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O amor, o regulador dos dons espirituais

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“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”( 1Co 13.1). Assim se expressou o apóstolo Paulo aos Coríntios quando falava a respeito dos dons espirituais; e nesse verso há um princípio muito importante no pentecostalismo: o amor é o regulador dos dons espirituais (pneumatikos).   

O fruto do Espírito disciplina o uso dos dons, ele não nasce maduro no neo-converso, mas se desenvolve na vida do cristão. O fruto habilita o ser humano imperfeito a falar, agir e ser como Cristo. Por esse motivo é de vital importância naquele que busca a Cristo e o seu poder pentecostal. Enquanto isso, os dons espirituais nascem perfeitos, mas não estão relacionados ao caráter do crente , e si a capacitação espiritual para a edificação da igreja e proclamação do evangelho. Quando aos dons e ao fruto do Espírito é preciso equilíbrio. “Deus usou o apóstolo Paulo para, na primeira epístola aos coríntios, escrever os capítulos 12,13 e 14 a fim de acentuar a importância de equilíbrio, decência e ordem na igreja quanto ao exercício dos dons espirituais. Isto se dá(…) através do predomínio do amor segundo o Espírito.”(1)

No livro Teologia Sistemática, há uma reflexão deste assunto que merece total atenção, diz o autor que: “O Fruto do Espírito é a maneira de se exercer os dons . Cada fruto vem acondicionado no amor, e qualquer dom, mesmo na sua mais plena manifestação, nada é sem o amor”. Os dons sem o amor são vazios e subjetivos. Por esse motivo os cristãos devem se submeter ao controle do Espírito Santo par que o Fruto do Espírito possa amadurecer em nossas vidas. É preciso nos preocuparmos com um caráter semelhante ao de cristo para que possamos exercer os dons sem falsidade e com verdadeira espiritualidade.

01. O propósito dos dons e do amor  

 Disse Paulo: ” O que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4b). O propósito principal dos dons é a edificação do corpo de Cristo, não é promoção pessoal, aquisição de poder político social ou o controle sobre a vida do próximo. Sem o amor, o portador dos dons correrá de modo contrário a edificação da igreja, a sua motivação sempre será a sua auto-promoção. O amor “não busca seus propios interesses” (1Co 13.5b), por esse motivo o crente amoroso usará seus dons para a edificação do seu irmão. Sem o amor os dons espirituais não “podem cumprir o propósito de Deus”.(3) Por essa razão muitos estão se enganando, buscando o “poder ” do alto para oprimir o próximo, isso não vem de Deus. “Qualquer atividade dentro da igreja só terá valor se estiver relacionada como o todo. O trabalho do corpo como um todo é o que importa!” (4). Portanto: “Faça-se tudo para a edificação”.(1Co 14.26).   

02. O uso dos dons e o amor 

“Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetiza e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.” (1Co 14.39-40)Este versículo é muito conhecido , porém, pouco praticado. Hoje em dia há uma verdadeira apologia à desordem no culto, contrariando o que está escrito na Bíblia.    O culto dirigido sem amor será cheio de aberrações, onde o centro das atenções é o homem. O ágape procura cultuar a Deus e não o pregador com seus exibicionismos, pois o amor, com disse Paulo: “não se porta com indecência”(1Co 13.5a). É preciso bons modos no culto, “porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz”; por isso, o amor não deixará a carnalidade, imaturidade e partidarismo tomar conta do culto a Deus.   

03. Dons, humildade e o amor

Em 1Co 13.4, Paulo diz que o amor “não se ensoberbece”(RC) “não se incha de orgulho” (BJ). Porém, você pode está se perguntando o porque falar de dons espirituais citando muitos trechos de 1Co 13? Como lembra o teólogo pentecostal Donald Gee, citado por Antonio Gilberto: “O grande capítulo do amor se coloca entre os dois capítulo que tratam dos dons espirituais e é parte integrante do assunto.”(5)

Portanto o portador dos dons que não tem amor rapidamente se inchará de orgulho. Quando Paulo fala aos romanos sobre os dons no capítulo 12, ele apela para a humildade no versículo três. Pois sempre haverá uma tentação para um alto-conceito de si mesmo de sua importância.

A palavra dom vem da palavra grega charisma. A palavra graça em grego vem de charis. Portanto os dons são obras da graça de Deus, assim como a salvação, não merecemos os dons do Espírito, por esse motivo ele nos concede por sua maravilhosa graça. Os dons “dão testemunho da bondade de Deus, e não da virtude de que os recebem”(6). Assim sendo, não há motivos para se orgulhar e sim para se humilhar perante um Deus tão amoroso.

O amor, como a maior expressão do Fruto do Espírito, deve está associada como os dons que partem do Espírito Santo, pois a terceira pessoa da trindade derrama, no regenerado, o amor de Deus (Rm 5.5).

 Notas:

 01) Gilberto, Antônio. O Fruto do Espírito (CPAD, 2004, pg 138) 

 02) Horton, Stanley M. Teologia Sistemática, sob uma pespectiva pentecostal (CPAD, pg 493)

 03) Stamps, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD,1995, pg 1759)  

04) Lira, Eliezer. Lições Bíblicas: Salvação e Justificação 1° Trim. de 2006 (CPAD, pg 65)  

05) Gee, Donald. Concerning Spiritual Silfts (Gospel Publishing House, pg 66) cit in O Fruto do Espírito(CPAD).   

06) Horton, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo (CPAD, pg 225)

Autor: Gutierres Fernandes Siqueira, moderador do site.

dezembro 6, 2007 at 11:59 am 2 comentários

Dons Espirituais: Reflexões pastorais sobre a interpretação e uso dos dons

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Introdução

Ao ser convidado a preparar um artigo, meus pensamentos foram passando pela literatura lida e escrita sobre os dons espirituais, durante anos passados, inclusive pela minha atuação como intérprete e ajudante de missionários estrangeiros em campanhas de cura divina. (Aliás, é bom lembrar que hoje, há grande aceitação mundial dos missionários avivalistas provenientes do Brasil – talvez o maior país exportador de reavivamento).

  

Essas lembranças porque, na data do convite, minha tese Os Dons do Espírito Santo, escrita em caneta e tinta em fins de 1963, e posteriormente publicada em várias tiragens por diferentes editoras, acabara de ter uma edição revista lançada na 17ª Bienal do Livro em São Paulo, em abril de 2002. A mesma editora me pediu, com urgência, para traduzir imediatamente em seguida, um livro chamado Os Dons Milagrosos são para Hoje?, fruto de um simpósio dirigido pelo Dr. Wayne Grudem, com mais quatro participantes de grande fama e capacidade. Nele, havia citações de quase uma dúzia de livros em inglês que já existiam em português, e aos quais fui consultando. Inclusive algumas dessas obras estive envolvido desde 1969, tais como Eles falam em outras línguas, de John Sherrill e Vai, Disse-me o Espírito, de Davi Duplessis. 

  

Pois bem, foram quarenta dias intensivos nessa tradução, com as leituras paralelas, e foram trazidas à mente muitas lembranças, tanto da prática, quanto de alguns debates religiosos em nível das igrejas. (Tomo a liberdade de adiantar para possíveis leitores da obra de Wayne Grudem, que a meu ver, todo o peso da argumentação teológica, enaltece o Espírito Santo, e que mesmo o “menos pentecostal” reconhece todos os milagres nos tempos de Jesus e dos apóstolos, e a operação do Espírito Santo hoje, inclusive na cura divina).

     

1. O Cessacionismo 

  

Um dos assuntos levantados, ao lidar com o volume traduzido agora, foi o “cessacionismo,” defendido por um dos participantes do debate. É a teoria de que muitos milagres, bem como dons espirituais, existiam em função da formação do cânon do Novo Testamento – quer dizer que houve um poderoso derramamento de milagres na vida de Jesus, e dos apóstolos, mas que cessou depois de encerrado o cânon do Novo Testamento. A idéia é que os milagres confirmaram a divindade de Cristo (fato este que está fora de dúvida) e, semelhantemente, confirmaram a origem divina da atuação e doutrina dos apóstolos (outro fato inabalável). 

  

Tudo isso concorreu para os registros em todos os livros do Novo Testamento serem reconhecidos como obra legítima e permanente de Deus, parte integrante das Escrituras Sagradas. E isso também é certo. Quando me converti a Cristo, a conversão envolveu a aceitação da inspiração plenária, inerrância e infalibilidade da Bíblia. Inclusive entendo que qualquer conceito da Bíblia que não a reconhece assim, está fora do arraial do cristianismo. 

  

a) Quando cessou a atuação do Espírito na Igreja? Só que é mais difícil entender como o cessacionismo vai explicar em qual momento, uma vez completadas as Escrituras, o Espírito Santo, de quem elas falam e que justamente foi prometido por Jesus à Igreja, antes da sua crucificação e ascensão, especificamente para continuar com os fiéis, para fazer as vezes de Jesus, de ser sua presença real entre nós hoje – quando teria cessado a atuação do Espírito Santo? O cessacionismo quer declarar que os dons milagrosos do Espírito Santo cessaram com a morte dos apóstolos e com a definição do conteúdo do Novo Testamento.  

  

b) Cânon Fechado. A intenção dos cessacionistas parece ser preservar o “cânon fechado” contra novas revelações que se colocariam de encontro com o Novo Testamento que possuímos. Contudo, nenhum crente pentecostal, que eu possa imaginar, está pensando que algum dom de profecia ou de línguas com interpretação vá diminuir, substituir, ou acrescentar à Bíblia que, por si só, é obra do Espírito Santo. Jesus disse, ao prometer a vinda do Espírito Santo aos fiéis, que seria para nosso bem que Ele iria embora. Foi para poder nos enviar o Espírito Santo (Jo 16.7), que estará conosco para sempre (Jo 14.16). E a atuação do Espírito Santo fica semelhante àquela narrada nos Evangelhos e em Atos. “O Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome lhes ensinará todas as coisas  e lhes fará lembrar o que eu lhes disse”, Jo 14.26. Este texto refere-se ao conteúdo didático. A aplicação de ensinos existentes está em: “Aquele que crê em mim fará também as mesmas obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai”, Jo 14.12. Que é o conteúdo prático, já que o Espírito Santo confirmava com milagres a divindade de Jesus e a doutrina dos apóstolos. Ele continuará com a confirmação dos mesmos fatos, por onde quer que os cristãos levarem a fé.  

     

2. Línguas em Atos 2

  

Nos debates sobre a palavra “línguas” em Atos 2, vejo que é incomum reconhecer que se trata de duas palavras no original. Há chamas em forma de “línguas” (v3). Há  palavras faladas com a operação do Espírito Santo sobre a língua física humana – “línguas” (v4). O que o povo ouviu nessa ocasião, eram “idiomas” (grego dialektos) (v. 6 e 8). E o resumo é que o povo escutava as glórias a Deus sendo faladas nas suas próprias “línguas” – o dom de línguas em operação, com a interpretação milagrosa fornecida pelo Espírito Santo.

  

Notei na exegese teológica em Cambridge a desculpa, para não levar em conta a atuação sobrenatural do Espírito Santo, é que é “imponderável” e um fator difícil de medir. Daí me ocorreu que a diferença entre o orçamento para construir uma casa num terreno, e para fazer obra idêntica debaixo do mar, também seria bem complicada – mas isso não quer dizer que o mar não existe! 

  

Vejo que os escritos dos Profetas canônicos na Bíblia atacam abertamente o suborno, a corrupção e muitos males da sociedade moderna, mas parece que há pessoas que  procuram mais “futurologia” do que instruções para a ética na vida pessoal e coletiva. Entendo que “profecia” é mais “falar da parte de Deus” às pessoas. As pessoas que acham que os dons espirituais não devem existir hoje, estão mais preocupadas com o dom da profecia, por pensarem que possa surgir nova revelação além da Bíblia, e até mesmo contrária a ela.

  

Mas, em primeiro lugar, entendo que, mediante a inspiração do Espírito Santo é que a Bíblia é infalível, inerrante e de inspiração verbal plenária. Portanto, nenhuma mensagem proveniente do Espírito Santo estaria contraditória às eternas Palavras de Deus.  

  

Classifico como seita herética qualquer grupo que vai inventando “novas profecias” para tomar o lugar da Bíblia ou mesmo para existir em paralelo a ela. Nada de “Bíblia mais Papa”, “Bíblia mais Livro de Mórmon” , “Bíblia mais Helen White”, “Bíblia mais a interpretação dos russelitas”, nem sequer “Bíblia mais teólogos”, pois onde existir mais carne humana, a própria Bíblia acaba sendo desrespeitada, e seu Autor, o Espírito Santo, repudiado. Certamente deve haver uma caminhada lado a lado dos dons com os frutos do Espírito Santo. E o poder do Espírito Santo com a vida espiritual semelhante à de Jesus Cristo, que enviou o Espírito para nos tornar reais a pessoa e as palavras Dele mesmo. 

  

Pensando na responsabilidade de cada crente ler bastante a Bíblia, por conta própria, deixando o Espírito Santo falar ao seu coração, deparei no título de um livro: A  Libertação da Teologia, e consegui adquiri-lo, imaginando que se tratasse da fé íntima que não dependeria demais dos sistemas teológicos organizados. Tinha muitas páginas falando de “espiritualidade” intercaladas com outras sobre a teologia – mas a “teologia” atacada era o próprio estudo individual das Sagradas Escrituras! Classifico como espiritismo semelhantes conceitos. 

  

Vejo a obra do Espírito Santo brotando da fé bíblica, da conversão, da santificação – sendo todas estas, por si só, são milagres do Espírito Santo – mas acho que buscar visões, milagres, sinais sem instrução bíblica na igreja, sem leitura bíblica devocional prolongada e fervorosa pelos membros, fazem com que os alicerces fiquem fracos.

     

3. As Profecias 

  

3.1. No Antigo Testamento

  

Quanto à profecia, sem se tratar de mensagens inscrituradas de modo perpétuo através do Espírito Santo, vemos grande quantidade de profetas, profecias, e profetizar nos livros históricos da Bíblia. Esses livros eram chamados Os profetas anteriores pelos judeus antigos – desde Josué até Neemias – principalmente porque neles surgiam, de tempos em tempos, e sem aviso prévio, servos de Deus (muitos deles anônimos) que interviam com mensagens da parte de Deus, ou que inclusive dominavam a narrativa por algum tempo, tais como Samuel, Elias, Eliseu. E também havia grupos de profetas, escolas de profetas, dos quais se diz apenas que “profetizavam.” Até mesmo temos Saul “profetizando”, sem prever o futuro nem ditando Escrituras.

  

No contexto histórico, esse verbo dá mais a impressão de fervoroso louvor e glorificação. Nenhuma tentativa de concorrer com novas doutrinas. Por contraste com os “Profetas Posteriores” – de Isaías até Malaquias – cuja doutrina é registrada por toda a eternidade.

     

3.2. No Novo Testamento

  

Semelhantemente, no “dom da profecia” no Novo Testamento, temos profecias “ad hoc” – aplicadas à situação momentânea de uma ou mais pessoas, sem transmitirem nova doutrina – é somente “adiáfora” matéria que não faz diferença ao conteúdo da fé. O contexto é idealmente uma reunião da igreja, com leitura bíblica, pregação, louvor, orações espontâneas, com a presença do Espírito Santo em plena manifestação (e não uma presença “alegada” como no caso de um Concílio do Vaticano). Num culto assim, surge milagrosamente uma mensagem de profecia, ou em línguas, seguida de interpretação, que é exatamente o que alguém está precisando naquele exato momento – e é pelo Espírito que esse alguém reconhece que se trata de Deus falando ao seu coração. Acaba sendo um duplo milagre – assim como em Atos 2, os apóstolos falaram segundo o dom das línguas milagrosas, e os circunstantes entendiam segundo seus idiomas ou dialetos maternos. Repudiável seria fazer um registro de semelhantes mensagens, e guardar na igreja como uma preciosidade perpétua; já ouvi, também, de “profetisas” abrirem “consultórios” particulares, de profecias sob encomenda – até pagas! É melhor ter os dons no seu ambiente espiritual, como flores no seu próprio canteiro. 

  

Minha experiência mais notável de uma profecia, ou mensagem de Deus, através de línguas com interpretação, foi ao ser batizado na Assembléia de Deus em Cambridge. Cheguei aí porque me via cercado por teólogos modernistas – estudantes e professores – e eu, me dedicando ao estudo da própria Bíblia nos idiomas originais, sentia-me tão acossado como o profeta Elias, até meditar na unção que procede do Santo, “a unção que receberam dele permanece em vocês, e não precisam que alguém os ensine; mas como essa unção, que é verdadeira e não falsa, os ensina acerca de todas as coisas, permaneçam nele tal como os ensinou”, 1 Jo 2.20-27. Vi que precisava da unção do Espírito Santo, e um universitário (não estudante de Teologia) falou em eu ser batizado (nas águas) para receber o dom do Espírito Santo. Com convicção no Espírito, fui assim batizado e, ao sair das águas, ouvi uma mensagem num idioma que não entendia, mas que parecia ser da África Central, de Zimbábue, e a interpretação me dizia para não me afligir com as pressões, porque a teologia dos modernistas não passava de paganismo bem organizado, debaixo de uma leve máscara de cristianismo. A partir de então, nunca me senti oprimido pelo modernismo, só que agora considero que estudá-lo, mesmo para refutá-lo ou para fazer parte dos deveres de teólogo, é entrar em diálogo com Satanás, conforme fez Eva. A partir de então, passei a considerar a ética ensinada nas epístolas, não mais como as “letras miúdas” da salvação, mas, sim, como um ambiente jubiloso de realidade no Espírito Santo.

  

O pentecostalismo confirma totalmente a fé na totalidade da Bíblia.

     

4. Dom de Línguas

  

No tocante ao dom de línguas, a experiência de líderes internacionais, tais como Donald Gee e Davi Du Plessis, baseada em conhecimentos mundiais de movimentos pentecostais, tem revelado que onde esse dom tem sido deixado de lado, a igreja tem sofrido em todos os aspectos. Referem-se aos movimentos pentecostais que surgiram a partir de 1906. Referindo-me à igreja de modo global, minha convicção é que se alguém lançar fora uma parte da fé bíblica, a parte dos dons milagrosos do Espírito Santo, acaba repudiando todos os milagres na Bíblia, inclusive o nascimento e ressurreição de Jesus Cristo, a própria inspiração da Bíblia, e até mesmo a existência de Deus. 

  

Nos países onde o cristianismo nominal oferece cargos altamente pagos por conta do governo, chegamos a ter “pastores” e “teólogos” que repudiam todos os essenciais da fé – é essa a situação que chamo de “modernismo.” Parece que muitas pessoas que não estão esperando um derramamento do Espírito Santo com avivamento, santificação, dons e milagres no fim dos tempos, estão colocando muitíssima ênfase no Anticristo.  

  

Na Conferência de Niágara em 1895, foi resolvido excluir os milagres dos Cinco Fundamentos da Fé, e colocar, no seu lugar, uma cláusula sobre pré-milenismo. Mas foi em 1906 que, em resposta a uma renovada busca do padrão bíblico, os estudantes na Rua Azusa receberam o derramamento do Espírito Santo. Foi aí que muitos receberam a mensagem como aquilo que mais desejavam na vida, e outros se puseram veementemente contra. E assim fica forçada, a partir de então, em todas as igrejas mundialmente, uma decisão pró ou contra a obra do Espírito Santo.  

  

Uma crítica contra o pentecostalismo hoje diz que há diversidade de opiniões e interpretações. Mas vejo que as interpretações humanas da própria Palavra de Deus são igualmente divergentes – sem isso ser uma crítica contra a Bíblia, sem se tratar de a Bíblia ser insuficiente.

  

Os seres humanos distorcem a Bíblia, e também podem distorcer a obra do Espírito Santo, sem haver falha nem defeito em uma ou outra. As igrejas oferecem, com razão, métodos de estudo da Bíblia, manuais, dicionários, e comentários da Bíblia,  recomendam grupos de oração, meditações, orientação pastoral, apóiam pregadores, conferencistas, preletores – tudo para haver entendimento apropriada da Bíblia! Tudo isso é precioso com a unção do Espírito Santo. Sem ela, tudo em vão. A democracia espiritual na igreja é cada um ter seu próprio acesso às Escrituras, e também à pessoa do Espírito Santo. É um direito, mas também um dever.  Se os membros não estiverem com a vida espiritual em dia, a igreja ficará oca, como árvore aparentemente viçosa que por dentro é escavada por cupins. 

  

Os judeus antigos nos tempos de Cristo desviavam-se do Antigo Testamento para suas tradições. No Talmude, existem fartas citações de um rabino que cita outro, que cita outro, e remonta a ainda outro. Quando Jesus Cristo surge como o cumprimento do Antigo Testamento, os fariseus o rejeitaram,  porque já tinham se montado na vida como líderes religiosos na carne, e Jesus já não se encaixaria no sistema deles. Como cumprimento do Novo Testamento, Jesus enviou o Espírito Santo, mas a cristandade, depois de chegar aos poderios e honrarias carnais, passou a menosprezá-lo e a considerá-lo assunto para “seitas” fora da igreja oficializada. 

  

Numa convicção pessoal minha sobre os dons, prefiro enfatizar o conceito de presente da parte de Deus para o necessitado que pede com fé. Num avivamento de cura divina, por exemplo, penso em termos de muitas pessoas comparecendo com esperança em Deus, e Deus querendo atender com compaixão. Nesse caso, um grupo da igreja, com um pastor ou outro obreiro, marca uma data e um ponto de encontro, anuncia a reunião, e as pessoas comparecem. Há hinos, pregação bíblica, orações, testemunhos. E a fila de curas. E saem bênçãos. Só que não deve haver exagero de glória para o obreiro, pois se ele se orgulhar, o Espírito Santo pode operar soberanamente sem depender de ninguém. 

  

Outra experiência notável foi em Ituverava, acompanhando como intérprete missionário Burnie Davies, das Assembléias de Deus dos Estados Unidos. Tinha havido bastante divulgação, e algumas reuniões preliminares, antes da chegada do missionário, e da minha. Eu pessoalmente nunca tinha orado pelos enfermos, e dava todo valor àqueles que tinham esse dom. Acontece que Burnie chegara com gripe, e o obreiro norte-americano não conseguia “levantá-lo,” conforme disse. O pior, é que fui posto para substituí-lo! Não sei fazer. Então, surge a fila para oração. Uns quinze, talvez. Por amor à causa de Deus, e aos enfermos, comecei a orar um por um. Fui orando em voz alta, mas sem capacidade minha. Lembro-me, por exemplo, no caso de alguém com ferida na perna. Fui orando para ele não mais chegar bêbado em casa e bater na esposa. Parece que Deus ia me ajudando naquilo que devia orar. Tudo estava além das minhas possibilidades. Depois do que me parecia um “tempão”, levantei os olhos para ver se a fila estava chegando ao fim. Era bem maior! Perdi, “então” a consciência do tempo. Foi depois que o porteiro me contou: as pessoas tinham saído curadas, e contando aos outros; e vinha mais gente de fora. Foram estimados em duzentos, e eu numa concentração fervorosa por mais de duas horas. O resultado final confirma que Deus me ensinava o que eu devia pedir, pois ele mesmo queria fazer a obra. Certamente não era caso de eu saber orar para obter da parte de Deus determinadas bênçãos que as pessoas queriam. 

  

Então pensei comigo mesmo: Deus me capacitou para a cura divina! E depois me ocorreu que havia outros para essa obra, mas que eu fora chamado a me formar em Cambridge no grego e hebraico, com as demais matérias teológicas, para estudar a Bíblia nas línguas originais, e para transmitir esses conhecimentos no Brasil, num período em que não havia ninguém para ocupar a vaga. E assim fiquei no ensino e literatura bíblicas! Ou seja, no pedacinho do Corpo de Cristo que me cabia: no texto original da Bíblia como obra do Espírito Santo. 

  

É claro que presenciei muitos milagres nos avivamentos, e isso de maneira bem especial como intérprete, pois freqüentemente estava com uma mão no ombro de algum missionário, e a outra segurando o enfermo, e traduzindo a troca de palavras entre os dois. A maior garantia contra possível sugestão ou fraude foi o que eu via no Parque da Iberapuera, ao lado do missionário Morris Cerullo. Fiquei segurando no colo um nenê cego de nascença e, quando Morris orou, foi maravilhoso ver o olhar da criancinha que enxergava pela primeira vez – olhar feliz de admiração!

  

Na mesma reunião, uma menina surda de nascença. Morris orava, e batia palmas atrás dela; quando voltou a audição,  ela deu um pulo com o barulho! Em seguida, olhava em derredor, procurando alguma coisa. Daí correu para a sanfona no palco. Descobrira o que era som, e que este provinha de certos objetos!

  

Voltando à inspiração do Novo Testamento: entendo que a fidelidade a Ele determina quem faz parte de igreja, e não a igreja que determina quais escritos devem pertencer ao NT. Li um livro anglicano, obrigatório no curso, de Introdução ao Novo Testamento; tudo muito bem, só que no fim deu a entender que a Mãe Igreja é que escolheu os Livros para fazer parte do NT – e que ela seria superior a ele. 

  

A diferença entre o NT e os escritos da igreja posterior é que a carne ia entrando, década após década. O Espírito Santo faz do NT aquilo que é, e ele mesmo imprime essa convicção da sua inspiração divina naqueles que se convertem a Cristo. É a autoridade do Espírito Santo, mais do que a autoridade da Igreja, que determina o que é Bíblia. Quaisquer discípulos, apóstolos, mestres, profetas neotestamentários, dependiam do Espírito Santo, e não ele, da confirmação deles. 

  

A denominação em favor da qual fui estudar em Cambridge, declarava ter a Bíblia como única norma de fé, doutrina, e prática. Então eu estava bem dentro, pois pautava minha vida exclusivamente pela Bíblia. Mas aí surgem as “normas para o culto,” como acréscimo à Bíblia, e então não tenho nada mais que ver. Num excelente instituto bíblico onde fui professor, foi lido um documento no qual foi esclarecido que, embora Paulo tenha declarado “Não proibais o falar em línguas” os dirigentes, por receberem sustento de igrejas não pentecostais, sentenciaram: “Nós, porém, doravante vamos proibir.” Toda denominação evangélica crê na Bíblia, mas na hora em que uma ou outra igreja coloca algumas regras, costumes ou decisões em posição antagonística à Bíblia, acabará perdendo pontos. Certamente existem muitos questões que biblicamente estão abertas à consciência individual, e devemos ter coração amplo de fraternidade espiritual para nos aceitarmos em mútuo amor. Minha experiência tem sido: ampla fraternidade entre os crentes em 1959, 1963 etc, mas hoje, minha impressão é que muitos grupos,  pelo rádio, querem “vender seu próprio peixe” e não ouço mais muita Bíblia nem tanto em conversão a Jesus Cristo. 

  

Os dons do Espírito Santo são debatidos como assunto distintivo e específico do pentecostalismo. Tempos atrás, achei excelente a definição do doutor Ness, da Igreja Pentecostal do Canadá: “A teologia pentecostal é idêntica à evangélica tradicional, só que também tem os dons do Espírito Santo.” 

  

Por outro lado, vejo que um modo sobrenaturalista de ver as coisas deve permear mais do que isto. Deve haver uma visão totalmente nova da interpretação bíblica.

  

Conheci de perto, por exemplo, Orlando Boyer, e percebo que nos escritos dele existe um modo de entender globalmente e espiritualmente a Bíblia, de modo que coloca seu dedo no âmago do sentido, enquanto volumes teológicos de tamanho muitas vezes maior não enxergam tanta coisa de valor.

  

Donald Stamps também vinha muitas vezes ao meu escritório no sítio, e vi nele um herói da fé – inclusive, quanto aos seus comentários de Jó, Eclesiastes, e dos Salmos de aflição. É o único teólogo que sabia entender essas partes da Bíblia do ponto de vista de quem estava morrendo de câncer. Myer Pearlman também tinha a unção pentecostal nos seus comentários bíblicos. Nas aulas em escolas bíblicas pentecostais, sempre falo que é imperdoável quando os alunos não lêem esses autores. A interpretação bíblica tem que ser no Espírito; ou seja, com a ajuda do próprio autor. 

  

Existem movimentos que criticam o “espiritualizar” – como se fosse o caso de “tornar espiritual” aquilo que não o é. Fico boquiaberto ao ver grupos pentecostais aceitarem uma interpretação “na carne,” mormente do Apocalipse. Da mesma forma, espero que o Espírito Santo nos dê gosto pela música especificamente “sacra” ou “espiritual.” Os hinários contêm música e letra que inspiram, e acho que o rebaixamento do gosto musical, adotando ritmos mundanos, não deve ser considerado sinal de  pentecostalismo. Quando dou um curso sobre Atos dos Apóstolos, além de explicar que é um manual de orientação para a igreja hoje, e falando nos milagres que confirma a pregação cristã, menciono que houve alguns milagres de castigo: Simão Mago, Elimas, Herodes, e Ananias e Safira. Nas igrejas “binitarianas”, faltas morais parecem passar como coisas corriqueiras. 

  

Numa reunião pentecostal, porém, a situação seria “mentir contra o Espírito Santo” – isto é, contra tudo aquilo que Deus está derramando. Procura-se o Espírito Santo para bênçãos e poder, mas recebendo essa obra sobrenatural,  o Espírito Santo também deve ser procurado para a santidade, para o temor a Deus, para uma vida de resistência às tentações.  

  

Depois de Os Dons do Espírito Santo também escrevi O Espírito Santo na Vida de Paulo (CPAD), cujo intuito foi demonstrar que o Espírito Santo também impulsiona à obra, com dedicação e sacrifício. Não sei se esse aspecto também gozou de popularidade entre os irmãos. Nesse sentido, sendo que o Espírito Santo age conforme quer, não nos é possível faltar nos nossos deveres ministeriais, pensando que o Espírito Santo terá que “abençoar” a nossa preguiça. Depois de o Espírito Santo me ter dado, inesperadamente, durante as celebrações de Pentecostes em Zimbábue, a capacidade milagrosa de entender o Afrikaans de um momento para outro, vi-me diante do hebraico. Tenho ainda, em mãos, a Gramática Elementar da Língua Hebraica que usei – a página interna está cheia de orações tiradas dos hinos que decorei em Afrikaans. O hebraico envolveu cinco mil horas de estudo em silêncio por três anos (isto, só a gramática básica). Nenhum milagre estrondoso, mas a disposição para estudar, e a renúncia envolvida, não deixa também de ser uma bênção espiritual. 

  

Jesus, nas suas obras milagrosas, explicou que Deus continua operando no sábado, e Ele, também. Podemos dizer que o Espírito Santo não nos deixou órfãos, não nos deixou desamparados com a ascensão de Jesus, com o último suspiro do último dos Doze Apóstolos, nem com a última letra do Novo Testamento. 

  

A Igreja de Cristo não é um acidente da natureza, uma instituição contrária à vontade de Deus, e assim como o Novo Testamento nos apresenta Jesus Cristo e também a obra do Espírito Santo, assim também a fé cristã continua sendo em Deus Pai, Deus Filho, e em Deus, o Espírito Santo.

Autor: Pr. Gordon Chown é missionário britânico no Brasil, professor de Hebraico, tradutor de diversas obras teológicas e das notas da Bíblia de Estudo Pentecostal e autor da obra Gramática Hebraica (CPAD). Autor do livro: “Dons Espirituais”(Ed. Vida).

novembro 29, 2007 at 5:05 pm Deixe um comentário

Como julgar uma profecia?

pentecostesO julgamento de manifestações espirituais é uma ordenança bíblica. O apóstolo João escreveu: “Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”(1Jo 4.1). O discernimento é uma necessidade para a igreja dos dias atuais, pois há um verdadeiro bombardeio de modismos doutrinários, heresias e misticismos antibíblicos. Em meio a essa confusão da espiritualidade pós-moderna, a “profecia”, ou melhor, a profetada é um dos meios em que muitas heresias têm sido gerada. Mas como julgar uma profecia?
Em primeiro lugar, a profecia não deve entrar em choque com os princípios ensinados na Palavra de Deus, ou seja, profecia não deve formular doutrina ou um novo ensinamento. O cânon da Bíblia já está fechado há séculos e por esse motivo, qualquer nova revelação não pode acrescentar ou tirar algo da Bíblia(Ap 22.18-19). Reivindicar uma nova verdade por meio de uma profecia, é falácia de herege.
Em segundo lugar, a profecia não serve como guia pessoal, uma espécie de horóscopo. Quantos não consultam a profetiza antes de viajarem ou montarem um negócio? Quantos jovens não se casam por meio de profecias? Há até programas de rádio especializados em profecias on-line. É muito relevante a observação daquele que foi um grande teólogo pentecostal, Donald Stamps:

Note que, em nenhum incidente registrado no NT, o dom de profecia foi usado para dirigir pessoas em casos que pudessem ser resolvidos pelos princípios bíblicos. As decisões no tocante à moralidade, compra e venda, ao casamento , ao lar e à família devem ser tomadas mediante a aplicação e obediência aos princípios bíblicos da Palavra de Deus e não meramente à base de uma “profecia”.¹

Em terceiro lugar, a profecia deve estar de acordo com os princípios estabelecidos em 1Co 14.3: “Mas o que profetiza fala aos homens para edificação, exortação e consolação”. O dom de profecia manifestará essa características. Edificar leva a idéia de uma construção abalizada, ou seja, a profecia trará crescimento e desenvolvimento para o receptor daquela mensagem, as “profecias” de morte chocam-se com esse princípio. Exortação no original significa encorajamento e consolo, isto é, “que encoraja e desperta, e desafia todos a avançarem em fidelidade e amor”.² Consolação no original significa encorajamento, sendo assim, um sinônimo de palavra anterior, fortalecendo o ouvinte da profecia.
Em quarto lugar, a profecia precisa ser coerente. Quantas “profecias” contraditórias. Em um certo culto, o Deus Pai falava por meio de um vaso, enquanto isso o Deus Filho falava por meio de outro vaso, em um momento das “profecias”, a Trindade começou a discutir! Quanta carnalidade!
Em quinto lugar, a profecia é julgada por meio do dom de discernimento de espíritos. Há várias manifestações de difícil avaliação e que somente com a ajuda do Espírito Santo é possível discerni-las. O teólogo pentecostal Gordon Chown escreveu: “Muitas vezes, o dom de discernimento de espíritos manifesta-se para alertar o crente quanto ao caráter maligno de certas obras e doutrinas, sem fazer-se acompanhar, necessariamente, de poderes especiais”.³ A necessidade desse dom é imprescindível para esses “tempos trabalhosos”.
Em sexto lugar, a profecia se cumpre. O profeta Jeremias proclamou: “O profeta que profetiza paz, somente quando se cumprir a palavra desse profeta é que será conhecido como aquele a quem o Senhor, na verdade, enviou”(Jr 28.9). Há “profecias” muito superficiais, que se aplicam a vários fenômenos sociais, ou seja, são muito óbvias. A profecia precisa ser clara e se for do Senhor se cumprirá.
Essas recomendações precisam ser aplicadas em meio a qualquer manifestação espiritual que supostamente seja uma profecia. Esse exame é bíblico e necessário, pois disse o apóstolo Paulo: “E falem dois ou três profetas, e os outros julguem”(1Co 14.26).

Referências bibliográficas:


1- STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p.1679.


2- HORTON, Stanley M. A doutrina do Espírito Santo. Rio de Janeiro: CPAD, 2002, p. 244.
3- CHOWN, Gordon. Os dons do Espírito Santo. São Paulo: Editora Vida, 2002, p. 51.

Autor: Gutierres Siqueira, moderador do site e professor de EBD.

novembro 23, 2007 at 2:18 pm 2 comentários

Pentecostalismo

Pentecostalismo trata de assunto relacionados à Teologia Pentecostal. Nesse site você encontrará textos do Blog Teologia Pentecostal(www.teologiapentecostal.blogspot.com), cujo autor sou eu, Gutierres Siqueira e outros artigos de especialistas no assunto.

novembro 23, 2007 at 2:09 pm 1 comentário


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