Pentecostalismo, Koinonia e Individualismo

novembro 29, 2007 at 5:29 pm Deixe um comentário

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A décima segunda divisão, da primeira epístola de Paulo aos Coríntios, é conhecido como o texto dos dons espirituais. Realmente, os capítulos 12, 13 e 14 da missiva corintiana, é um tratado paulino sobre os pneumatikos carismata, ou seja, os dons do Espírito são o tema central. Mas medite nos versículos de 12 ao 31, do referido trecho epistolar, e você verá que a proposição, além de pneumatológica, é eclesiológica: a igreja como o corpo místico de Cristo em comunhão.

É comum, na igreja hodierna, a promoção de uma espiritualidade cada vez mais individualista, onde as excêntricas experiências pessoais são excessivamente incentivadas. Todavia, o Espírito Santo trabalha no meio da comunhão e nunca na divisão, como bem escreveu o historiógrafo Lucas, relatando as características da igreja dos primeiros dias: “E perseveravam… na comunhão, e no partir do pão, e não orações… E todos os dias acrescentava o Senhor à igreja aqueles que se haviam de salvar”(At 2.42, 47).

Nesses dias tenebrosos, que antecedem a parousia de Cristo, os templos cristãos se tornaram casas de prazeres. São crentes que vêem a oração como um meio de barganha com o Altíssimo, e não um canal de comunhão divina. Os filhos de Deus se tornaram crianças extremamente mimadas, pois contemplam um pai obrigado a atender os seus desejos mercantilistas, mas não conseguem colocar a sua confiança no Deus Soberano. O que é melhor para a igreja individualista pós- moderna, um culto de intercessão pelas nações, ou a reunião de oração “forte” para os empresários crescerem materialmente? A resposta é óbvia, e sendo assim, a advertência do irmão de Jesus é cada vez mais necessária: “Pedis e não recebeis, porque pedis mal, para o gastardes em vossos deleites”(Tg 4.3).

O evangelicalismo vive em um período que o cristianismo segue as regras de mercado. Nesses dias há denominações para todos os gostos: igrejas para roqueiros, igrejas para surfistas, igrejas para a classe-média, igrejas para madames da elite paulistana… há igrejas como opções de parto na praça de alimentação de um shopping-center. Não seria essa eclética manifestação denominacional, a mais trágica expressão do individualismo gospel? Charles Colson, pensador cristão, faz uma observação com muita propriedade:

     

A cultura é radicalmente individualista. Pessoas fazem de tudo o que querem. São nas suas igrejas. O resultado é que escolhem e optam pelas igrejas que irão membrar-se, acreditando no que querem. Falta sempre o entendimento da responsabilidade de ser parte da comunidade dos crentes. A maioria das pessoas que se sentam nos bancos de igreja perdeu totalmente esse ponto.¹

     

Como no começo do texto foi lembrado, Paulo escreveu sobre dons espirituais e comunhão da igreja no mesmo papiro, certamente com a mesma tinta. Pois carisma só combina na koiononia. Os dons do Espírito tem o objetivo de promover edificação na comunidade. O exercício dos dons espirituais deve estar inserido em um contexto de valor à edificação coletiva e não ao individuo. O doutor dos gentios orientou:

     

O que fala língua estranha edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja. Eu quero que todos vós faleis línguas estranhas; mas muito mais que profetizeis, porque o que profetiza é maior do que o que fala línguas estranhas, a não ser que também interprete, para que a igreja receba edificação. ( 1Co 14. 4-5)

      

A maior preocupação do menor dos apóstolos, era com a edificação da igreja nas manifestações carismáticas. Paulo então fala sobre o amor (capítulo 13), que é um assunto totalmente ligado aos capítulos 12 e 14; então ele lembra que o amor “não busca seus interesses”, e da mesma forma o portador de um dom não deve se auto-promover, mas lutar pelo crescimento de cada membro na comunidade. A variedade de dons espirituais é para que todos participem dessa graça e possa assim, colaborar com o amadurecimento mútuo. Como lembra o teólogo pentecostal Stanley M. Horton:

   

O propósito da variedade (dos dons espirituais) é possibilitar o corpo a funcionar como unidade. A variedade, portanto, não visa a vantagem do indivíduo, ao dar mais coisas para desfrutarmos. Visa, pelo contrário, a vantagem da Igreja… Deus, deliberadamente, concedeu dons e ministérios a pessoas diferentes. Ele quer que reconheçamos ser necessário precisarmos uns dos outros

   Só mesmo a comunhão no Espírito pode promover essa verdadeira espiritualidade. Infelizmente muitos pentecostais valorizam experiências que não edificam a sua comunidade e nem promove um unidade no Espírito em torno da Palavra. O individualismo leva a buscar os prazeres místicos do “cair no espírito” ou da “risada santa”, que em nada edificam a igreja, mais trazem uma satisfação egoísta. É muito forte o testemunho do pastor Paul Gowdy, sobre os efeitos da “bênção de Toronto”(cair, danças, rolar, pular, rugir no espírito) sobre a igreja canadense, do qual ele era membro: “Desde que a bênção de Toronto chegou, ficamos esfacelados”³. Gowdy, que abandonou o movimento neopentecostal da Igreja de Vineyard, relata que a igreja que caia no espírito, caiu no mais baixo nível espiritual enquanto passava por esse “avivamento”. O modismos não promovem comunhão, mas divisão, assim como aconteceu na igreja do ex-lider neopentecostal Paul Gowdy.Nenhum pentecostal pode esquecer que os dons espirituais estão no contexto da comunhão eclesiástica. O Espírito Santo opera em indivíduos, isso por meio da regeneração, santificação, batismo pelo Espírito Santo e batismo no Espírito Santo. Mas todas as operações no indivíduo o leva para o corpo, pois o trabalho a Terceira Pessoa da Trindade é no corporativo. O Rev. Augustus Nicodemus, teólogo reformado, fez uma ponderação interessante sobre o referido assunto: 

   Creio que essa verdade bíblica tem faltado em muito do que se tem dito hoje sobre a plenitude do Espírito. A ênfase quase sempre está em aspectos individualistas, reações físicas individuais, experiências pessoais, e coisas do gênero. O aspecto corporativo da plenitude do Espírito, a compreensão do plano redentor de Deus que ele produz e Cristo como sendo a expressão objetiva e subjetiva da experiência são aspectos esquecidos ou pouco enfatizados, aspectos que, para Paulo, são essencialmente ligados à operação do Espírito na Igreja de Cristo.4   

 Portanto, a conclusão que se tira deste assunto é que a operação do Espírito Santo é no contexto da edificação de sua igreja. Manifestações pragmáticas e experimentalistas, onde a doutrina é relativizada, onde a comunhão é desprezada e o Fruto do Espírito é esquecido, trata-se de um falso pentecostalismo. Nesses movimentos e modismos, o ego humano é super-valorizado, a auto-ajuda é tema de pregação, o deus papai-noel satisfaz os gostos de seus “bons meninos de fé” e o triunfalismo é a grande onda. O avivamento é tratado com um meio de obter e ganhar e não entregar. O pentecostalismo bíblico não condiz com esse “cristianismo” individualista, centrado e sentado no trono do ego humano. 

   Referências Bibliográficas:   

 1- COLSON, Charles. In Entrevista. Resposta Fiel, Rio de Janeiro, Ano 3, n. 09, p. 12, Set-Out-Nov/2003.  

  2- HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. 6 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2002. p. 231, 232 e 236.    

3- DANIEL, Silas (ed.). Ex-líder da Igreja de Toronto denuncia arrependido farsas heréticas: Paul Gowdy confessou recentemente, em artigo, o que está por trás de modismos famosos que sua igreja disseminou no meio evangélico mundial. Mensageiro da Paz, Rio de Janeiro, CPAD, Setembro de 2007. N. 1468. p. 14-15. 

   4- NICODEMUS, Augustus. Cheios do Espírito. 2 ed. São Paulo: Editora Vida, 2007. p. 19.   

Autor: Gutierres Siqueira

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Análise crítica do Congresso de Missões dos GMUH Neo-pós-pseudo-pentecostalismo!

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