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O pentecostalismo, a privacidade e Jesus Cristo

Por Gutierres Siqueira

O cronista português João Pereira Coutinho escreveu em artigo dizendo que “a privacidade é talvez a maior conquista da civilização judaico-cristã”. Mediante esta frase fiquei a meditar como as Escrituras nos incentiva para uma prática de espiritualidade recatada, privativa, mas que reflete em nosso caráter exercido no dia a dia. Na adoração, que é um ato de intimidade entre a criatura e o Criador, somos compelidos a trancar a porta. Infelizmente, como o caminho bíblico é desprezado em boa parte das igrejas pentecostais que fazem da adoração um verdadeiro circo, um espetáculo pessoal, com direito a todo tipo de apresentação.

Jesus disse: “Tu, porém, quando orares, entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, que está em secreto; e teu Pai, que vê em secreto, te recompensará” (Mt 6.6). Assim é adoração a Deus: um momento de intimidade privativa, redundância proposital para expressar a grandeza de elevar a Deus um louvor sincero, que não será alvo de apreciação de nenhum outro homem. Adoração não é espetáculo, não é palco. Adoração é quarto com a porta trancada. É por trás das cortinas como no templo veterotestamentário.

O privativo Jesus jamais falaria em línguas em um sermão quando não há quem interprete. Ora, como deixa bem claro o apóstolo Paulo no magistral texto de I Co 14 (um dos mais desprezados nas igrejas pentecostais) as línguas quando não interpretadas é intimidade entre o falante e Deus, que o ouve e o entende (14.3). Não é algo para compartilhar com dezenas de pessoas. Agora, quando interpretado deve ser compartilhado com os demais, pois já não é adoração, mas sim uma profecia (14.28)

Jesus era seguido por grande multidão e curava a todos, mas “advertindo-lhes, porém, que o não expusessem à publicidade” (Mt 12.16). Sim, Jesus não fazia espetáculo com seus milagres, não promovia shows de testemunhos e até proibia que os curados saíssem gritando pelas ruas que foram por Ele libertos. O recato de Cristo é impressionante, mas isto já tinha sido profetizado por Isaías:

Eis aqui o meu servo, a quem sustenho; o meu escolhido, em quem a minha alma se compraz; pus sobre ele o meu Espírito, e ele promulgará o direito para os gentios. Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega; em verdade, promulgará o direito. Não desanimará, nem se quebrará até que ponha na terra o direito; e as terras do mar aguardarão a sua doutrina. (42. 1-4, cf. Mt 12. 16-21)

Como é diferente dos nossos dias, em que cartazes e carros de som anunciam a pregação “do grande homem de Deus” que visitará a cidade ou o bairro. A simplicidade de Cristo não é modelo para esse pregadores que arrotam vaidade, orgulho e ostentação de grandeza. A publicidade era abominada pelo Senhor, pois Ele não se portava como um agente de serviço ou vendedor de coisa supérflua, mas sim anunciava a salvação.

Então, quando mais discreta for a sua e a minha espiritualidade, melhor será.

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maio 17, 2010 at 5:26 pm Deixe um comentário

Fé Razão e Sentimentos

Devemos empregar o melhor de nossa razão para conhecer quais são as verdadeiras Escrituras canônicas, para expandir o texto para traduzi-lo verdadeiramente, para agregar inferências exatas e justas das declarações das Escrituras, e então aplicar tudo isso em questões de doutrina e adoração.                                        
                                                                                      Richard Baxter – líder puritano
Em nossa revolta contra a razão, mudamos a “fé de uma vez por toda confiada aos santos” (Jd 3) e fracassamos em nos preparar para defender essa fé.

Embora a razão, a lógica e o pensamento crítico não sejam nossas únicas ferramentas, sem eles somos inclinados a interpretar erroneamente a palavra de Deus, possuindo zelo sem conhecimento e utilizando de modo equivocado os dons celestiais.

Ondas de romantismo, relativismo e individualismo têm desencadeado uma ênfase crescente no sentimento em prejuízo do pensamento, na emoção em detrimento da doutrina e na experiência em detrimento do intelecto.   

Onde quer que esses valores encontrem adeptos,encontram-nos à custa de se atirarem fora os lemes da razão. Conseqüentemente, isso leva muitos cristãos às correntes da desobediência, para dentro do grande mar da subjetividade, onde nuvens carregadas de misticismo ditam a jornada espiritual.
                                    
Quando isso ocorre, ventos turbulentos de meias verdades sopram, empurrando os náufragos indefesos contra os penhascos violentos da confusão e da espiritualidade insensata.

É uma pena que tão poucos autores pentecostais- carismáticos  escrevam sobre a a natureza e os perigos do misticismo e da intuição subjetiva.

Com essa lacuna, parecemos dizer que o problema é raro em nosso meio ou que é comum, todavia insignificante. O misticismo é, de maneira geral, o modo de julgar a verdade e a realidade por meio de sentimentos, impressões e experiências pessoais, formulando assim a visão de vida e ditando as decisões de alguém.                         

Aqueles que abordam a vida espiritual desse modo freqüentemente assumem “que sabem que sabem” e se colocam acima do escrutínio da razão e dos bons conselhos.
 
Mesmo quando a “verdade” acolhida por eles não é aceita, tendem a questionar a não aceitação ou alterar a “verdade” de modo que se ajuste ao que tem que ser.

Em sua avaliação, a impressão que eles têm apresenta autoridade porque vem de seu interior; e, como vem do interior, deve ter a autoridade do Espírito Santo; e, sendo do Espírito Santo, essa voz não mente.
 
Esse tipo de raciocínio circular não apenas prejudica o testemunho cristão como também causa tremenda dor de cabeça para amigos, familiares e congregações que ficam refém de tais absurdos.

Qualquer um de nós provavelmente consegue se recordar de numerosas ocasiões estranhas que presenciamos de numerosas ocasiões estranhas que presenciamos como resultado de fortes impressões questionáveis, intuição pessoal e vozes interiores. Isso mostra o tipo de loucura que pode ocorrer quando se descarta a razão.

Não podemos esquecer também, das multidões que se sentem firmemente guiadas por Deus a determinada igreja, mas que, convenientemente, não se envolvem com ela e se sentem à vontade para ir para outra igreja poucas semanas depois.                                                                    

É de vital importância crermos que o Espírito Santo ainda fala ao corpo de Cristo e que o direcionamento pessoal é  um dos métodos pelo qual Deus dirige seus filhos. Há algo de errado conosco se não nos alegrarmos diante do pensamento de sermos conduzidos pelo Espírito de Deus.

Entretanto, há também algo de errado se rejeitamos nossa razão, confundindo cada firme opinião interna com a voz de Deus, fundamentando assim nosso sistema de crença em fenômenos sobrenaturais ininterruptos (reais ou imaginários).   

Certamente devemos estar abertos a acontecimentos extraordinários, mas devemos acreditar apenas no que é claramente ensinado nas Escrituras.

Teste cada espírito, avalie todas as coisas, e, evite todas as formas de ser diferente, porque na maioria das vezes isso é mera vaidade.                                             

Precisamos ser cuidadosos para não seguir toda unção interior (especialmente quando essa é egoísta), não nos inclinarmos a buscar sinais e maravilhas e não nos desvencilharmos da lógica e da razão como se elas fossem inimigas do sobrenatural.

Os dois grandes extremos entre os quais devemos operar são o ato de apagar o Espírito por um lado e o sensacionalismo pelo outro.

Devemos conhecer nossas próprias fraquezas e tendências a fim de trazer equilíbrio para nossa vida espiritual. Sem estar aberto a outras visões e sem honestidade diante dos próprios preconceitos, uma pessoa nunca conseguirá descobrir tal equilíbrio.                     

Há muito trabalho a ser feito a fim de dar assistência adequada aos seguidores do Evangelho, para que tenham uma vida plenamente consciente e correta em uma sociedade tão enganadora e confusa.

Um dos primeiros passos para se atingir esse objetivo é ajudar nosso povo a perceber que razão e fé não são inimigas mortais, ensinando-os também a limitar suas convicções doutrinárias ao campo dos ensinamentos bíblicos explícitos.

Autor: Rick Nañez é pastor assembleiano (EUA) e missionário no Equador.

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Do livro- Pentecostal de Coração e Mente – Um chamado ao dom divino do intelecto.              
Título original- Full Gospel, fractured minds? 
Autor- Rick Nañez – Editora Vida, 2007.

Fonte: Ictrindade.com.br

setembro 7, 2008 at 1:02 am 3 comentários

Música GOSPEL: boa ou má influência?

A boa ou má influência de alguma coisa depende muito do conteúdo de sua mensagem, do sentido e da consciência de suas propostas ao longo do tempo. É simplista demais dizer “sim” ou “não” sem primeiro investigar cada caso. Em se tratando de diferença de gosto ou de opinião, todo extremismo é, além de pecaminoso, uma temeridade. Como todo equilíbrio é encontrado entre os extremos, vamos fazer algumas ponderações necessárias.

A música dita gospel, nos Estados Unidos, não está isenta dos mesmos questionamentos que são feitos aqui no Brasil. A diferença é que lá gospel é uma dimensão musical que engloba tudo que é evangélico, com todos os estilos. A palavra gospel, em inglês, quer dizer “evangelho, evangélico ou que é relativo ao Evangelho”. A música gospel, nos Estados Unidos, é a música evangélica. Seja em qual ritmo ou estilo venha ter. O Grammy, a versão norte-americana do Oscar da música, é concedido igualmente à música evangélica. No Brasil, além de assumir o sentido de música mais atualizada quanto aos ritmos populares, o gospel é diferenciado radicalmente dos outros estilos de músicas evangélicas, como se estes fossem coisas excludentes ou antagônicas.

REVOLUÇÃO

No Brasil, nestes últimos 15 anos, houve uma completa revolução na música evangélica. Não é para menos que tenha causado tantos constrangimentos e levantado imensas oposições. O novo tem essa característica de chocar o status quo. Com o surgimento dos grupos e bandas, dos novos estilos musicais, da atualização dos ritmos, formou-se um coquetel explosivo que azedou as relações entre o velho e o novo na vida da igreja. Esqueceu-se que o velho e novo não são necessariamente a prioridade de Deus, mas sim aquilo que o velho entendimento e no novo tem o valor, a dignidade e a consistência do eterno.

O conflito de gerações cegou os entendimentos para aquilo que precisava ser reciclado no velho e corrigido no novo. E ambos se encastelaram em suas posições contraditórias. A música dita gospel ficou sendo encarada pelos mais conservadores como “coisa de jovens” e a música mais antiga atendida pelos jovens como “velharia”. Duas posições extremas roubando de cada um lado a possibilidade de aprendizado e reciclagem. Na verdade, só Deus sabe o que se perdeu com isso!

Não seria possível um grupo tipo o Rebenhão cantando “Um roque pra Jesus” não chocar. Acostumados com um tipo de música mais soft, isso parecia uma afronta. Durante décadas, estivemos ligados a grandes cantores e grupos bem comportados com estilos musicais já consagrados, voltados unicamente para o público evangélico, algo de consumo interno. No início da década dos oitenta, no entanto, uma insatisfação perpassava o coração de vários grupos musicais em diversas partes do país, principalmente no eixo Rio – São Paulo. Eles queriam fazer o casamento da mensagem do Evangelho com uma música mais atualizada, que tanto pudesse servir para consumo interno como também tivesse seu espaço fora da igreja, de forma que pudesse ser aceita e entendida por quem não freqüentava os templos. Isso só seria possível com uma atualização musical que tomasse emprestada ritmos já consagrados fora do ambiente evangélico. Por isso, afirmavam, tiveram que usar o rock, o reggae, o samba, o blues e outros ritmos populares. Juntando-se a esses ritmos uma mensagem divina, diziam, seria possível atingir o coração das pessoas. Os mais tradicionais acharam esse “casamento” uma paganização da música evangélica pelo simples fato de que seria, além de mundano, inventado pelo Diabo.

Ora, quem teria razão? Quem inventou os ritmos, Deus ou o Diabo? A bem da verdade, nem Deus nem o Diabo. O ser humano, esse sim, é o inventor dos ritmos. Isso faz parte da cultura humana. O gênero humano é o único que pode produzir cultura. Deus fez o homem assim à sua imagem e semelhança, e este demonstra isto de certa forma “gerando” ritmos e “criando” música. Deus e o Diabo fazem uma coisa: podem usar o homem e a sua música. Os ritmos não são o principal problema, mas o conteúdo na mensagem que eles carregam.

GOSTO PESSOAL

Normalmente, as pessoas tendem a confundir o seu gosto pessoal com o gosto que agrada a Deus. Quem gosta de música lenta, por questão de temperamento ou necessidade de meditação, sente-se confortado com uma música mais leve, mais soft, que a faz sentir a “alma mais leve”, e define o estado emocional de sua alma como o resultado da presença de Deus. Pode ser verdade, mas pode não ser. Pode ser também apenas o resultado da emotividade latente despertada pela música. Alguém pode estar num culto, sentir toda a emoção possível gerada por esse tipo de música, e sair perdido da mesma maneira que entrou. O mesmo sentimento equivocado pode estar no coração exuberante de um roqueiro, que pensa estar Deus presente na agitação do seu ritmo esfuziante.

A evolução dos ritmos e a diversificação dos gostos musicais são dois processos que põem em questão o conceito tradicional de música sacra. Durante séculos, a definição de música sacra esteve restrita ao canto gregoriano e outros tipos musicais monásticos. Com o passar dos anos, ritmos “pagãos” menos contundentes, como músicas tradicionais folclóricas em alguns países, valsa, marcha, bolero, fox, blues etc., antes tidos no âmbito das igrejas como mundanos e de inspiração satânica, passaram a integrar o repertório da música cristã autêntica. O exemplo mais conhecido dessa migração ocorreu com o conhecidíssimo hino Grandioso é tu, que o evangelista Billy Graham importou do folclore russo, mas que hoje é tido apenas como inspirado por Deus.

A rejeição de ritmos populares sempre existiu. Entretanto, a geração posterior à que os condenou se encarregou de sacralizá-los, expurgando deles as mensagens de conteúdo danoso e enxertando a poetização dos dogmas cristãos. A diferença não estava no ritmo, qualquer que fosse, mas na mensagem; aquilo que foi confiante para outras gerações na História do Cristianismo, guardadas as devidas proporções, é de certa forma conflitante para a nossa geração. Os ritmos é que são outros. A continuar o mesmo curso da história, esta geração dos ritmos alucinantes, daqui a alguns anos, vai defenestrar (a exemplo dos mais tradicionais de hoje) outros ritmos que, para eles, serão avançados demais. A história, nesse caso, se repetirá mais uma vez.

Para cada estado da alma haverá sempre um ritmo que lhe adeqüe. Mas isto não pode ser confundido com a presença ou ausência de Deus. Assim como “a ira do homem não produz a justiça de Deus”, o gosto das pessoas não poderá determinar a sua presença. Poderá, na melhor das hipóteses, permitir ao adorador mais sensibilidade para identificar a presença sempre constante do Altíssimo.

LOUVOR

Uma leitura despretensiosa do Salmo 150 perceberá a intenção do salmista quanto à maneira correta de louvar a Deus, além de sugerir os ritmos apropriados. Primeiro, ele indica que o espaço para louvar a Deus é o Cosmos, ou seja, em qualquer lugar, num templo ou fora dele (v.1). Segundo, ele indica a motivação correta desse louvor naquilo que Deus é e realiza (v.2) – não aquilo que sentimos ou deixamos de sentir. Por último, indica além da expressão corporal tão criticada em nossos dias (danças), três categorias de instrumentos musicais existentes na época: cordas, sopro e percussão (v.3). Uma sábia conjunção desses instrumentos poderá, sem dúvida, produzir os mais variados tipos de ritmos. Isto no mínimo é uma lição histórica de que ritmos podem ser santificados e usados com santificação. A mensagem é que não poderia deixar de ser verdadeira e inspirada em Deus e por Ele. O ritmo ficaria ao gosto do adorador. Nesse caso, um simples pandeiro poderia abalar o céu tanto quanto uma flauta doce.

Isto também ajuda a definir aquilo que poderia ser chamado de música sacra. Sacro é algo que é aceito como adoração pelo Deus santo e santificador. Não aquilo que é lento ou soft, mas aquilo que é inspirado e santificado por Deus. Uma pergunta que merece uma boa resposta: o mesmo Deus que promete redimir toda a natureza, não poderia redimir e santificar um ritmo?

Por, Benjamin Lima Souza – Ministro do Evangelho (Londres – Inglaterra).
Mensageiro da Paz (CPAD) – 1999

 

 

 

julho 6, 2008 at 2:45 am 1 comentário

O dom de iludir

“Minha viagem será um espetáculo. É a primeira vez que vou pregar naquela igreja. Trata-se de uma comunidade com mais de 500 membros e fica num bairro de classe média-alta. O faturamento do final de semana está garantido. Ah, como eu gosto disso.”

Muito conhecido e requisitado, o pastor estava no aeroporto vestido para entrar em campo. A tal igreja mencionada já havia recebido o e-mail com uma série de “recomendações”, eufemismo para traduzir as exigências do aspirante a popstar.

Segundo o folclore vigente, é possível classificar o artista de acordo com a lista de exigências que apresenta aos produtores. Uma centena de toalhas brancas, waxflower da Austrália e frésias dos Países Baixos nos arranjos florais (não os de Bach), lichia e açaí na cesta de frutas, além de caixas de bebidas alcoólicas variadas para elevar, digamos, a adrenalina às alturas antes do show.

Já os aditivos para os pastores showmen geralmente passam pelo bolso. Não apenas o poder exerce efeito afrodisíaco… Se considerarmos o buraco negro que caracteriza a vida financeira de alguns expoentes desse meio, recomendaria servir antes dos cultos jarras com maracujá e pitaia batidos, resultando no emblemático suco “maracutaia”.

Não me venha falar na malícia
A rotina de viagens dos popstores (com trocadilho, claro) é um tanto estressante mas tem sua magia. É comum exigirem hotéis com muitas estrelas, aquisição mínima de um combo de produtos variados e passagens aéreas de determinada companhia (facilita a viagem de férias com a patroa e os filhos para a “América”, como costumam dizer os “emergentes”).

Com quilometragem maior, outros mais abusados incluem detalhes que são uma graça. Nada divina, no caso. Por exemplo: o carro que for buscá-los no aeroporto deve ter ar condicionado. A regra vale inclusive para Porto Alegre no inverno.

Antes da mensagem que será repetida pela enésima vez, é o momento do “camelódromo gospel”. Com desenvoltura de apresentador do ShopTour, eles desfilam sua vitrine de CDs de mensagens e livros de edição própria, já que provavelmente as obras não seriam aprovadas pela maioria das editoras. As ofertas de “pague 6 e leve 15” por vezes são entremeadas de menções a obras de cunho social ou qualquer outro verniz que torne mais nobres os fins advindos da comercialização dos meios.

Você está, você é
Na hora da pregação, é comum os preletores de aluguel derramarem elogios ao líder da igreja local (“um homem respeitadíssimo em todo o país”), à galera do louvor (“me senti no céu na hora em que estávamos cantando”), ao templo (“os irmãos estão de parabéns por construírem um lugar tão lindo e aconchegante”), numa sucessão de rapapés para lustrar o ego coletivo e amolecer o coração do mercado-alvo da feirinha que vai rolar depois do culto.

As mensagens têm exegese e hermenêutica de procedência duvidosa. Na falta de conteúdo, costumam abusar de clichês do tipo “você é mais que vitorioso”, “tudo posso naquele que me fortalece” e a todo momento pedem para repetir alguma afirmação pseudoprofética para o irmão do lado. Espectadores mais desconfiados remascam se a Bíblia deles tem apenas um terço das páginas, volume suficiente para reunir os trechos das mesmas pregações rep(r)isadas ad nauseam. “Hoje vou falar sobre uma mulher que encontrou Jesus e teve sua vida mudada…”.

Você faz, você quer, você tem
Modestíssimos, os pregadores itinerantes a-do-ram ilustrar as mensagens com episódios de sua própria vida. A infância sempre foi pobre e cheia de dificuldades, mas os planos de Deus sempre são de dar prosperidade. A menção a Jeremias limita-se àquele solitário versículo do capítulo 29. Toda a trajetória do profeta chorão é esquecida na hora de inspirar as pessoas a “conquistar a vitória”, “envergonhar o inimigo” e outras frases de efeito.

“Hoje tenho uma casa grande, três carros zero na garagem e blábláblá”, contam para adubar a fé da platéia. Se alguém fosse até a casa dos saltimbancos da prosperidade constataria que a realidade simultaneamente tem glamour e uma indisfarçável atmosfera kitsch.

Na sala (ou “living”, como a esposa prefere chamar porque acha mais “chique”), sofás brancos e almofadas com estampas de onça e zebras. Ressentidas da falta de um portrait by Camasmie feito com chocolate, as paredes acomodam várias láureas de associações obscuras e o indefectível diploma de “Doutor em divindade”. Poucos sabem que o tal curso foi feito pela Internet e pago a prestações no cartão de crédito Platinum. “Plata, prata, plaga, praga”, comporiam os irmãos Augusto e Haroldo de Campos num arroubo (epa!) profético-concretista.

Você sabe explicar, você sabe entender
Siderados com a mise-en-scène um tanto caricata, os visitantes neófitos têm dificuldades para discernir se estão numa igreja ou em uma palestra de nerolingüística. Cada vez que os gestos se tornam mais largos e o volume da voz do pregador aumenta, os “aleluias” e “glórias” se multiplicam. Uma menção ao capiroto provoca aprovação ainda mais estrepitosa. Améééém?

Na tentativa de conferir um certo refinamento ao discurso lasso, os preletores de aluguel têm o hábito de entremear sua prosopopéia flácida com citações e menções às últimas leituras. Usualmente, as obras mais densas que leram em toda a vida foram opúsculos de Roberto Shinyashiki ou Augusto Cury. A cartilha Caminho Suave não entra no rol de leituras, por supuesto.

Dependentes da languidez espiritual da platéia, oferecem-lhe apenas placebos que vão durar até a próxima “reunião da vitória”. Muitos no auditório reconhecem isso, mas mentiras sinceras lhes interessam, como cantou o poeta Cazuza.

Cale a boca e não cale na boca notícia ruim
A pronúncia claudicante e a concordância tosca revelam o círculo vicioso e empobrecedor no qual estão embrulhados esses replicadores de meme(nsagens) desprovidas de sustância. Num equívoco contumaz, optaram equivocadamente pela “glória-pires”: pouco profunda e de vida curta. Como aconteceu com os filhos de Ceva, são conhecidos por aqui e muitos permanecem anônimos no inferno.

Do ponto de vista psicológico, esse tipo de comportamento sinaliza traços de desvario para compensar sua dor mais aguda: a falta de respeito em certos grupos aos quais C.S. Lewis chamaria de “círculos fechados”. Incensados pela massa ignara, sofrem em razão da consciência de que são alvo do menosprezo daqueles que, em última (e secreta) instância, gostariam de ser. Isso talvez explique o fato de às vezes elegerem alguns alvos para assestar sua inveja travestida de defesa da sã doutrina.

Fosse isso possível, cederiam os bens e a contínua lisonja para conseguir aquilo que a grana não é capaz de adquirir. Solitários por dentro e por fora, têm apenas o travesseiro por confidente. Limitados pela teia que eles próprios urdiram, a cada dia “tornam-se o que são”, cumprindo a máxima de Nietzsche. Preço demasiadamente alto para uma existência que não se repetirá. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.

Autor: Sérgio Pavarini

Fonte:

Revista

Eclésia

maio 29, 2008 at 7:11 pm Deixe um comentário

Revestimento de poder

O Senhor Jesus antes de retornar ao céu, prometeu enviar o Espírito Santo para estar para sempre com a igreja e antes de enviar a igreja ao mundo, prometeu a ela o revestimento de poder. Quero destacar quatro pontos importantes sobre esse magno assunto.

 

1. O revestimento de poder do Espírito deve ser um desejo contínuo da igreja (Lc 24.49). Jesus disse para os seus discípulos: “Permanecei na cidade até que do alto sejais revestidos de poder”. A igreja deveria aguardar o derramamento do Espírito antes de espalhar-se pelo mundo levando a mensagem da salvação. A capacitação precede a ação. Sair para fazer a obra na força do braço humano é laborar em erro e obter magros resultados. Fazer a obra de Deus confiados em nossos próprios recursos desembocará em grande fiasco. Os discípulos aguardaram no Cenáculo, em perseverante oração, durante dez dias, ao cabo dos quais foram cheios do Espírito Santo. Então, a pregação tornou-se poderosa e eficaz, os corações foram compungidos e cerca de três mil pessoas foram agregadas à igreja.

 

2. O revestimento de poder do Espírito deve ser a busca mais intensa da igreja (Lc 24.49). A igreja não é aconselhada a esperar aplausos do mundo nem reconhecimento dos homens. A igreja não é exortada a buscar riqueza nem prosperidade financeira. A igreja não é aconselhada a fazer campanhas de curas nem correr atrás de milagres. A igreja não é chamada a buscar os holofotes da fama nem se embriagar com o glamour do sucesso, mas é exortada a permanecer em fervente oração pela busca do revestimento do Espírito Santo. O poder do Espírito não pode ser produzido pelo esforço humano. O fogo do Espírito não pode ser fabricado pela imaginação humana. A obra do Espírito não pode ser substituída pela engenhosidade humana. Os métodos pragmáticos e até mágicos usados pelo homem podem atrair as multidões, mas não converter seus corações. Pode causar rebuliço e impacto nos expectadores, mas não festa no céu. Pode encher templos na terra, mas não povoar a Cidade Santa. Precisamos do poder que vem do alto e não do poder fabricado na terra.

 

3. O revestimento de poder do Espírito Santo deve ser buscado com perseverança (Lc 24.49). Jesus foi enfático, quando disse que os discípulos deveriam permanecer na cidade até que fossem revestidos de poder. Jesus não determinou o dia nem a hora em que o derramamento do Espírito viria sobre eles. Eles deveriam perseverar em oração até que os céus se fendessem. Eles oraram com vibrante expectativa. Eles oraram com robusta confiança. Eles oraram com sólida convicção. Eles oraram com imperturbável perseverança. Eles não desistiram no meio do caminho. Eles não retrocedem depois de uma semana de busca. Eles entenderam que enquanto a promessa não fosse cumprida, a espera pelo poder não poderia cessar. Precisamos encher nosso peito de esperança. Precisamos alimentar nossa alma com o doce néctar das promessas divinas. Sua Palavra é a verdade. Suas promessas são fiéis e verdadeiras e ele vela pela sua Palavra em a cumprir.

 

4. O revestimento de poder do Espírito capacita a igreja a fazer a obra de Deus (At 1.8). Jesus disse: “Mas recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia, Samaria e até aos confins da terra”. A igreja precisa de poder para tirar os olhos da especulação teológica para o campo da ação missionária. Os discípulos estavam preocupados com datas escatológicas, mas Jesus corrige o foco deles, abrindo-lhes a agenda missionária. A igreja precisa de poder para perdoar. Para alcançar os odiados samaritanos era preciso derrubar primeiro a barreira do preconceito e do ódio racial. O poder do Espírito derruba as barreiras no coração do obreiro e o evangelho derruba as paredes da inimizade entre as nações. A igreja precisa de poder para testemunhar o evangelho até aos confins da terra. Precisamos sair do nosso conforto, da nossa zona de segurança e levar a Palavra de Deus à nossa família, à nossa cidade, aos recantos da nossa Pátria e até às mais remotas regiões do mundo. Você já é um crente revestido com o poder do Espírito Santo? Está pronto a testemunhar o evangelho com outras pessoas?

 

Autor:

Hernandes Dias Lopes é pastor presbiteriano.

abril 28, 2008 at 12:06 pm 3 comentários

Nunca Aceite Qualquer Glória – A.W. Tozer

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Deus é zeloso de sua glória e não a dará a ninguém. Ele não irá nem mesmo compartilhar sua glória com quem quer que seja. É muito natural, diria eu, que as pessoas esperem que seu serviço cristão talvez lhes dê uma oportunidade de demonstrar seus talentos. Verdadeiramente querem servir ao Senhor, mas também querem que os demais saibam o quanto e a que custo estão servindo ao Senhor. Elas querem ter reputação entre os santos.

Este é um terreno muito perigoso: buscar reputação entre os santos. Já é ruim o bastante procurar reputação no mundo, mas é pior procurar reputação entre o povo de Deus. Nosso Senhor desistiu de sua reputação, e nós devemos fazer o mesmo.

Meister Eckhart, certa ocasião, pregou um sermão sobre a purificação que Cristo fez no templo. Disse ele: “Ora, nada havia de errado com aqueles homens que vendiam e compravam ali. Nada havia de errado em trocar dinheiro ali; aquilo tinha de ser feito. O pecado deles se resumia no fato de fazerem isso para ter lucro. Eles ganhavam certa porcentagem ao servirem ao Senhor”. E então Eckhart fez a aplicação: “Quem quer que sirva por uma comissão, por um pouquinho de glória que possa tirar desse serviço, é um comerciante e deve ser expulso do templo”.

Concordo plenamente com isso. Se você está servindo ao Senhor e, quase sem perceber – talvez inconscientemente mesmo -, espera obter uma pequena comissão de cinco por cento, cuidado! Isso irá espantar o poder de Deus de seu espírito. Você precisa determinar que nunca irá aceitar qualquer glória, mas cuidar para que seja entregue integralmente a Deus.

Fonte: “Cinco Votos para Obter Poder Espiritual“, de A. W. Tozer, publicado pela Editora dos Clássicos.

março 10, 2008 at 1:53 pm 1 comentário

Chega de promessa de bênção.

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Não dá mais para agüentar tanta promessa de bênção. Enche ter de ouvir pastores oferecendo os mais ricos votos de felicidade e proteção divina a cada culto. Ser abençoado tornou-se quase uma obsessão evangélica nacional.

Promete-se tanta riqueza, saúde física e felicidade que, pelo número de campanhas de oração realizadas, o Brasil já deveria ter melhorado em algum dos índices de qualidade de vida das Nações Unidas; com algum alívio na distribuição de renda ou menos fila nos ambulatórios públicos.

Chega de promessa de bênção. A espiritualidade cristã com suas orações, ritos e expectativas não gira em torno da vontade de ganhar o benefício celestial. A ênfase dos Evangelhos não se resume a um só tema. Jesus lembrou Seus primeiros discípulos que antes de se preocuparem em salvar a vida, eles precisariam estar dispostos a perdê-la (Marcos 8:35).

A grandeza de uma causa não é determinada pelo que seus seguidores ganham ao segui-la, mas pelo preço que estão dispostos a pagar por ela.

Chega de promessa de bênção. Os auditórios lotados de pessoas ávidas por receber mais favor divino favorecem o egocentrismo. Quanto mais se promete, mais se quer receber. Esse caminho não tem fim. O Salmo 106 narra o comportamento dos judeus no período da sua libertação do cativeiro egípcio.

Depois de sucessivos milagres, o povo parecia não se saciar, sempre exigindo mais. Esse fascínio pela próxima intervenção transformou-se em cobiça, e o versículo 15 trás uma dura sentença: “[Deus] concedeu-lhes o que pediram, mas fez definhar-lhes a alma.”

Chega de promessa de bênção. A Bíblia não pode ser encolhida a uma caixinha de afirmações otimistas. Para continuar com seu discurso de caráter prático, a maioria dos pastores só cita textos tirados do Antigo Testamento e, ainda, do período judaico anterior ao exílio.

Os sermões que procuram enfatizar bênçãos deixam de lado os textos contundentes do Novo Testamento em que os cristãos são convocados a viverem em um mundo cruel e doloroso. Jesus não tentou dourar a pílula e nem encobriu a verdade: “No mundo, passais por aflições” (João 16:33).

Paulo advertiu a Igreja a não se imaginar numa redoma de prosperidade: “E, tendo anunciado o Evangelho naquela cidade e feito muito discípulos, voltaram… fortalecendo a alma dos discípulos, exortando-os a permanecer firmes na fé; e mostrando que, por meio de muitas tribulações, nos importa entrar no reino de Deus” (Atos 14:21-22).

Jesus revelou à igreja de Esmirna, no Apocalipse, o teor de sua missão: “Não temas as coisas que tens de sofrer” (Apocalipse 2:10).

Chega de promessa de bênção. Quem se obriga verbalmente a dar tudo, se adorado, é o diabo, nunca Deus (Mateus 4:9). A espiritualidade judaico-cristã não se estabelece sobre utilitarismos. Deus não quer adoração por aquilo que Ele dá, mas por quem Ele é.

No livro de Jó, Satanás fez uma acusação gravíssima contra Deus. Ele tentou incriminar Jeová por só ser amado por Seus filhos por suborno: “Porventura, Jó debalde teme a Deus?” (Jó 1:9). A narrativa poética do livro inteiro deixa claro que o Senhor não era amado por Suas inúmeras bênçãos sobre a vida e a família de Jó que, pobre, ainda pôde exclamar: “Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei; o Senhor deu e o Senhor o tomou; bendito seja o nome do Senhor!” (Jó 1:21).

Chega de promessa de bênçãos. A virtude cristã que se deve buscar prioritariamente é justiça. No Sermão da Montanha, os que tiverem fome e sede de justiça serão fartos (Mateus 5:6). Quando o cristianismo destaca a promoção da justiça, todas as demais bênçãos se tornam secundárias (Mateus 6:33). Aliás, não existe pregação legitimamente evangélica sem a busca do direito: “O reino de Deus não é comida, nem bebida, mas justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Romanos 14:1).

Antes de quererem para si a benevolência do Senhor, os crentes deveriam almejar a promessa de Isaías 61:3: “A fim de que se chamem carvalhos de justiça, plantados pelo Senhor para a sua glória.”

A Igreja Evangélica cresce velozmente no Brasil, mas será que percebeu todas as implicações do que significa seguir a Cristo?

Soli Deo Gloria.

Autor: Ricardo Gondim é pastor da Assembléia de Deus Betesda

fevereiro 13, 2008 at 1:40 pm 1 comentário

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