Archive for maio 17, 2010

Por que as igrejas tradicionais se distanciaram das periferias?

Por Gutierres Siqueira

Sou pentecostal mas tenho um carinho especial pelas igrejas tradicionais, como presbiterianas, batistas, metodistas e congregacionais. Mas um fato me espanta- As igrejas tradicionais abondaram as periferias. Agora, com exceção das igrejas batistas, há pouca representação nos bairros mais pobres das denominadas igrejas históricas. Em São Paulo, por exemplo, é raro achar uma Igreja Presbiteriana do Brasil na região de Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. Essa região agrega vários bairros pobres que estão cheios de igrejas pentecostais e neopentecostais, mas quase nada de igrejas reformadas.

Alguns reformados alegam que a sua mensagem é de difícil assimilação para pessoas de baixo grau de instrução. Ora, será que as igrejas em bairros de classe-média e média-alta têm membros com boa compreensão? Os jovens universitários de igrejas na Vila Mariana, bairro de classe-média, conhecem bem a estrutura doutrinária de suas igrejas? Ou o desconhecimento é geral, independente de classes sociais e grau de estudo? O problema, então, não seria didático? Será que é possível colocar a inércia na periferia como uma questão de dificuldade no ensino?

Outra desculpa é que a mensagem reformada não é agradável ao grande público. Convenhamos, uma igreja como a “Deus é Amor”, extremamente legalista, traz em sua mensagem “curas” com um alto grau de comprometimento com a rigidez doutrinária da denominação, mas mesmo assim só penetra nas periferias. O ultralegalismo de algumas igrejas pentecostais ou neopentecostais não impede o seu crescimento. Então, por que a doutrina reforma seria tão pesada assim para que as pessoas se distanciassem de seus cultos?

E você, amigo tradicional ou pentecostal, o que acha desse distanciamento das periferias pelas igrejas históricas?

maio 17, 2010 at 5:30 pm Deixe um comentário

O pentecostalismo, a privacidade e Jesus Cristo

Por Gutierres Siqueira

O cronista português João Pereira Coutinho escreveu em artigo dizendo que “a privacidade é talvez a maior conquista da civilização judaico-cristã”. Mediante esta frase fiquei a meditar como as Escrituras nos incentiva para uma prática de espiritualidade recatada, privativa, mas que reflete em nosso caráter exercido no dia a dia. Na adoração, que é um ato de intimidade entre a criatura e o Criador, somos compelidos a trancar a porta. Infelizmente, como o caminho bíblico é desprezado em boa parte das igrejas pentecostais que fazem da adoração um verdadeiro circo, um espetáculo pessoal, com direito a todo tipo de apresentação.

Jesus disse: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). Assim é adoração a Deus: um momento de intimidade privativa, redundância proposital para expressar a grandeza de elevar a Deus um louvor sincero, que não será alvo de apreciação de nenhum outro homem. Adoração não é espetáculo, não é palco. Adoração é quarto com a porta trancada. É por trás das cortinas como no templo veterotestamentário.

O privativo Jesus jamais falaria em línguas em um sermão quando não há quem interprete. Ora, como deixa bem claro o apóstolo Paulo no magistral texto de I Co 14 (um dos mais desprezados nas igrejas pentecostais) as línguas quando não interpretadas é intimidade entre o falante e Deus, que o ouve e o entende (14.3). Não é algo para compartilhar com dezenas de pessoas. Agora, quando interpretado deve ser compartilhado com os demais, pois já não é adoração, mas sim uma profecia (14.28)

Jesus era seguido por grande multidão e curava a todos, mas “advertindo-lhes, porém, que o não expusessem à publicidade” (Mt 12.16). Sim, Jesus não fazia espetáculo com seus milagres, não promovia shows de testemunhos e até proibia que os curados saíssem gritando pelas ruas que foram por Ele libertos. O recato de Cristo é impressionante, mas isto já tinha sido profetizado por Isaías:

Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina. (42. 1-4, cf. Mt 12. 16-21)

Como é diferente dos nossos dias, em que cartazes e carros de som anunciam a pregação “do grande homem de Deus” que visitará a cidade ou o bairro. A simplicidade de Cristo não é modelo para esse pregadores que arrotam vaidade, orgulho e ostentação de grandeza. A publicidade era abominada pelo Senhor, pois Ele não se portava como um agente de serviço ou vendedor de coisa supérflua, mas sim anunciava a salvação.

Então, quando mais discreta for a sua e a minha espiritualidade, melhor será.

maio 17, 2010 at 5:26 pm Deixe um comentário


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