Entrevista com Paulo Romeiro

dezembro 5, 2007 at 11:44 am 8 comentários

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Apologista e o maior especialista em modismos teológicos no Brasil, alerta sobre movimentos religiosos que distorcem o conteúdo do Evangelho e como tratar vítimas dessas distorções.

Paulo Romeiro, 53 anos, é um dos maiores nomes da apologética cristã no Brasil. Casado com a psicóloga Simone Romeiro e pai de Alyne, 18, e Adryel, 10, ele se converteu a Cristo no Brasil, em 1971, na Assembléia de Deus, e foi ordenado pastor em 1984, pela Assembléia de Deus norte-americana do Distrito Sul da Califórnia, Estados Unidos, onde morou por sete anos.

Formado em Jornalismo, mestre em Teologia e doutor em Ciência da Religião, Romeiro hoje pastoreia a Igreja Cristã Trindade, em São Paulo, uma igreja independente fundada por ele, mas com a mesma Teologia das Assembléias de Deus.

“As revistas de Escola Dominical da minha igreja são da CPAD”, enfatiza o líder, que tem livre trânsito na denominação.

Romeiro foi um dos fundadores do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), de onde saiu para fundar e dirigir a Agência de Informações Religiosas (Agir). Autor de quatro livros, um deles publicado pela CPAD (Desmascarando as seitas, com co-autoria do pastor Natanel Rinaldi), ele fala nesta entrevista sobre os estragos provocados no Brasil pelos recentes modismos teológicos e como tratar os crentes que encontram-se decepcionados com a igreja devido a distorções pregadas em muitos lugares.

RF – Quais foram os principais modismos teológicos dos últimos tempos que causaram maiores estragos ao povo de Deus no Brasil?

PR – A Teologia da Prosperidade é um, depois outras doutrinas que foram aparecendo como a Quebra de Maldição Hereditária, o G-12 e as distorções na área de batalha espiritual, porque a ênfase passa a ser nos demônios, em espíritos territoriais. São várias as distorções na área de batalha espiritual. Vimos também os abusos na área dos milagres. E como combater isso? Só existe um meio: com a Bíblia. É preciso voltar aos fundamentos, ao básico, à Palavra de Deus.

RF – Recentemente entrevistamos o professor James Packer, que nos disse que a Teologia da Prosperidade já não tem força nos EUA como antes. O senhor acredita que a Teologia da Prosperidade ainda terá muito fôlego no Brasil e na América Latina?

PR – Ela terá por causa da tirania do mercado. Ela precisa de dinheiro para sobreviver e as igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade conseguem arregimentar a multidão. Essa doutrina prega o que as pessoas querem ouvir. Ela oferece uma ajuda imediata para problemas imediatos. “Você, que não consegue casar, vem aqui e vou lhe arranjar um parceiro”. Ou “Você, que não consegue prosperar, faz a corrente aqui e vai prosperar”.

RF – Quem é o culpado pela ênfase nas soluções imediatas para os problemas?

PR – Esse é o grande problema. Muitas igrejas não pregam mais a Salvação. Elas pregam a solução de problemas. Mudaram o foco. Elas não têm, por exemplo, um trabalho a médio e longo prazo com os seus membros, porque aí precisam falar de vida eterna. Você já viu, por exemplo, essas igrejas falarem sobre Céu, Santificação e Volta de Cristo? Tem pregador que nem quer que Jesus volte, porque ele está tão bem na vida hoje que a Volta de Cristo irá estragar os planos dele.

RF – O senhor tem falado ultimamente que tem aumentado no Brasil o número de crentes desiludidos e frustrados com a fé cristã por terem acreditado na Teologia da Prosperidade. Como tratar os crentes nessa situação?

PR – Os pesquisadores e sociólogos chamam isso de “trânsito religioso”. Há uma igreja em trânsito hoje. São milhares e milhares de crentes, talvez milhões, que não conseguem mais parar em igreja nenhuma. Eles transitam. Qual a igreja que oferece a melhor proposta ou o melhor entretenimento? Qual a igreja que vai oferecer o melhor show daquele fim de semana? Converti-me ao Evangelho em 1971 e, naquela época, nunca esperava que um dia algumas denominações chamassem um culto evangélico de show. Agora tudo é show. Há igrejas que só funcionam como shows. É a forma de prender a multidão. “Olha, hoje à noite tem fulano de tal, amanhã tem beltrano e depois aquele outro”, e não pára. Porque, se parar, o povo vai embora.

RF – E como tratar um crente assim?

PR – É preciso ensino da Palavra, porque as pessoas que saem dessas igrejas chegam cheias de ensinos distorcidos. Elas chegam falando, por exemplo: “Fulano foi ungido pastor”. Mas na Bíblia não existe unção para pastor. Na Bíblia as pessoas eram ordenadas ao ministério por imposição de mãos, e não ungidas, e a unção não é privilégio de um grupo. Eles vêm cheios desses cacoetes “Eu declaro”, “Eu reivindico”, “Eu não aceito”, “Eu determino”, “Eu decreto”, chegam com distorções doutrinárias. Aí você tem que ensinar à pessoa que o fato de ela estar em crise não quer dizer que é amaldiçoada. Nunca vi isso. Essa coisa de determinar tudo é falta de ensino. Terão também que repensar a questão do sofrimento, que faz parte da Teologia. Muitos pensam que não existe sofrimento para o crente. O crente não pode adoecer, sofrer, ter dívidas etc. Às vezes fico pensando: até que ponto a pessoa pode acreditar na aguinha em cima do rádio, na cruz pregada na parede, nos sabonetes ungidos…batismo no Espírito Santo com pó de ouro! Há ainda o tapete ungido, a campanha para os adeptos ganharem na loteria etc. O ser humano tem a habilidade de crer em qualquer coisa. O discipulado é também muito importante. Esses crentes passam a viver uma crise de conversão. As igrejas por onde passaram são fortes na sua ação evangelizadora, atraem o povo, mas são fracas na sua ação discipuladora. Elas não conseguem mais discipular. Porque, para discipular, gasta-se tempo, envolvimento, e isso não existe mais. Além disso, muitos pregadores de hoje vivem no avião, falam com as pessoas da tevê, não têm mais relacionamentos, a não ser com empresários. Precisamos ajudar as pessoas a crescerem para que possam ajudar outras depois. Uma coisa muito importante ainda é o acolhimento. É preciso acolher essas pessoas, não olhá-las com suspeitas, porque, na verdade, elas já se decepcionaram onde estiveram.

RF – O Movimento Pentecostal foi, sem dúvida, um dos últimos avivamentos que a igreja experimentou nos últimos séculos, afetando o crescimento e a História da Igreja no mundo. No final do século 20, uma versão diferente desse movimento surgiu, com modismos sem base bíblica. Deixando de lado esses desvios, quais os benefícios do Movimento Pentecostal para a Igreja, especialmente no Brasil?

PR – A grande contribuição do Movimento Pentecostal foi a evangelização. Ele é o maior movimento evangélico do mundo. Não tem maior. Mas não foi só a AD, outras igrejas também enfatizavam a evangelização. Hoje, porém, infelizmente, muitas igrejas estão substituindo a evangelização pela competição, pelo proselitismo. Tem muito mais crente mudando de igreja do que pecador aceitando a Cristo. Há igrejas que crescem hoje por competição e não pela evangelização, e com isso aí o Reino de Deus não cresce. Só se muda o peixe do aquário.

RF – O que é preciso para se fazer apologética cristã saudável?

PR – Principalmente equilíbrio. Há pessoas que são apologistas, mas exageradas, sensacionalistas. É preciso amor. Vejo muitos apologistas hostis, atacando as pessoas. Não gosto nem mais de usar o termo seita ou heresia. Acho muito pejorativo. Hoje falo de fenômeno religioso ou movimentos religiosos. A apologética precisa aprender a construir pontes e não levantar muros. Se ela já chega atirando, o pessoal corre. Os apologistas precisam aprender a dialogar. Não precisa ser hostil. A Bíblia diz: “Falai a verdade com amor”. Além disso, a informação a ser transmitida deve ser apurada.

Entrevista cedida a:

DANIEL, Silas. Revista RESPOSTA FIEL – Ano Ano 5, nº 17, set/out/nov de 2005, p.10-12.

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8 Comentários Add your own

  • 1. Lina Romeiro  |  maio 17, 2008 às 3:24 am

    Temos o mesmo sobrenome como o mesmo nao muito comum, sera que somos parentes? moro em Brasilia, mas nasci na Bahia…um abraço para o senhor Lina

    Responder
  • 2. Antonio Teixeira  |  setembro 9, 2008 às 9:49 pm

    Eu acho que os criticos da teologia da prosperidade nao conseguem reunir muita gente.por isso ficam com inveja e criticam.

    Responder
  • 3. ELAINE DA ROCHA  |  janeiro 6, 2009 às 4:02 pm

    GOSTEI MUITO DA ENTREVISTA. LI OS SEUS TRES PRIMEIROS LIVROS..LI E TENHO ELES COMO LIVROS MTO IMPORTANTES P O CRESCIMENTO DE TODO CRISTÃO!

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  • 4. ELAINE DA ROCHA  |  janeiro 6, 2009 às 4:04 pm

    GOSTARIA SER SABER O CONTATO DO PAULO P VIR PREGAR AQUI EM SC.

    Responder
  • 5. Jose Campos  |  agosto 12, 2009 às 3:40 am

    Pretendo entrar em contacto com o Sr. Paulo Romeiro. Por favor, podem dar-me seu E-mail?
    Obrigado.

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  • 6. Roberto  |  setembro 13, 2009 às 10:47 pm

    O que estao fazendo com o evangelho esta dentro do que Jesus disse qdo chegou a Jerusalem e muitos tinham feito a Caso do Senhor em covil de ladroes, infelizmente é o que esta acontecendo estao mercantilizando o evangelho. So atraves da Palavra é que as pessoas se converterao ao Senhor.

    Responder
  • 7. fabio rodrigues  |  dezembro 14, 2009 às 12:59 am

    corretamente muito se fala no meio evangelico mais pouco se ver
    Checa de cremos e ilusionistas que só fala
    A igreja brasileira esta dividida entre ilusão e realidade.
    Os que estão iludidos da Fe só crê e nada faz
    Os realistas da Fe vencem a inconstância lutam fazem o que precisa ser feito.
    Em que território você esta?
    Só ora ? e fácil difícil e fazer o que deve ser feito não viva iludido pro palavras de alto profecias . saiba que Fe sem obras nada e , saber fazer e não fazer nada ,nada vale

    Responder
  • 8. eva souza  |  dezembro 18, 2009 às 5:28 pm

    pr.paulo apaz
    gostaria que o sr. me indicasse
    alguns livros (evangelicos)
    sbre homosexualismo
    aguardo resposta e que
    DEUS te abençoe ricamente.

    Responder

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