensa graça do Senhor;
Seja de ti longe o desalento
E confia no Seu santo amor.
Aleluia seja a divisa,
Do herói e todo o vencedor;
E do céu mais forte vem a brisa,
Que te leva ao seio do Senhor.

Que o espírito de Frida Vingren volte aos arraiais pentecostais, ela sabia coisas que a atual geração ainda não aprendeu.

Soli Deo Gloria.

Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda.

2 comments Junho 16, 2008

País apodrecido, igreja insípida

Metade dos escândalos que explodiram no Brasil teriam provocado revoluções em qualquer outra parte do mundo. Apesar do sensacionalismo da imprensa, dos gritos hipócritas das oposições e da “cara de pau” das situações, a rotina nacional não sofreu alteração. As opções eleitorais foram na direção do “rouba, mas faz”. Afinal, ética nunca foi o forte da Terra de Santa Cruz, desde o seu “descobrimento”. Ninguém está chateado com a desonestidade dos de cima; o aborrecimento é por não se estar lá também.

 

Vianna Moog, no capítulo “Ética e Economia”, de seu clássico Bandeirantes e Pioneiros, mostra que fomos um país sem mecanismos sociais de controle, sem sacerdotes e sem sogras. A primeira missa foi celebrada, e, depois, houve duzentos anos de escassos sacerdotes e deficiente catequese, com uma fé mística, mágica e folclórica. Os varões que deixaram em Portugal as antigas famílias (sogras, inclusive) se uniam, assimétrica e pluralmente, com as ameríndias e as africanas, de paternidade ausente, nas entradas e bandeiras. A motivação colonizadora era o enriquecimento rápido, com o mínimo de trabalho e por quaisquer meios, pois “além do Equador não há pecado”. Os benesses reais, a nobreza cartorial, as heranças e as botijas substituiriam o trabalho orgânico.

 

O Estado surgiu antes da nação e impôs os governantes e as leis, com os quais o povo não se identificava nem aos quais se sentia obrigado a obedecer, antes a burlar. Imperavam o escravismo, a servidão, o capitalismo selvagem, a educação ornamental e beletrista, o poder, a propriedade, a renda e o saber concentradíssimos. E hoje queremos, como resultado, um país justo, pacífico e honesto?

 

No país do pistolão, do nepotismo e do compadrio, as palavras de ordem são: “Para os parentes e os amigos, tudo; para os inimigos, a lei” e “Você sabe com quem está falando?”. A “lei” é o levar vantagem em tudo. No lugar de “Ordem e Progresso”, já se afirmou, deveríamos ter no centro da nossa bandeira: “Sombra e água fresca”, ou: “Trabalho honesto é como o crime: não compensa”. Um ilustre membro do Poder Judiciário no Nordeste, quando questionado por uma jornalista sobre o excesso de parentes lotado em seu gabinete, saiu-se com esta pérola: “Minha filha, quando Deus quis salvar o mundo, por acaso mandou um estranho ou um conhecido? Ele mandou o filho dele”.

 

Nas campanhas presidenciais de 1989 e 1994, rodando por este Brasil, ouvi a raiva e a frustração do povão contra essa idéia de “justiça social”. A natureza das coisas é uma sociedade de privilégios, desde que se esteja no andar de cima. Algo contrário seria frustrar sonhos, como o de um dia ganhar na loteria ou no jogo do bicho. Filho de vereador da UDN, convivi com o lacerdismo. Moralismo por aqui empolga classe média. Os de cima e os de baixo, em suas respectivas alienações, “não estão nem aí”. O “homem cordial” ou o “cabra macho”, lúdicos, eróticos e espertos, estão mais para a ideologia “futebol, cachaça e mulher”. O resto é retórica, imposição de gringos ou fanatismo, pois, “ninguém é de ferro”. Sem chances, emigra-se para — suprema ironia e humilhação — fazer faxina.

 

O protestantismo de imigração, de alemães, suíços, ingleses, fechado em si, teve escasso impacto na cultura nacional. O protestantismo de missão aportou com a crença em um “destino manifesto” de trazer uma fé superior, o progresso e a democracia. A luta pela Abolição e pela República, pelo Estado laico, pela instrução universal, mista, profissionalizante, com educação física e esportes, o ensino do valor do trabalho, da sobriedade, da poupança, a valorização da família, o envolvimento em movimentos sociais, como o sindicalismo, fazem parte de um rico legado hoje esquecido e rejeitado. A Guerra Fria, a Ditadura Militar, o neo-fundamentalismo nos empurraram a heresia “crente não se mete em política”, nos anos 70.

 

O pentecostalismo que nos chegou não foi o da ala negra da rua Azuza, com sua visão social, mas o da ala branca, com seu isolacionismo, sua ascese extra-mundana e sua escatologia pré-milenista pessimista. Com o passar do tempo, permaneceu apenas o conceito de pecado individual e de uma ética individual da santidade negativa (não fazer o mal) — e não da santidade positiva (fazer o bem) — legalista, moralista, sem os conceitos de pecado social e pecado estrutural, e ética social. A teologia da libertação, racionalista, enfatizaria esses últimos às custas dos primeiros, e, por fim, a teologia liberal pós-moderna, relativista, e amoral, negaria ambos. A “batalha espiritual” reforçaria a alienação e a teologia da prosperidade seria a face religiosa do neoliberalismo capitalista. O neo-pós-pseudo-pentecostalismo não prega conversão e santidade, mas neo-indulgências e sessões de descarrego. Do novo nascimento ao sabonete de arruda tem sido um longo caminho, por onde passam os sócios “evangélicos” dos escândalos da República. Uma igreja insípida não salga nem salva um país enfermo.

 

Falhou o evangelicalismo? Não. Falta-nos evangelicalismo

Robinson Cavalcanti é bispo da diocese anglicana de Recife. 

Add comment Junho 16, 2008

O dom de iludir

“Minha viagem será um espetáculo. É a primeira vez que vou pregar naquela igreja. Trata-se de uma comunidade com mais de 500 membros e fica num bairro de classe média-alta. O faturamento do final de semana está garantido. Ah, como eu gosto disso.”

Muito conhecido e requisitado, o pastor estava no aeroporto vestido para entrar em campo. A tal igreja mencionada já havia recebido o e-mail com uma série de “recomendações”, eufemismo para traduzir as exigências do aspirante a popstar.

Segundo o folclore vigente, é possível classificar o artista de acordo com a lista de exigências que apresenta aos produtores. Uma centena de toalhas brancas, waxflower da Austrália e frésias dos Países Baixos nos arranjos florais (não os de Bach), lichia e açaí na cesta de frutas, além de caixas de bebidas alcoólicas variadas para elevar, digamos, a adrenalina às alturas antes do show.

Já os aditivos para os pastores showmen geralmente passam pelo bolso. Não apenas o poder exerce efeito afrodisíaco… Se considerarmos o buraco negro que caracteriza a vida financeira de alguns expoentes desse meio, recomendaria servir antes dos cultos jarras com maracujá e pitaia batidos, resultando no emblemático suco “maracutaia”.

Não me venha falar na malícia
A rotina de viagens dos popstores (com trocadilho, claro) é um tanto estressante mas tem sua magia. É comum exigirem hotéis com muitas estrelas, aquisição mínima de um combo de produtos variados e passagens aéreas de determinada companhia (facilita a viagem de férias com a patroa e os filhos para a “América”, como costumam dizer os “emergentes”).

Com quilometragem maior, outros mais abusados incluem detalhes que são uma graça. Nada divina, no caso. Por exemplo: o carro que for buscá-los no aeroporto deve ter ar condicionado. A regra vale inclusive para Porto Alegre no inverno.

Antes da mensagem que será repetida pela enésima vez, é o momento do “camelódromo gospel”. Com desenvoltura de apresentador do ShopTour, eles desfilam sua vitrine de CDs de mensagens e livros de edição própria, já que provavelmente as obras não seriam aprovadas pela maioria das editoras. As ofertas de “pague 6 e leve 15″ por vezes são entremeadas de menções a obras de cunho social ou qualquer outro verniz que torne mais nobres os fins advindos da comercialização dos meios.

Você está, você é
Na hora da pregação, é comum os preletores de aluguel derramarem elogios ao líder da igreja local (“um homem respeitadíssimo em todo o país”), à galera do louvor (“me senti no céu na hora em que estávamos cantando”), ao templo (“os irmãos estão de parabéns por construírem um lugar tão lindo e aconchegante”), numa sucessão de rapapés para lustrar o ego coletivo e amolecer o coração do mercado-alvo da feirinha que vai rolar depois do culto.

As mensagens têm exegese e hermenêutica de procedência duvidosa. Na falta de conteúdo, costumam abusar de clichês do tipo “você é mais que vitorioso”, “tudo posso naquele que me fortalece” e a todo momento pedem para repetir alguma afirmação pseudoprofética para o irmão do lado. Espectadores mais desconfiados remascam se a Bíblia deles tem apenas um terço das páginas, volume suficiente para reunir os trechos das mesmas pregações rep(r)isadas ad nauseam. “Hoje vou falar sobre uma mulher que encontrou Jesus e teve sua vida mudada…”.

Você faz, você quer, você tem
Modestíssimos, os pregadores itinerantes a-do-ram ilustrar as mensagens com episódios de sua própria vida. A infância sempre foi pobre e cheia de dificuldades, mas os planos de Deus sempre são de dar prosperidade. A menção a Jeremias limita-se àquele solitário versículo do capítulo 29. Toda a trajetória do profeta chorão é esquecida na hora de inspirar as pessoas a “conquistar a vitória”, “envergonhar o inimigo” e outras frases de efeito.

“Hoje tenho uma casa grande, três carros zero na garagem e blábláblá”, contam para adubar a fé da platéia. Se alguém fosse até a casa dos saltimbancos da prosperidade constataria que a realidade simultaneamente tem glamour e uma indisfarçável atmosfera kitsch.

Na sala (ou “living”, como a esposa prefere chamar porque acha mais “chique”), sofás brancos e almofadas com estampas de onça e zebras. Ressentidas da falta de um portrait by Camasmie feito com chocolate, as paredes acomodam várias láureas de associações obscuras e o indefectível diploma de “Doutor em divindade”. Poucos sabem que o tal curso foi feito pela Internet e pago a prestações no cartão de crédito Platinum. “Plata, prata, plaga, praga”, comporiam os irmãos Augusto e Haroldo de Campos num arroubo (epa!) profético-concretista.

Você sabe explicar, você sabe entender
Siderados com a mise-en-scène um tanto caricata, os visitantes neófitos têm dificuldades para discernir se estão numa igreja ou em uma palestra de nerolingüística. Cada vez que os gestos se tornam mais largos e o volume da voz do pregador aumenta, os “aleluias” e “glórias” se multiplicam. Uma menção ao capiroto provoca aprovação ainda mais estrepitosa. Améééém?

Na tentativa de conferir um certo refinamento ao discurso lasso, os preletores de aluguel têm o hábito de entremear sua prosopopéia flácida com citações e menções às últimas leituras. Usualmente, as obras mais densas que leram em toda a vida foram opúsculos de Roberto Shinyashiki ou Augusto Cury. A cartilha Caminho Suave não entra no rol de leituras, por supuesto.

Dependentes da languidez espiritual da platéia, oferecem-lhe apenas placebos que vão durar até a próxima “reunião da vitória”. Muitos no auditório reconhecem isso, mas mentiras sinceras lhes interessam, como cantou o poeta Cazuza.

Cale a boca e não cale na boca notícia ruim
A pronúncia claudicante e a concordância tosca revelam o círculo vicioso e empobrecedor no qual estão embrulhados esses replicadores de meme(nsagens) desprovidas de sustância. Num equívoco contumaz, optaram equivocadamente pela “glória-pires”: pouco profunda e de vida curta. Como aconteceu com os filhos de Ceva, são conhecidos por aqui e muitos permanecem anônimos no inferno.

Do ponto de vista psicológico, esse tipo de comportamento sinaliza traços de desvario para compensar sua dor mais aguda: a falta de respeito em certos grupos aos quais C.S. Lewis chamaria de “círculos fechados”. Incensados pela massa ignara, sofrem em razão da consciência de que são alvo do menosprezo daqueles que, em última (e secreta) instância, gostariam de ser. Isso talvez explique o fato de às vezes elegerem alguns alvos para assestar sua inveja travestida de defesa da sã doutrina.

Fosse isso possível, cederiam os bens e a contínua lisonja para conseguir aquilo que a grana não é capaz de adquirir. Solitários por dentro e por fora, têm apenas o travesseiro por confidente. Limitados pela teia que eles próprios urdiram, a cada dia “tornam-se o que são”, cumprindo a máxima de Nietzsche. Preço demasiadamente alto para uma existência que não se repetirá. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Autor: Sérgio Pavarini

Fonte:

Revista

Eclésia

Add comment Maio 29, 2008

A integridade do evangelho: uma avaliação do neopentecostalismo

Elas ocupam um enorme espaço na televisão aberta, chegando a milhões de lares brasileiros todos os dias. As três mais conhecidas e salientes têm nomes parecidos — Igreja Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus e Igreja Mundial do Poder de Deus.

Esses nomes apontam para objetivos ousados e ambiciosos. Seus líderes máximos adotam, respectivamente, os títulos de bispo, missionário e apóstolo. Elas são o fenômeno mais recente, intrigante e explosivo do “protestantismo” tupiniquim. Trata-se das igrejas neopentecostais, denominadas por alguns estudiosos “pentecostalismo autônomo”, em virtude de seus contrastes com os grupos mais antigos desse movimento.

É difícil categorizá-las adequadamente, não só por serem ainda recentes, mas porque, ao lado de alguns traços comuns, também apresentam diferenças significativas entre si. A Igreja Mundial investe fortemente na cura divina. Seu apóstolo garante que ninguém realiza mais milagres do que ele. Seu estilo é personalista e carismático. Caminha no meio dos fiéis, deixa que as pessoas recolham o suor do seu rosto para fins terapêuticos, às vezes é ríspido com os auxiliares.

O missionário da Igreja Internacional é simpático e bonachão; parece um pastor à moda antiga. É também polivalente: prega, canta, conta piadas, anuncia produtos e serviços. Controla com rédea curta o seu pequeno império.

Todavia, nenhuma dessas igrejas vai tão longe na ruptura de paradigmas quanto a IURD. Dependendo do ângulo de análise, parece protestante ou católica. Seu carro-chefe é a teologia da prosperidade. Defende sem pejo a ética da sociedade de consumo. Seu líder está entrando na lista dos homens mais ricos do país.

Desde o início, o cristianismo tem exibido uma grande variedade de manifestações, algumas bastante inusitadas. Foi o caso do gnosticismo e do marcionismo nos primeiros séculos, das seitas apocalípticas na Idade Média e de alguns grupos resultantes dos reavivamentos nosEstados Unidos do século 19. Porém, nenhum movimento tem sido tão pródigo em termos de quantidade e diversidade de ramificações quanto o pentecostalismo contemporâneo.

No atual ambiente pluralista e inclusivista, muitos observadores vêem nessa multiplicidade um sinal de vitalidade, de dinamismo. Todavia, há sinais preocupantes nos ensinos e práticas de certos grupos. Na célebre Confissão de Fé de Westminster (1647), os puritanos ingleses colocaram a questão em termos de diferentes graus de pureza das igrejas cristãs — cap. 25.4,5 (igrejas mais puras e menos puras). Uma avaliação simpática e honesta das igrejas neopentecostais aponta para alguns aspectos que precisam ser reconsiderados a fim de que elas se tornem genuínos instrumentos do evangelho de Cristo.

O problema hermenêutico

Uma grave deficiência dessas novas igrejas está na maneira como interpretam a Bíblia. Os reformadores protestantes insistiram no valioso, porém arriscado, princípio do “livre exame das Escrituras”, ou seja, de que todo cristão tem o direito e o dever de ler e estudar por si mesmo a Palavra de Deus. Acontece que muitos viram nisso uma licença para a livre interpretação do texto sagrado, o que nunca esteve na mente dos líderes da Reforma.

Eles lutaram contra uma abordagem individualista e tendenciosa da Escritura, insistindo na adoção de princípios equilibrados de interpretação que levavam em conta o sentido literal e gramatical do texto, a intenção original do autor, o contexto histórico das passagens e também a tradição exegética da igreja. Por essas razões, eles rejeitaram o antigo método de interpretação alegórica, isto é, a busca de sentidos múltiplos na Escritura, por entenderam que ela obscurecia e distorcia a mensagem bíblica.

Em muitas igrejas neopentecostais nada disso é levado em consideração. A Bíblia se torna um joguete, uma peteca lançada para lá e para cá ao sabor das conveniências. Tomam-se diferentes declarações, episódios e símbolos bíblicos e, sem esforço algum de interpretação, passa-sediretamente para a aplicação, muitas vezes de uma maneira que nada tem a ver com o propósito original da passagem.

O que é ainda mais grave, os textos bíblicos são usados de modo mágico, como se fossem amuletos ou talismãs, como se tivessem um poder imanente e intrínseco. A Bíblia é encarada prioritariamente como um livro de promessas, de bênçãos, de fórmulas para a solução de problemas, e não como a revelação especial na qual Deus mostra como as pessoas devem conhecê-lo, relacionar-se com ele e glorificá-lo.

Uma nova linguagemNa sua releitura da Bíblia, os neopentecostais por vezes criam uma nova terminologia, muito diferente dos conceitos bíblicos tradicionais. Privilegiam-se expressões como “exigir nossos direitos”, “manifestar a fé”, “declarar a bênção”, todos os quais apontam para uma espiritualidade antropocêntrica, ou seja, voltada para as necessidades, desejos e ambições dos seres humanos, e não para a vontade e a glória de Deus.

Alguns dos temas bíblicos mais profundos e solenes redescobertos pelos reformadores do século 16 são quase que inteiramente esquecidos. Não mais se fala em pecado, reconciliação, justificação pela fé, santificação, obediência. O evangelho corre o risco de ficar diluído em uma nova modalidade de auto-ajuda psicológica, deixando de ser “o poder de Deus para a salvação de todo aquele que crê”.

O conceito de fé talvez seja aquele que esteja sofrendo as maiores distorções. No discurso de muitas igrejas do pentecostalismo autônomo, a fé se torna uma espécie de poder ou varinha de condão que as pessoas utilizam para obter as bênçãos que desejam. Deus fica essencialmente passivo até que seja acionado pela fé do indivíduo. É verdade que Jesus usou uma linguagem que aparentemente aponta nessa direção (“tudo é possível ao que crê”, “vai, a tua fé te salvou”). Mas o conceito bíblico de fé é muito mais amplo, a ênfase principal estando voltada para um relacionamento especial entre o crente e Deus. Ter fé significa acima de tudo confiar em Deus, depender dele, buscar a sua presença, aceitar como verdadeiras as declarações da sua Palavra. O objeto maior da fé não são coisas, mas uma pessoa — o Deus trino.

Fundamento questionável

A teologia da prosperidade, que serve de base para boa parte da pregação e das práticas neopentecostais, é uma das mais graves distorções do evangelho já vistas na história cristã. Essa abordagem teve início nos Estados Unidos há várias décadas, sob o nome de “health and wealth gospel”, ou seja, evangelho da saúde e da riqueza.

No neopentecostalismo, essa se torna a principal chave hermenêutica das Escrituras. Tudo passa a ser visto dessa perspectiva reducionista acerca do relacionamento entre Deus e os seres humanos. O raciocínio é que Cristo, através da sua obra na cruz, veio trazer solução para todos os tipos de problemas humanos. Na prática, acaba se dando maior prioridade às carências materiais e emocionais, em detrimento das morais e espirituais, muito mais importantes.

Tradicionalmente, as maiores bênçãos que o homem podia receber de Deus incluíam o perdão dos pecados, a reconciliação, a paz interior e, num sentido mais amplo, a salvação. Dentro da nova perspectiva teológica, as coisas mais importantes que Deus tem a oferecer são um bom emprego, estabilidade financeira, uma vida confortável, felicidade no amor e coisas do gênero.

É uma nova versão da tese do sociólogo alemão Max Weber, segundo o qual os calvinistas buscavam no sucesso econômico a evidência da sua eleição. Os problemas da teologia da prosperidade são diversos: (a) falta de suporte bíblico — a Escritura aponta na direção oposta, mostrando a armadilha em que caem os que se preocupam com as riquezas; (b) empobrecimento da relação com Deus, concebida em termos interesseiros e mercantilistas; (c) incentivo a atitudes de individualismo, egocentrismo e falta de solidariedade; (d) tendênciapara a alienação quanto aos problemas da sociedade.

Conclusão

O neopentecostalismo representa um grande desafio para as igrejas históricas e mesmo para as pentecostais clássicas. Esse movimento tem encontrado novas formas de atrair as massas que não estão sendo alcançadas pelas igrejas mais antigas. Nem todos os grupos padecem dosmales apontados atrás. Muitas igrejas neopentecostais são modestas, evangelizam com autenticidade e não se rendem à tentação dos resultados rápidos, dos projetos megalomaníacos e dos métodos incompatíveis com o evangelho. O grande problema está nas megaigrejase seus líderes centralizadores, ávidos de fama, poder e dinheiro. Estes precisam arrepender-se e voltar às prioridades da mensagem cristã, buscando em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justiça, para que então as demais coisas lhes sejam acrescentadas.

Autor: Alderi Souza de Matos, na revista Ultimato.

Add comment Maio 29, 2008

Um novo modismo evangélico

Eu estava no culto em que um pastor alardeou que obturações de ouro seriam dadas por Deus. Em instantes, as pessoas passaram a examinar umas às outras e pasmas, choravam afirmando que muitos dentes estavam divinamente restaurados. Presenciei um evangelista norte americano soprando – pretensamente como Jesus fez em seu ministério – e pessoas sendo jogadas no chão. Assustei-me com a trivialidade com que alguns pastores relataram seus encontros com anjos. Estupefato ouvi um novo modo de orar entre os evangélicos; as preces, agora vinham entrecortadas com ordens, exorcizando demônios. Inquietei-me com uma geração de evangélicos amedrontados com maldições e pragas. Imperativos que “amarravam” demônios me deixaram desassossegado.

 

A igreja evangélica brasileira é muito frágil teologicamente. Por isso sofre com os mais diversos modismos. Lembro-me que, em um congresso para líderes, fui desafiado a falar sobre qual seria a próxima moda que varreria a igreja nacional. Recordo-me que precedi minha palestra afirmando que primeiramente, seria necessário entender que as forças do mercado agem com muita força na elaboração teológica. Qualquer movimento vindo do exterior e que tenha sido bem sucedido lá, será copiado. As lideranças evangélicas querem achar o método que alavancará suas comunidades. Se uma determinado estratégia mostra-se eficaz no exterior, aqui dificilmente se questionará a teologia que a alicerça. Segundo, o brasileiro é culturalmente místico. Tendemos aceitar acriticamente propostas teológicas que promovam experiências sobrenaturais. O brasileiro fascina-se pelo mistério e pela magia. Afirmei naquela palestra também, que, como o mundo pós-moderno, a igreja busca estratégias de resultado imediato.

 

Acredito que os modismo não podem ser detectados com antecedência. Mas qualquer que seja a próxima onda, a igreja precisa estabelecer alguns princípios. Eles ajudarão que se embarque em novidades sem discernimento crítico.

 

1) A teologia da Cruz.

 

Paulo escreveu a sua epístola aos Gálatas, preocupado que houvesse acréscimos à cruz. Os fariseus convertidos queriam que, além da doutrina da redenção, se acrescentassem alguns preceitos essenciais ao judaísmo, como a circuncisão. Sua carta procurava enaltecer a total suficiência do sacrifício de Cristo. Ele acreditava que qualquer acréscimo à expiação de Cristo não apenas enfraquecia as bases do Cristianismo, como anulava-as. “Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo está desfeito o escândalo da cruz”– Gálatas 5.11.

 

Não seriam os movimentos de “Cura Interior” que se alastram nas igrejas evangélicas um enfraquecimento da doutrina do novo nascimento? Recebi de um leitor do Ultimato um formulário com quatorze páginas de um seminário de cura interior ministrado em várias igrejas pelo Brasil. O seminário é para cristãos que ainda carregam seqüelas do passado de pecado. A pessoa passa por uma longa sabatina, revolvendo toda a sua vida e procurando encontrar aberturas espirituais no passado que tragam maldições no presente. Buscam ser exaustivos e chegam às raias da paranóia. Indagam se a pessoa comeu cocada no dia em que se celebra Cosme e Damião, se os seus pais ou avós freqüentaram reuniões de cultos afro brasileiros. Querem saber se a pessoa sonha freqüentemente com “negros” em um flagrante preconceito que fere, inclusive a Constituição. Há encontros em que se praticam regressões até a vida intra uterina. Pede-se à pessoa que visualize o esperma do pai encontrando-se com o óvulo da mãe e que detecte sinais de maldição que tenha desdobramentos em sua vida presente. Mesmo aceitando que haja escolas da psicologia que advoguem a regressão como técnica terapêutica. Ela é inaceitável como prática espiritual. Não há como negar que uma pessoa convertida ainda pode carregar seqüelas emocionais, traumas psicológicos e até desequilíbrios psíquicos. Entretanto, é inadmissível que um cristão nascido de novo ainda necessite “quebrar” maldições de sua vida passada. A Bíblia contém inúmeros textos afirmando o contrário: “Não vos lembreis das cousas passadas, nem considereis as antigas…Eu, eu mesmo, sou o que apago as tuas transgressões por amor de mim, e de teus pecados não me lembro”- Isaías 43.18,25. “Pois perdoarei as suas iniqüidades, e dos seus pecados jamais me lembrarei”- Jeremias 31.34. “Se, pois, o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres”- João 8.36. “E assim, se alguém está Cristo, é nova criatura, as cousas antigas já passaram; eis que tudo se fez novo”- 2 Coríntios 5.17. Mas uma cousa faço: esquecendo-me das cousas que para trás ficam e avançando para as que diante de mim estão, prossigo para o alvo, para o prêmio da soberana vocação de Deus em Cristo Jesus”- Filipenses 3.13-14. Sessões de cura interior são inócuas para preservar qualquer pessoa espiritualmente, danosas na gestação de autênticos discípulos e um horror como cura psicológica. Alguém que se submeteu a uma sessão de “Cura Interior” corre o risco de entrar em uma paranóia espiritual e descobrir que continua sofrendo com seus traumas psicológicos, e pode facilmente se desesperar pois foi-lhe prometido que Deus a curaria instantaneamente.

 

O Evangelho Antropocêntrico.

 

Desde a Modernidade e com o apogeu do Iluminismo, homens e mulheres subiram em um pedestal. O mundo ocidental acredita que merecemos ser felizes e que tudo deve gravitar em torno de nos tornar plenos. Inclusive Deus. Devido a essa visão, aprendemos um conceito religioso egoísta. Entendemos como evangelho o anúncio de um Deus que nos faça bem. Que esteja ao nosso dispor. Assim, nossas preces se resumem a pedir. Queremos que nosso louvor seja agradável a nós mesmos. Compreendemos conversão como uma descoberta que nos fez mais felizes. Hoje, muitos evangélicos aprenderam a “reivindicar” direitos e “decretar” bênçãos. Recentemente vi um adesivo colado no vidro do carro de um crente que pedia: “Dê uma chance para Deus.” Quem será que necessita de uma chance? Deus ou homens e mulheres que se rebelaram contra Deus que é amoroso e bom? Estarrecido, soube que há encontros evangélicos onde as pessoas aprendem a “liberar” perdão para Deus. É o cúmulo! Inverteram-se os papéis. Deus agora precisa ser perdoado? Urge voltar ao anúncio do Reino em que ele é Senhor Soberano e amorosamente estende sua graça para todos.

 

Atalhos.

 

Tanto as forças do mercado como a tecnologia pós moderna condicionam esta geração ao imediatismo. Acredita-se que tudo pode ser resolvido no estalar de dedos. As propagandas na televisão conseguem solucionar os problemas de limpeza de uma casa, garantem seguro médico, prometem férias felizes, dão-nos prestígio. Tudo em 30 segundos. Buscamos também resolver nossos dilemas espirituais em rápidos momentos de um culto. Infantilmente acreditamos que bastam alguns momentos de êxtase espiritual para subirmos os penosos degraus da maturidade cristã. Paulo admitiu que necessitava mais do que surtos de adrenalina espiritual: “mas esmurro o meu corpo, e o reduzo à escravidão, para que, tendo pregado a outros, não venha eu mesmo a ser desqualificado”- I Coríntios 9.27. Não há atalhos na escola de Deus. Nada substitui o discipulado. Nenhum método suplantaria a igreja como comunidade terapêutica. Experiências com Deus se acumulam com amargas derrotas e felizes triunfos. Dia a dia aprende-se a fidelidade de Deus. Devemos olhar com cautela ministérios que prometem que em um simples final de semana os imaturos serão transformados em líderes capazes. É potencialmente desastroso montar uma estrutura eclesiástica em técnicas tão velozes.

 

Os modismos são sinais dos tempos. Para não sermos levados por todo vento de doutrina, portemo-nos como os bereanos, conferindo com as escrituras todas as novidades que surgem no cenário religioso. Acreditemos que passarão os céus e a terra, mas a sua Palavra permanecerá.

 

Soli Deo Gloria.

 

Ricardo Gondim Rodrigues é teólogo, escritor e pastor da Assembléia de Deus Betesda.

Add comment Maio 9, 2008

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