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Por que as igrejas tradicionais se distanciaram das periferias?

Por Gutierres Siqueira

Sou pentecostal mas tenho um carinho especial pelas igrejas tradicionais, como presbiterianas, batistas, metodistas e congregacionais. Mas um fato me espanta- As igrejas tradicionais abondaram as periferias. Agora, com exceção das igrejas batistas, há pouca representação nos bairros mais pobres das denominadas igrejas históricas. Em São Paulo, por exemplo, é raro achar uma Igreja Presbiteriana do Brasil na região de Parelheiros, no extremo sul da capital paulista. Essa região agrega vários bairros pobres que estão cheios de igrejas pentecostais e neopentecostais, mas quase nada de igrejas reformadas.

Alguns reformados alegam que a sua mensagem é de difícil assimilação para pessoas de baixo grau de instrução. Ora, será que as igrejas em bairros de classe-média e média-alta têm membros com boa compreensão? Os jovens universitários de igrejas na Vila Mariana, bairro de classe-média, conhecem bem a estrutura doutrinária de suas igrejas? Ou o desconhecimento é geral, independente de classes sociais e grau de estudo? O problema, então, não seria didático? Será que é possível colocar a inércia na periferia como uma questão de dificuldade no ensino?

Outra desculpa é que a mensagem reformada não é agradável ao grande público. Convenhamos, uma igreja como a “Deus é Amor”, extremamente legalista, traz em sua mensagem “curas” com um alto grau de comprometimento com a rigidez doutrinária da denominação, mas mesmo assim só penetra nas periferias. O ultralegalismo de algumas igrejas pentecostais ou neopentecostais não impede o seu crescimento. Então, por que a doutrina reforma seria tão pesada assim para que as pessoas se distanciassem de seus cultos?

E você, amigo tradicional ou pentecostal, o que acha desse distanciamento das periferias pelas igrejas históricas?

maio 17, 2010 at 5:30 pm Deixe um comentário

Pseudo-pentecostais: nem evangélicos, nem protestantes

Um grande equívoco cometido pelos sociólogos da religião é o de por sob a mesma rubrica de “pentecostalismo” dois fenômenos distintos. De um lado, o pentecostalismo propriamente dito, tipificado, no Brasil, pelas Assembléias de Deus; e do outro, o impropriamente denominado “neopentecostalismo”, melhor tipificado pela Igreja Universal do Reino de Deus. Um estudioso propôs denominar essas últimas de pós-pentecostais: um fenômeno que se seguiu a outro, mas que com ele não se conecta, pois “neo” se refere a uma manifestação nova de algo já existente. Correntes de sociologia argentina já os denominaram de “iso-pentecostalismo”: algo que parece, mas não é. Lucidez e coragem teve Washington Franco, em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal de Alagoas, quando classificou o fenômeno representando pela IURD de “pseudo-pentecostalismo”: algo que não é. Um estudo acurado dos tipos ideais, Assembléia de Deus e Igreja Universal do Reino de Deus, sob uma ótica sociológica, ou uma ótica teológica, nos levará à conclusão que se trata de duas manifestações religiosas diversas, que não podem — nem devem — ser colocadas sob uma mesma classificação. Ao se somar, a partir do Censo Religioso, esses dois agrupamentos, tem-se um alto índice de “pentecostais”, constituídos, contudo, pelos que o são e pelos que não o são. Equiparar ambos os fenômenos não faz justiça à Igreja Universal e ofende a Assembléia de Deus. 

Podemos afirmar, ainda, um segundo equívoco dos analistas: considerar a IURD e suas congêneres como “evangélicas”. Elas próprias, por muito tempo, relutaram em se ver como tal, pretendendo ser tidas como um fenômeno religioso distinto, e terminaram por aceitar a classificação “evangélica” por uma estratégia política de hegemonizar um segmento religioso mais amplo no cenário do Estado e da sociedade civil. O evangelicalismo é marcado pela credalidade histórica e pela ênfase doutrinária reformada na doutrina da expiação dos pecados na cruz e na necessidade de conversão, ou novo nascimento. 

Se o pseudo-pentecostalismo não é pentecostalismo, nem, tampouco, evangelicalismo, também não é protestantismo. O discurso e a prática dessa expressão religiosa indicam a inexistência de vínculos ou pontos de contatos com a Reforma Protestante do Século 16: as Escrituras, Cristo, a graça, a fé. Chamar o bispo Macedo de protestante é de fazer tremer o Muro da Reforma, em Genebra, e os ossos de Lutero e Calvino em seus túmulos. Muita gente tem incluído a IURD, e assemelhadas, como pentecostais, evangélicas ou protestantes, para inflar, de forma triunfalista, os números, ou por temor de retaliações legais, ou extralegais, vindas daquelas instituições. Se sociólogos têm denominado manifestações novas na cristandade, como as Testemunhas de Jeová, os Mórmons, ou a Ciência Cristã, como “seitas para-cristãs”, podemos denominar a Igreja Universal e congêneres de “seitas para-protestantes”. 

O que se constata, cada vez mais, é que o fenômeno pseudo-pentecostal tem concorrido para uma maior aproximação entre os pentecostais (já tidos como históricos, por sua antigüidade e mobilidade social e cultural) e as igrejas históricas. De um lado, os pentecostais redescobrem o valor da história, de uma confessionalidade e de uma teologia sólida; do outro, os históricos vão flexibilizando (ou ampliando) a sua pneumatologia, reconhecendo a contemporaneidade dos dons do Espírito Santo. O fosso entre pentecostais e pseudo-pentecostais tende a aumentar, não só pela aproximação entre pentecostais e históricos, mas também pela crescente adesão dos pseudo-pentecostais a ensinos e práticas sincréticas, com o catolicismo romano popular e os cultos afro-ameríndios. Quando estudantes de teologia assembleianos, batistas nacionais ou presbiterianos renovados aprendem com teólogos anglicanos (John Stott, J.I. Packer, Michael Greene, Alister McGrath, N.T. Wright), e anglicanos, luteranos ou presbiterianos usam de um louvor mais exuberante e oram por cura e libertação, na expressão de Gramsci, um novo “bloco histórico” vai se formando (retardado pelo extremo fracionamento entre ambos os segmentos), do qual, é claro, não faz parte o pseudo-pentecostalismo. Esse “bloco histórico” em formação, para se consolidar, não apenas deve se conhecer mais mutuamente, somando conceitos e subtraindo preconceitos, mas também responder aos desafios de um pluralismo que inclui a diversidade do catolicismo romano, o pseudo-pentecostalismo, o esoterismo, os sem-religião e um agressivo secularismo, emoldurado pelo relativismo pós-moderno. Isso passa, necessariamente, pelo aprender com a história da igreja — durante, depois e “antes” da Reforma — e pela superação de uma iconoclastia que, equivocadamente, equipara o artístico com o idolátrico. 

Contamos com estadistas do reino de Deus, com humildade, visão e coragem para consolidar esse bloco? 

Dom Robinson Cavalcanti é bispo anglicano da Diocese do Recife e autor de, entre outros, Cristianismo e Política — teoria bíblica e prática histórica e A Igreja, o País e o Mundo — desafios a uma fé engajada.
www.dar.org.br

Fonte: Revista Ultimato

outubro 17, 2008 at 11:24 pm 7 comentários

Sob o fogo do ESPÍRITO

 

 

Testemunha ocular relata fatos sobre o desdobramento do mover do Espírito em Azusa Street

Em 22 de maio de 1955, a senhora Flower e eu participávamos dos cultos da Bethel Pentecostal Church of Newark, em Nova Jérsei, onde tínhamos em mãos a cópia da edição da revista Pentecostal Evangel (Evangelho Pentecostal). Nós observamos na página 15 a nota de morte do ministro pioneiro pentecostal, Howard D. Stanley, com a idade de 79 anos.

A partida de Howard D. Stanley poderia ter sido sem importância se não fosse o fato de que ele foi um dos alunos de Topeka, Kansas. Esteve com aqueles que experimentaram o glorioso batismo no Espírito Santo em 3 de janeiro de 1901.

Na Escola Bíblica Betel, foi tomada, pelo corpo de estudantes, uma decisão instantânea, a partir dos estudos do livro de Atos, de que a evidência escriturística inicial do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas, como o Santo Espírito nos dava a pronunciar.

Essa não foi a primeira vez, desde os tempos apostólicos, que o Espírito Santo tinha sido derramado, acompanhado de manifestações espirituais, que incluíam profecia e o falar em línguas, como bem notou em With Sings Following (Com os Sinais Seguindo), Stanley H. Frodsham. 1

Nos Estados Unidos havia movimentos do Espírito Santo tão cedo quanto os de 1854 em Nova Inglaterra, entre os que eram conhecidos como “O povo doador”. Em Moorhead, Minnesota, em 1903, sob o ministério de John Thompson, o ministro da Missão Sueca, o Espírito Santo foi derramado e aqueles que receberam o Espírito falaram em línguas. A influência desse avivamento permaneceu conosco até esse dia.

Então nós aprendemos da Igreja de Deus, que o Espírito Santo derramado nos primeiros dias dessa comunidade na Shearer School House em Cherokee Country, Carolina do Norte, é que todos aqueles que foram batizados no Espírito Santo falavam em línguas, outras profetizavam e os milagres de cura ocorriam.

Enquanto haviam notáveis moveres do Espírito Santo nos quais os crentes falavam em outras línguas, profetizavam e as curas de doenças eram experimentadas, nenhum desses reavivamentos floresceu no Movimento Pentecostal, mas foram resultado do revestimento do Espírito que veio por volta da virada do século na Escola Bíblica Betel de Charles Parham.

Quando os estudantes daquela escola bíblica julgaram em seus estudos das Sagradas Escrituras que a evidência do batismo no Espírito Santo é o falar em línguas, eles então permaneceram firmes e esperaram essa experiência até que o tempo da inauguração de um movimento chegou e foi circundar o mundo, tornando-se fortificado em todos os continentes e em quase todas as nações do globo.

Nós estávamos vivendo o período no qual a ciência tinha conseguido a excelência no átomo, e nós ouvimos sobre a fissão nuclear e o encadeamento de nações. Isso poderia parecer que há um paralelo entre a descoberta dos segredos do átomo e o derramamento do Espírito Santo.

Em primeiro de janeiro de 1901, uma jovem senhora chamada Agnes N. Ozman, aluna da Escola Bíblica de Topeka, Kansas, pediu que mãos se estendessem sobre ela, porque queria receber o Espírito Santo, de acordo com o exemplo registrado no livro de Atos. Embora os líderes da Escola tivessem todo receio pela autoridade que possuíam, eles responderam ao pedido impondo as mãos sobre ela e Deus honrou a fé de Agnes, batizando-a no Espírito Santo. Ela falou em línguas e glorificou ao Senhor.

Esse é um átomo espiritual que explodiu e produziu uma nuvem de efeitos. As partículas ativadas difundiram-se pelo Kansas, para o Missouri, ao Texas, e finalmente a Los Angeles, na Califórnia. Dali expandiu-se para todas as partes da Terra. Com a possível exceção da Igreja de Deus e da Casa das Meninas, na Índia, dirigida por Pandita Ramabai, toda unidade pentecostal em existência hoje pode ser trilhada de volta a esse ignorado começo no Estado do Kansas.

Os recém-batizados estudantes foram inspirados para começar primeiro pela adjacência da Escola, depois pelas cidades vizinhas incluindo Lawrence; Kansas City; Galena, Kansas e Joplin, Missouri. A história do Movimento Pentecostal avivando Galena em 1903, em Orchard e Houston, Texas, em 1904 e 1905, é registrada em With Sings Following, que é leitura importante. 2

O derramamento do Espírito Santo em Los Angeles, e o avivamento na Missão da Azusa Street foi, de fato, um estopim e um efeito da reação em cadeia.

William J. Seymour, o pregador negro da santidade, chegou em Los Angeles sob a influência do Movimento da Fé Apostólica (como o movimento pentecostal ficou primeiramente conhecido) em Houston, Texas.

Embora tenha sido admoestado pelos irmãos a não ir a Los Angeles até que recebesse o batismo pentecostal, Seymour, todavia, sentiu-se impelido a aceitar o convite que lhe foi feito. O resultado de sua ida para Los Angeles é bem conhecida, pois em Los Angeles, Califórnia, em 9 de abril de 1906, quando as primeiras pessoas na cidade receberam o Espírito Santo, de acordo com a promessa, outro átomo espiritual foi explodido, o qual espalhou a mensagem pentecostal até os confins da Terra.

O brilho dessa explosão pentecostal foi tão grande, que muitos não se aperceberam das ligações em cadeia. Isso pode ser traçado de volta até Houston, onde o grande avivamento pentecostal ainda estava em progresso, e ainda mais longe de volta à escola Bíblica Betel.

O Movimento da Fé Apostólica, que se centrou em Houston, foi crescendo gradualmente em poder espiritual e influência. Tem sido estimado que, por volta desse tempo (1955) existirem cerca de mil pessoas no meio oeste batizadas no Espírito Santo e 60 ou mais ministérios reconhecidamente pentecostais. O original Movimento da Fé Apostólica no sudoeste foi destinado a formar o núcleo da Assembléia de Deus alguns anos mais tarde. Deve ser notado que em 20 de dezembro de 1913, a edição de Word and Witness (Palavra e Testemunho), um periódico pentecostal publicado em Malvern, Arkansas, a lista de 352 ministros reconhecidos do Movimento foi publicada, muitos dos quais estavam trabalhando para Cristo nos estados do Meio-oeste.

O grande ímpeto para a expansão da mensagem pentecostal mundialmente veio de Los Angeles. Foi lá que as Boas-Novas se expandiram para o mundo pelo boca-a-boca e pela palavra impressa. Foi para Los Angeles que centenas de ministros se encaminharam e receberam o Espírito Santo na plenitude pentecostal, e então se difundiu a mensagem para todas as partes dos Estados Unidos e Canadá. O periódico, Apostolic Faith (Fé Apostólica), publicado em Los Angeles, também foi um instrumento para levar a mensagem para muitos cristãos famintos, que, inspirados pelo que estava acontecendo em outra parte, procuraram ao Senhor diligentemente, difundindo deste modo o fogo em suas comunidades que ainda não tinham sido tocadas pelas mensagens pregadas pelas personalidades de Los Angeles.

C. H. Manson, um ministro negro da santidade, deixou sua casa em Menphis, Tennessee, e foi a Los Angeles em 1906. Lá recebeu o batismo pentecostal e de lá retornou para casa para difundir a experiência entre seu próprio povo. Ele foi o fundador da Igreja de Deus em Cristo, a qual, de acordo com que alegam, disputava um número de membros com a maior igreja pentecostal de brancos. C. H. Manson é altamente reverenciado tanto por negros quanto brancos pentecostais por causa de seu trabalho.

G. B. Cashwell, um ministro da Associação da Santidade da Carolina do Norte, veio a Los Angeles em 1906, recebeu o batismo no Espírito Santo e retornou à sua casa em Dunn, na Carolina do Norte, onde alugou um grande armazém e começou os encontros. G. B. Cashwell foi a ligação na expansão da mensagem pentecostal que se abriu para os estados do Sudeste.

Está registrado que, antes de 1907, estava concluído tudo ou aproximadamente tudo, os ministros de fogo batizados na Igreja da Santidade haviam recebido a experiência pessoal do batismo no Espírito Santo. Três grupos nos estados do Sudeste, que tinham recebido a mensagem por meio do irmão Cashwell, mais tarde combinaram e formaram a Igreja Pentecostal da Santidade.

Um ano depois de G. B. Cashwell ter voltado ao Sudeste, em janeiro de 1908 ele pregou em Cleveland, Tennessee, no encerramento da Conferência Geral da Igreja de Deus. A. J. Tomlinson, nessa época pastor da Igreja em Cleveland, recebeu o batismo pentecostal. Ele não foi o primeiro a aceitar a mensagem pentecostal, embora a igreja em que ele servia fosse pentecostal desde o derramamento pentecostal em 1896. Irmão Tolinson era de personalidade forte e líder capaz. Ele foi escolhido como moderador da Assembléia Geral de 1909. A igreja foi confirmada em sua posição pentecostal, e ao longo dos anos que se seguiram, foi contribuindo grandemente para a difusão da mensagem pentecostal.

Outros, influenciados por G. B. Cashwell, incluíam os dois evangelistas denominados H. G. Rodgers e M. M. Pinson. Esse homem levou a mensagem para Geórgia, Alabama e para o Mississipi. Eles também a divulgaram no sul da Flórida. Mais tarde, esses dois homens foram um instrumento para trazer para a Assembléia de Deus um número de igrejas que haviam sido criadas sob seu ministério no Sudeste. Entrementes, o fogo pentecostal foi levado ao Canadá por R. E. McAlister, irmão e irmã Hebden de Toronto, além de A. H. Argue, de Winnipeg. Não demorou muito para que a mensagem pentecostal fosse espalhada por todo o território.

A senhorita Ivey Campbell, mulher de profunda piedade, recebeu o batismo no Espírito Santo em Loas Angeles e levou a mensagem a Akron, Ohio.

No verão de 1907, aconteceu um glorioso encontro no campo Beulah Park em Cleveland, Ohio, onde muitos dos ministros e cristãos leigos e a Aliança Missionária viveram a experiência pentecostal. Muitos desses, mais tarde se aliaram à Assembléia de Deus. Outros continuaram com a Aliança, modificando suas visões relativamente ao falar em línguas, em conformidade com a posição da Aliança nessa matéria.

Os anos de 1906 a 1908 foram notáveis, porque durante esses anos a mensagem pentecostal foi propagada por todo mundo. Los Angeles e a missão da rua Azusa tornaram-se símbolos do pentecostes. O movimento, entretanto, estava fora de controle, por causa dos novos centros que estavam sendo estabelecidos e que não tinham particular submissão à missão da rua Azusa. Periódicos começaram a aparecer seguindo o estilo dos primeiros periódicos surgidos, publicados em Houston, Texas, o Apostolic Faith (Fé Apostólica), e o segundo que possuía o mesmo nome, mas que era publicado em Los Angeles.

Outros periódicos logo surgiram, como o: The Bridegroom’s Messenger (Mensagem do Noivo), publicado em Atlanta, Geórgia; The way of Faith (Caminho da Fé) de Columbia, Carolina do Sul; The New Actos (Os novos Atos), Alliance, Ohio; The Latter Rain Evangel (Evangelho das últimas chuvas), e Pentecostal Testimony (Testemunho Pentecostal), Chicago, Illinois; The Church of God Evangel (Igreja de Deus da Boa-nova), Cleveland, Tennessee; The Pentecostal Holiness Advocate (Defensor da Santidade Pentecostal), Franklin Springs, Geórgia. Todos esses contribuíram para difundir o movimento pentecostal que estava imediatamente tão longe quanto a liderança da Missão da Rua Azusa ou o grupo de Houston, Texas, pudessem se preocupar. O Movimento da Fé Apostólica tinha de fato se tornado o Movimento Pentecostal, e o vigor para ser reconhecido no mundo religioso.

Mas a propagação do Movimento não ficou confinada aos Estados Unidos e Canadá. Ele foi propagado além-mar a todo continente, e a rapidez com a qual a reação em cadeia tomou lugar foi surpreendente também.

Quem pode entender os caminhos do Senhor? Quem poderia imaginar a conseqüência da decisão feita pelo pastor T. B. Barrat de visitar os Estados Unidos em 1906? Pastor Barrat, ministro da Igreja Metodista em Christiania, Noruega, visitou a América para pedir fundos para abrir uma missão numa cidade grande, próxima à capital do seu país. Sua angariação de fundos não foi bem-sucedida, mas ele veio a ter contato com a Missão da Fé Apostólica em Nova Iorque, que lhe conduziu à convicção das suas necessidades espirituais. Barret abriu seu coração e não tardou a receber o batismo pentecostal em 7 de outubro de 1906. O pastor Barrat retornou para casa e, sob seu ministério, o avivamento tomou conta da Noruega, em janeiro de 1907.

Christiania, mais tarde denominada Oslo, tornou-se o centro da reação em cadeia que carregou a mensagem pentecostal para a Suécia, Inglaterra, Dinamarca, e muitos outros lugares no continente. Pastor Lewi Pethrus leu sobre os encontros de Barret em um jornal de Estocolmo em janeiro de 1907, e foi a Oslo. Por meio desse contato, a mensagem pentecostal foi introduzida na Suécia.

A. A. Boddy, diretor da Igreja Episcopal de Todos os Santos em Suderland, Inglaterra, ficou quatro dias com o pastor Barrat, e depois retornou para casa. Sob seu ministério, foram despejadas em abundância as últimas chuvas em Suderland, em setembro de 1907. A primeira cidade na Escócia a experimentar o batismo das últimas chuvas foi a cidade de Kilsyth, também no ano de 1907. Dois missionários foram de Oslo para a Suíça, levando a mensagem pentecostal a esse país em 1908.

A África do Sul foi visitada pelo avivamento pentecostal no início de 1908. Thomas Hezmalhalch foi de Los Angeles para Indianópolis, em março de 1907. Ele e seu grupo então voltaram a Zion, Illinois, onde Deus deu a eles projeção ao ministério pentecostal. O trabalho em Zion foi aberto em 1906 por Charles F. Parham, o líder do Movimento da Fé Apostólica em Houston, Texas; por isso o grupo ficou bem preparado para o ministério de Hezmalhalch. Seguindo esse encontro, o grupo retornou à Indiana e os planos eram organizar o grupo para ir à África do Sul. A caravana consistia de Thomas Hezmalhalch e esposa, John G. Lake e esposa, J. O. Lehman, Lois Schneiderman, entre outros, que deixaram a América e foram diretamente para Johannesburg. Os mesmos sinais que seguiram o ministério da Palavra nos Estados Unidos foram experimentados no Sul da África, e a Fé Apostólica nasceu. Mais tarde, obreiros retornaram à América, mas as sementes plantadas continuaram a germinar até que a Missão da Fé Apostólica alcançasse as proporções atuais (em 1955).

O que mais poderíamos dizer? Os primeiros missionários foram à China e para a Índia. O livro da senhorita Minnie Abrams intitulado, The Baptism of the Holly Ghost an Fire (O Batismo no Espírito Santo e com Fogo), que descreve o avivamento na casa das meninas dirigida por Pandita Ramabai, caiu nas mãos de W. C. Hoover, missionário Metodista no Chile, em 1907. Como resultado, o Espírito Santo foi derramado no Chile sob o ministério do irmão Hoover, em julho de 1909.

Durante esses primeiros anos, a mensagem pentecostal foi carregada por um encadeamento espiritual na Alemanha, na Europa Oriental, Rússia, Bulgária, Hungria, Itália, Egito, muitas partes da África, Índia, China, Japão, Américas Central e do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Seria impossível contar toda a história.

Centenas e centenas, talvez milhões de almas tenham sido esclarecidas com o privilégio em Cristo de receberem a plena salvação, e tenham recebido o batismo no Espírito Santo. Os Atos dos Apóstolos têm sido repetidos em grande escala, os quais ultrapassam as almejadas expectativas dos pioneiros. Como o final será, ninguém pode possivelmente saber.

Por, J. Roswell – Foi secretário das Assembléias de Deus, em 1914. Esse artigo foi publicado em 29 de janeiro de 1956. Traduzido e publicado com autorização do Pentecostal Evangel.
Mensageiro da Paz (CPAD) – 2006.

NOTAS

1 FRODSHAM, Stanley H. With Signs Following, (Springfield, Mo.: Gospel Publishing House, 1941), 253-2262.
2 Ibid., 19-29.

julho 6, 2008 at 2:02 am 1 comentário

Pentecostalismo Clássico e Metodismo

Influências, Similaridades e Conexões Histórico-Doutrinárias

 

 

O movimento pentecostal não tem uma só origem, mas muitas. Sua herança rica e diversa, bem como sua marcante presença, experiência e importância na história do cristianismo dos últimos 100 anos, tem chamado atenção de historiadores, teólogos, antropólogos, sociólogos e pesquisadores, dentre eles Donald Dayton, Justo L. Gonzáles, Ruben César Fernandes, David Martin, Vinson Synan e David Stoll, para citar alguns apenas. Estes, na busca por explicação para as raízes do movimento, vêem o pentecostalismo como um dos filhos ou desenvolvimentos do movimento metodista ou wesleyano, que fora fundado e liderado inicialmente pelos irmãos João Wesley e Carlos Wesley.

 

De fato, há fortes evidências de paralelos históricos e doutrinários entre o pentecostalismo clássico, notadamente as Assembléas de Deus, e o metodismo. Do ponto de vista histórico, observa-se que o movimento pentecostal bebeu de “poços” wesleyanos, além de ter encontrado seu nascedouro e fertilidade em meio ao avivamento Holiness (santidade), ocorrido durante a segunda metade do século 19, que também se estribou e se inspirou fortemente no metodismo. O movimento Holiness, que surgiu do coração do metodismo, é tido como o mais importante precursor imediato ao pentecostalismo (2001:2). O historiador e teólogo cubano Justo L. Gonzáles, por exemplo, não tem qualquer dúvida de que o pentecostalismo em geral e, mais especificamente, o movimento pentecostal clássico latino-americano, é um herdeiro de João Wesley (2003:16-18). Segundo Justo Gonzáles, quando o avivamento de Azusa Street começou,

 

“muitas igrejas viram-se obrigadas a tomar uma decisão a respeito. Muitas delas rejeitaram o [despertamento] que estava ocorrendo como [se fosse] obra demoníaca… [mas] muitos outros grupos do movimento Holiness abraçaram o avivamento, que mais tarde deu origem às principais igrejas pentecostais, [incluindo] a Igreja de Deus em Cleveland, Tennessee, e as Assembléias de Deus.” (2003:18, tradução minha)

 

Gonzáles também assegura que o início da interpretação teológica das primeiras experiências do “batismo com fogo” relacionadas à glossolália (falar em línguas estranhas) foi dado por Charles Fox Parham, um ministro do evangelho que havia recebido forte formação metodista (2003:18). Parham teria encontrado no raciocínio, experiência e tradição wesleyana abundante informação para sustentar o “batismo com fogo” em sólidas bases bíblicas e teológicas. Para Vinson Synan,

 

“Foi de Wesley que o movimento Holiness desenvolveu a teologia da ‘segunda bênção.’ Foi o colega de Wesley, John Fletcher, entretanto, quem chamou esta segunda bênção de ‘batismo no Espírito Santo’, uma experiência que [traz] poder espiritual para aquele que o recebe, além de limpeza interior. (…) Durante o século 19, milhares de metodistas diziam receber esta experiência, muito embora ninguém naquele tempo tenha visto qualquer conexão com a espiritualidade de falar em línguas ou quaisquer outros carismas [ou dons]. No século seguinte, Edward Irving [pastor presbiteriano] e seus amigos em Londres sugeriram a possibilidade de uma restauração dos carismas na igreja moderna.” (2001:2, tradução minha)

 

Desta forma, quando a experiência pentecostal e o próprio pentecostalismo surgiu com força para tronar-se o maior e mais formidável movimento cristão do século 20, já existiam há mais de 100 anos outros movimentos que enfatizavam a “segunda bênção” ou o “batismo no Espírito Santo” (Synan 2001:3). Contudo, em particular os reflexos ou efeitos que o movimento metodista Holiness causou na espiritualidade cristã da época, serviram de sólo fértil para que a semente pentecostal germinasse, crescesse e florecesse para a glória de Deus.

 

Da chamada “experiência do coração aquecido” que João Wesley teve em 24 de maio de 1738, por ele chamada de “novo nascimento”, vieram as bases da experiência de plenitude de vida ou plenitude do Espírito. Muito frustrado com o trabalho missionário que fora fazer na Geórgia, Estados Unidos, de ver a morte de perto na viagem de navio de volta a Londres, e de descobrir (durante a mesma viagem na qual encontrou-se com cristãos Moravianos) que não possuía convicção de sua salvação pessoal, Wesley abateu-se profundamente. Dias após sua chegada a Londres, numa típica tarde londrina, Wesley foi sem muita vontade para uma reunião na Aldersgate Street. Ele descreve a experiência da seguinte forma:

 

“Quando cheguei alguém estava lendo o prefácio de Lutero à Epístola de Paulo aos Romanos. Cerca das vinte horas e quarenta e cinco minutos, enquanto ele descrevia a mudança que Deus opera no coração mediante a fé em Cristo, senti o meu coração estranhamente aquecido. Eu senti que agora confiava realmente em Cristo, somente em Cristo, para salvação, e me foi dada a segurança de que Cristo havia perdoado os meus pecados, sim, os meus, e que eu estava salvo da lei do pecado e da morte.” (Diário de João Wesley referente ao ocorrido no dia 24 de maio de 1738, tradução minha, itálico adicionado)

 

É acurado dizer, então, que Aldersgate Street está para o movimento metodista da mesma forma como Azusa Street está para o movimento pentecostal. E esta é mais uma das várias razões pelas quais o pentecostalismo e o metodismo são tão similares nas suas ênfases e desenvolvimentos originais e experimentais, bem como na identificação com os seus respectivos contextos sócio-econômicos e culturais.

 

 

A Perfeição Cristã

 

Em particular a doutrina da perfeição cristã ou “santificação”, que desde o início ganhou forte ênfase na experiência e espiritualidade pentecostal, teve origem com João Wesley. A doutrina pentecostal da subseqüência foi derivada dos ensinos de Wesley a respeito da “segunda bênção”, ou “inteira santificação”. Explorando as origens do movimento pentecostal, Vinson Synan afirma:

 

“Os pentecostais herdaram de João Wesley a idéia de uma subseqüente experiência crítica, freqüentemente chamada de ‘inteira santificação’, ‘perfeição em amor’, ‘perfeição cristã’, ou ‘pureza do coração’. Foi João Wesley que propôs tal possibilidade em um dos seus influentes escritos, A Plain Account of Christian Perfection (1766).” (2001:2, tradução minha)

 

Os escritos de Wesley mencionados por Synan são realmente extensos e compôem vários volumes, demonstrando o quanto Wesley tornou-se apaixonado pelo tema. Entretanto, capturar o exato entendimento de Wesley sobre a perfeição cristã não é tão fácil quanto parece, razão pela qual esta doutrina tem sido interpretada por vários ângulos diferentes e, por vezes, controversos. Contudo, Wesley esforçou-se por relacionar a experiência da perfeição cristã à “mente de Cristo”, isto é, total devoção a Deus, e, portanto, amor a Deus e ao próximo (Dayton 1987:47). O próprio Wesley, sabendo que poderia vir a ser mal interpretado, tentou sintezar suas idéias da seguinte forma:

 

“De um ponto de vista, é pureza de intenção, dedicação da vida inteira a Deus. É o dom divino nos nossos corações; é um desejo e desenho comandando toda o nossa disposição [isto é, temperamento, atitude, estado de mente, moldura do pensamento, humor, espírito, constituição, natureza e caráter]. É devotar, não uma parte, mas tudo; nossa alma, corpo e substância para Deus. De outro ponto de vista, é [possuir] toda a mente que estava em Cristo, habilitando-nos a andar como Cristo andou. É a circuncisão do coração de toda impureza, toda poluição interna e externa. É uma renovação do coração na inteira imagem de Deus, a total semelhança d´Aquele que criou [o coração]. E ainda noutra perspectiva, é amar a Deus com todo o coração e ao próximo como a nós mesmos. Agora, tome qualquer uma destas perspectivas que lhe agrade, (pois não há nelas nenhuma diferença material).” (Wesley´s Work, sect. 27, 11:444, tradução minha)

 

Para João Wesley, perfeição cristã não significa instantânea e absoluta ausência de pecado, mas, sim, o processo pelo qual nossa vida, pelo poder regenerador e purificador do sangue derramado na cruz e pela ação santificadora do Espírito Santo, se conforma (isto é, toma a forma) e se aperfeiçoa segundo a mente de Cristo. Em última análise, perfeição cristã em Wesley pode ser condensada nas expressões “santificação” e “perfeição em amor”, isto é, estar em Cristo e Cristo em nós, e amar a Deus e ao próximo como a nós mesmos. O pentecostalismo, melhor do que qualquer outro movimento surgido após o nascimento do metodismo, soube entender esta doutrina e traduzí-la na prática de vida e missão.

 

Outras Influências e Similaridades

 

Dentre outros paralelos históricos, há algumas similaridades básicas entre o pentecostalismo e metodismo. Primeiro, os dois movimentos se desenvolveram no meio da pobreza, na linha extrema da exclusão social. Richard P. Heitzenrater explica que “No estágio inicial do seu desenvolvimento, as sociedades [metodistas] começaram a demonstrar um interesse especial pelas [ansiedades] do pobre e desprovido, dando-lhes comida e dinheiro para suas necessidades, visitando os doentes e aprisionados, e ensinando as crianças dos desafortunados” (1995:23). Para Howard Snyder, este tipo de sensibilidade e preocupação pelo pobre e desvalido foi “especialmente notado no brilho do metodismo [amadurecido]” (Snyder 1996a:15). Esta é a razão pela qual “Os primeiros metodistas eram conhecidos por sua preocupação e cuidado pelo pobre, o estrato da sociedade de onde muitos deles vieram” (Snyder 1996b:142-143). De igual forma, representando o pentecostalismo clássico no Brasil, as Assembléias de Deus também se importaram, se sensibilizaram e cresceram entre os pobres e oprimidos. Além disso, deram respostas relevantes às necessidades daqueles que enfrentavam lutas sociais e econômicas, provendo não somente assistência imediata (comida, roupa, teto etc.), mas também comunidade, senso de pertencimento, rede de relacionamentos de ajuda, reconstrução da identidade pessoal e comunitária, restauração da dignidade humana, participação igualitária, e educação formal e informal.

 

Segundo, os dois movimentos se desenvolveram reconhecendo a importância fundamental do laicato. Laicato é o mesmo que “leigos”, isto é, cristãos não-profissionais ou que não pertencem a alguma ordem eclesiástica, denotando a distância e a distinção existente em relação aos que possuem treinamento especial e/ou ordenação para o exercício do ministério. Laicato é um termo controverso no seu uso e aplicação, frenqüentemente substituido ou propriamente expandido pela expressão “Povo de Deus”.

 

Pois bem, da mesma forma como pentecostais clássicos o fazem até hoje, os metodistas contumavam confiar inteiramente no papel explícito do Espírito Santo como fonte de conhecimento e frutos, bem como nos dons do Espírito para o ministério exercido pelo povo “leigo”, confiando e permitindo que trabalhassem livre e criativamente. Segundo Howard A. Snyder,

 

“Enquanto o ministério de Wesley se desenvolvia e ele [assim] começou a comissionar um enorme regimento de pregadores leigos, duas opções se apresentaram a ele para explicar biblicamente o que estava acontecendo. A primeira teria sido uma radical afirmação da doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes, uma asserssão de que, biblicamente e no plano de Deus, todo crente é chamado a ministrar e que as várias formas de ministério são fundamentadas na obra carismática do Espírito Santo, ao invés de estar baseada na credencial institucional da igreja. A outra opção, que Wesley tomou essencialmente, foi admitir a validade normal da ordenação eclesiástica, mas ver o Espírito Santo [pervadindo, enchendo e] traspasando este molde e criando um padrão ‘extraordinario’ de ministério que acontecesse não somente fora, mas também paralelo às estruturas eclesiásticas.” (1996a:155, itálico adicionado, tradução minha)

 

De fato, tal como aconteceu com as Assembléias de Deus no Brasil, o movimento wesleyano na Inglaterra e na América do Norte tinha uma preocupação especial em “prover liderança que fosse espiritualmente viva, doutrinariamente sonora, e missiologicamente ativa”, como nota Heitzenrater (1995:182). Mais do que qualquer outro movimento na história antes do surgimento do pentecostalismo, ao longo dos primeiros ciclos de sua história, o metodismo “[confiou e] dependeu mais e mais substancialmente nas pessoas leigas que não possuiam educação teológica ou treinamento em liderança religiosa” (1995:182). O líderes eram levantados do laicato. Da mesma dorma como o pentecostalismo clássico, foi através e por causa do laicato que os metodistas íam ao encontro do povo, não esperando que as pessoas, por si mesmas, viessem à igreja. Isto porque, tanto para o metodismo primitivo quanto para o pentecostalismo contemporâneo, a essência da Igreja — a comunidade de crentes cheios do Espírito Santo e enviados para a missão — não dá espaço para qualquer distinção entre cléricos e leigos, exceto quando e onde os papéis sacerdotais tornam-se contextuais e funcionais.

 

Ontem Ensinou, Hoje Aprende

 

Se por um lado o metodismo influenciou o movimento pentecostal no passado, por outro lado a experiência do pentecostalismo clássico, mais especificamente as Assembléias de Deus no Brasil, relembra o movimento metodista de suas origens rústicas, porém efetivas ao ter começado, servido e crescido no meio da pobreza na Inglaterra do século 18. O exemplo contemporâneo das Assembléias de Deus, então, é extremamente inspirador quanto a apontar o caminho para os metodistas de hoje no que tange a redescobrirem sua verdadeira identidade enquanto movimento missionário, serem revisitados pela singularidade do poder do Espírito Santo, e fazerem teologia e missão de forma relevante e integral. Da mesma maneira como ocorreu com o pentecostalismo primitivo no nordeste do Brasil e, por extensão, através do país inteiro, o metodismo primitivo em Bristol, Inglaterra, experimentou uma preocupação efetiva pelo pobre e uma humilde identificação com a cultura local, o que conduziu o movimento a ganhar força e estabilidade entre a classe trabalhadora, notadamente entre os pobres que trabalhavam das minas de carvão.

 

De igual forma, a maneira assembleiana de fazer teologia e missão também denuncia como os metodistas de hoje afastaram-se de suas próprias origens teológicas, eclesiológicas e missiológicas em relação aos pobres e ao laicato. Isto faz com que o metodismo de hoje tente recuperar aspectos que acabaram esquecidos ou negligenciados em sua prática de missão, coisas que o pentecostalismo trouxe à realidade ao aprender, absorver e desenvolver as mesmas premissas teológicas e missiológicas que os metodistas possuíam desde o começo do movimento wesleyano.

 

Bibliografia Citada

 

Dayton, Donald W.

1987 Theological Roots of Pentecostalism. Grand Rapids, MI: Francis Asbury Press.

 

Gonzáles, Justo L.

2003 Wesley para a América Latina Hoje (Wesley for Latin America Today). São Paulo, SP, Brazil: Editeo.

 

Heitzenrater, Richard P.

1995 Wesley and the People Called Methodists. Nashville, TN: Abingdon Press, c1995.

 

Snyder, Howard A.

1996a The Radical Wesley & Patterns for Church Renewal. Pasadena, CA: Wipf & Stock Publishers.

 

1996b Liberating the Church: The Ecology of Church and Kingdom. Pasadena, CA: Wipf & Stock Publishers.

 

Synan, Vinson, editor

1975 Aspects of Pentecostal-Charismatic Origins: Eleven Leading Scholars Examine the Roots and Early Growth of the Greatest Religious Movement of the Twentieth Century. Plainfield, NJ: Logos International.

 

2001 The Century of the Holy Spirit: 100 years of Pentecostal and Charismatic Renewal, 1901-2001. Nashville, TN: Thomas Nelson Publishers.

 

Wesley, João

1766 A Plain Account of Christian Perfection. Sect. 27, na edição Jackson de Wesley´s Work, sect. 27, 11:444.

 

Por Luís Wesley, teólogo metodista.

 

julho 6, 2008 at 1:19 am Deixe um comentário

Avivalistas da segunda bênção

A forma como os tradicionais A. B. Simpson, D. L. Moody e R. A. Torrey influenciaram positivamente o pentecostalismo

A expressão “Segunda Bênção” é por demais conhecida no vocabulário pentecostal. De fato, ela foi tomada como sinonímia para batismo no Espírito Santo. Mas um dado de relevância histórica, que deve ser observado, é que esta expressão já havia sido cunhada antes mesmo do advento do pentecostalismo. É justamente nesse contexto, que aparecem as figuras daqueles que seriam conhecidos como os “avivalistas da Segunda Bênção” – Moody, Simpson e Torrey.

Para entendermos a importância desses três ícones do protestantismo histórico para o pentecostalismo primitivo, faz-se necessário recuarmos no tempo e buscarmos os fundamentos doutrinários lançados por eles, os quais serviram de sustentação ao Movimento Pentecostal na sua fase embrionária.

Na edição 2004, o Almanaque Abril destaca que “por causa de sua grande ascensão, em todo o mundo, no século 20, o fenômeno (pentecostalismo) já é considerado por alguns a maior revolução do cristianismo depois de Lutero. Com um século de notória existência, o pentecostalismo firmou-se como um movimento com legitimidade dentro do cristianismo histórico. A odisséia desse extraordinário movimento do Espírito encontra-se fortemente documentada nas páginas da Bíblia e da História da Igreja”. 1

Uma cristã de nome “Agnes Ozman assegurou um lugar na história pentecostal quando se tornou a primeira pessoa a falar em línguas na escola de Charles Parham, em Topeka, Kansas”, diz E. L. Blumhofer num verbete bibliográfico sobre essa pioneira do pentecostalismo norte-americano. Blumhofer ainda sublinha que “Após a experiência de línguas de Ozman em 1901, ela retornou para um trabalho missionário na cidade. Em Lincoln, em 1906, ela ouviu acerca do pentecostalismo, relatou sua experiência primitiva, e identificou-a com o movimento emergente”.2

Os pentecostais destacam, em sua história, que os nomes da Escola Bíblica Betel, em Topeka e da Rua Azusa, em Los Angeles, no Estado da Califórnia (EUA) são tidos como os endereços onde se registram o advento do pentecostalismo moderno, no início do século 20. No entanto, esses mesmos historiadores têm enfatizado que as raízes desse movimento encontram-se solidamente fixadas no protestantismo histórico, herdeiro da grande Reforma Protestante.

UM TIÇÃO TIRADO DO FOGO

Um dos maiores movimentos de reavivamento da igreja protestante foi aquele promovido pelos irmãos Wesley, na Inglaterra do século 18. É interessante entendermos o reavivamento Wesleyano para que possamos ter uma melhor compreensão do pentecostalismo, pois, como observa o historiador Luis de Castro Campos Jr., o pentecostalismo teve origem nas doutrinas de John Wesley. 3

John Wesley, fundador da Igreja Metodista, nasceu na Inglaterra em 1703 e morreu em 1791. A partir da dramática experiência de sua conversão no dia 24 de maio de 1738 (ao ler o prefácio de um comentário de Lutero sobre a Epístola aos Romanos), Wesley teve sua vida e ministério transformados. Ele observou que a Igreja Anglicana, da qual fazia parte, caíra num ritualismo morto, devido ao seu forte sistema hierárquico e centralizado, que a distanciou das massas.

Wesley renunciou ao clericalismo anglicano, permitindo “a participação de pregadores leigos, entre os quais Nelson, um pedreiro”. 4 Para Wesley apenas ritos não produziam transformação nem santificação na vida das pessoas. Ele “não tinha paciência com coisas secundárias, como mediação sacerdotal e os mágicos efeitos dos sacramentos. Antes, exortava os homens a terem experiência pessoal com Jesus Cristo”. 5

O MOVIMENTO HOLINESS

Por ocasião de sua viagem missionária aos estados Unidos da América, Wesley teve contatos com cristãos piedosos que o despertaram para os efeitos espirituais de uma vida mais profunda. A doutrina bíblica da santificação do crente, esquecida ou não enfatizada pela igreja de seus dias, encontrou em Wesley um ardoroso defensor.

A santificação do crente como um outro estágio da vida espiritual e posterior à conversão, enfatizada por Wesley, foi a grande bandeira levantada por avivalistas do século 19. A esse respeito observa Luís Castro Campos Jr.: “A preocupação com a ‘santificação’ foi passando de movimento a movimento, avançando no tempo, e chegando aos grupos pentecostais, originando sua doutrina básica: o batismo do Espírito Santo”. 6

Essa busca por uma vida mais pura, uma herança do metodismo wesleyano, foi difundida pelos avivalistas da santidade, também denominados de holiness. “Pouco depois da Guerra Civil norte americana, na segunda metade do século 19”, observa Joe Terry, foi, formado um movimento chamado Movimento Nacional da Santidade, o qual incorporava acampamentos e reavivamentos freqüentes, que faziam constantes as atividades desses grupos. 7 Ainda sobre o movimento holiness, o pastor Joe Terry destaca ainda que “em torno de 1880 os membros pobres queixaram-se de que a religião do coração, como era conhecido o metodismo, estava desaparecendo. Grupos surgiram nas Igrejas Metodistas e ‘Metodistas Episcopais’, chamados holiness, que queriam uma volta aos princípios de Wesley.

A doutrina da perfeição, acentuada por ele tinha pouco efeito, segundo eles, na maioria da Igrejas Metodistas”. 8 A pregação holinnes tornou a por em destaque a necessidade de o crente possuir uma vida mais profunda com Deus. Nesse novo contexto doutrinário, uma vida mais santa surgia com força como uma segunda bênção ou segunda obra da graça, enquanto a justificação aparecia com a primeira.

O Movimento da Santidade preparou o protestantismo norte-americano para o advento do pentecostalismo. Historiadores pentecostais sublinham que o pentecostalismo surgiu do Movimento da Santidade do século 19. A formulação do Evangelho integral, o zelo pela evangelização do mundo nos últimos dias e a oração intensiva pelo derramamento do Espírito Santo precipitaram os reavivamentos em Topeka, Los Angeles e os muitos que surgiram”. 9

O pentecostalismo, portanto, não surgiu do nada, mas há todo um contexto histórico-teológico no qual a pregação dos avivalistas da segunda bênção ocupou um papel central. É dentro desse contexto que as figuras dos três mais importantes avivalistas da segunda bênção são peças-chave para se entender o pentecostalismo. A propósito Paulo Romeiro observa que “a ênfase na perfeição cristã ou na inteira santificação, ensinadas por Wesley, mais tarde receberiam outros nomes: “Segunda Bênção” e “Revestimento de Poder”, por exemplo. 10

O termo batismo no Espírito Santo passaria a ser usado por alguns grupos posteriormente. Outros líderes e denominações na América do Norte seriam influenciados pelos mesmos ensinos e se encarregariam de disseminá-los. Entre estes destacaram-se Charles G. Finney, Dwight L. Moody, A. B. Simpson, Andrew Murray e R. A. Torrey”.

A. B. SIMPSON

Albert Benjamim Simpson (1843-19191) foi classificado como proto-pentecostal devido à afinidade que sua doutrina teve com o movimento emergente da Rua Azusa. De acordo com a obra The New international Dictionary of pentecostal and Charismatic Moviments, Simpson foi o fundador da Aliança Bíblica Missionária e pastor presbiteriano que apascentou diversas igrejas. Em 1881, ele deixou o pastorado da igreja da cidade de Nova Iorque para dirigir um trabalho independente, onde Simpson tinha pretensão de alcançar as massas sem igreja.

O trabalho de Simpson seria amplamente conhecido por meio do termo “Evangelho Quadrangular”, no qual Cristo é visto como Salvador, Santificador, Médico e Rei. Cada um desses termos são explicados com detalhes em sua obra As Quatro Dimensões do Evangelho. 11

Os historiadores observam que ele foi identificado tanto como pregador, avivalista e um profeta da santidade, que proclamava a necessidade de se viver uma vida mais profunda. Todavia a obra de Simpson não pode ser vista apenas por esse ângulo. Ele também foi um grande fomentador das missões mundiais, escatólogo e teólogo. É um fato que a Teologia Pentecostal bebeu muito da fonte de Simpson.

C. Nienkirchen observa que a continuidade ideológica entre as doutrinas de Simpson e aquelas esposadas pelos pentecostais podem ser estabelecidas em vários pontos:

  1. Sua interpretação restauracionista da evolução da história da Igreja, desde a Reforma Protestante, salienta a convicção de que a presente Era se conclui com os dias das “últimas chuvas”. Por isso necessitaria ser acompanhada por manifestações sobrenaturais do Espírito Santo, tais como línguas, milagres e profecias remanescentes da “chuva primitiva” no pentecostes (Atos 2). Nienkirchen ainda observa que Simpson exortou os crentes  a orar por aquelas evidências especiais do poder divino típicas dos avivamentos passados.

  2. Simpson se opôs à noção dispensacional de que os dons do Espírito Santo tinham cessado com o fim da era apostólica. Com base em João 2 e 1Coríntios 12, ele entendeu que os dons espirituais teriam continuidade até à Segunda Vinda de Cristo. Nienkirchen ressalta que ao tomar conhecimento dos fenômenos desencadeados na rua Azusa, em 1906, ele reconheceu o valor das línguas na Igreja como “uma expressão de elevado sentimento espiritual e intenso mover do coração”. Mas ele estava consciente do lugar que as línguas ocuparam na Teologia paulina. Para Simpson, Paulo havia colocado esse dom em último lugar por causa dos abusos no seu exercício.
    Para o fundados da Aliança Bíblica Missionária, as línguas poderiam ser conhecidas ou desconhecidas, mas não possuíam um papel evangelístico para os novos pagãos, como criam muitos pentecostais. A sua posição com respeito ao fenômeno da glossolalia, conforme ele mesmo escreveu, era: “Este dom é um entre muitos, e é dado a alguns para benefício de todos.
    Assim a atitude para com o dom de línguas a ser adotada pelo pastor e pela congregação deve ser: “não busquem, não proíbam”.

  3. Como os pentecostais que o seguiram, Simpson estava preparado para usar o padrão da vida espiritual retratada em Atos dos Apóstolos como norma de existencial pela qual a fraqueza da igreja do seu tempo deveria ser medida. Com sua abertura para uma teologia onde o sobrenatural tinha seu lugar, ele queria com isso se precaver do formalismo que havia tomado conta das igrejas.

A doutrina pentecostal fundamentada fortemente nas narrativas de Atos já havia sido prenunciada por Simpson. Os discípulos em Samaria (Atos 19) davam a ele a sustentação de sua doutrina dos dois passos para o início da vida cristã – a regeneração e o enchimento do Espírito Santo.

Posteriormente ele escreveria: “Nascidos no Espírito, nós também devemos ser batizados com o Espírito Santo, e logo viver a vida de Cristo e repetir a sua obra. Deve ser destacado aqui que embora os pentecostais tenham bebido muito da Teologia de Simpson, ele mesmo rejeitava a doutrina pentecostal da evidência inicial. Todavia “o corpo doutrinário de Simpson testemunha uniformemente para a sua concepção do batismo no Espírito como ocorrendo subseqüentemente à regeneração. Iniciado pela leitura de A vida Cristã profunda (1858) de W. E. Bordman, Simpson recebeu o batismo no Espírito Santo em 1874, durante seu segundo pastoreio em Louisville, Kentuchy (EUA). 14

Na teologia de Simpson, observa-se que ele se referia à doutrina da Segunda Bênção de uma forma variada. Era uma “Segunda Bênção”, mas também foi uma “Crise de Santificação”, ou “A unção”, “Selo”, “Enchimento do Espírito” ou ainda “Cristo no Interior”.

Por último, deve ser destacado que apesar da grande influência que a Teologia de Simpson incidiu ao pentecostalismo, o próprio Simpson fez pesadas críticas ao Movimento Pentecostal. Em um documento enviado à CMA, em 1908, ele acusou a doutrina pentecostal da evidência inicial de focalizar as manifestações espirituais em detrimento de uma vida devocional mais profunda com Deus e reduzir o zelo evangelístico da igreja.

D. L. MOODY

Dwight L. Moody (1837-1899) foi, sem dúvida alguma, o maior evangelista do século 19. No livro Os 100 Acontecimentos Mais Importantes da História do Cristianismo, Moody ocupa um lugar de destaque. 15 Moody foi um evangelista que não teve educação formal. Ele só freqüentou a escola de uma forma regular por um período de uns quatro a cinco anos. Mas a sua determinação em conquistar seus objetivos fez com que ele superasse sua carência. De família pobre, teve que se dedicar ao trabalho muito cedo. Esse fato seria agravado com a morte de seu pai. Ainda adolescente, ele deixou o convívio familiar para se aventurar na vida.

Não tendo muita qualificação Moody não conseguiu o emprego que desejava, tendo que ir trabalhar com um tio em comércio de sapatos. Embora tenha sido catequizado ainda muito cedo por sua mãe, ele logo esqueceria daquelas preciosas lições dadas por sua genitora. O encontro dele com o Evangelho de uma forma mais consistente aconteceu quando passou a freqüentar uma igreja e a ser visitado por um professor da Escola Dominical. Foi esse professor que viria causar um impacto profundo na vida de Moody. De fato ele testemunhou: “quando eu estava em Boston, costumava freqüentar a Escola Dominical e, certo dia, lembro-me de que meu professor foi até a loja onde eu trabalhava, colocou o braço sobre meus ombros e falou-me de Cristo e da minha alma. Até então, eu não sabia que tinha alma, por isso disse a mim mesmo: É muito estranho. Aqui está um homem que me conhece a tão pouco e chora pelos meus pecados, e eu nunca derramei uma lágrima por ele (…) Pouco tempo depois desse fato passei a fazer parte do Reino de Deus”. 16

Em 1873, Moody em companhia de Ira David Sankey, famoso cantor evangélico, rumara para as ilhas Britânicas onde promoveram poderosas cruzadas evangelísticas. A notícia do enorme sucesso obtido por Moody na terra da rainha logo chegou aos Estados Unidos.

Harold H. Fischer destaca que “após a sua volta, eram assediados por todos os lados por pedidos para realizações de trabalhos. Fez uma campanha no Brooklim na qual a assistência atingiu mais de 5 mil pessoas, e dentro de pouco tempo depois 2 mil pessoas estavam convertidas. A grande e antiga estação ferroviária Pensilvânia, na Filadélfia, foi preparada com assentos para 10 mil pessoas, e apesar do tempo chuvoso, o salão ficou quase lotado na primeira noite. A assistência foi boa, os cultos eram úteis e número de convertidos foi avaliado em 4 mil. 17

Todo esse enorme êxito que Moody obteve em seu trabalho evangelístico é atribuído à sua estreita comunhão com o Espírito Santo. R. A. Torrey, amigo e companheiro por muitos anos, testemunharia mais tarde que: “Muitos perguntaram: Qual é o segredo do sucesso desse homem? É uma curiosidade muito natural. Ele tinha poder. Mas onde ele conseguiu essa estranho poder para conquistar a afeição e a decisão dos homens? Ele soube e nós também podemos saber. Era a unção do Espírito Santo”. 18

Para Moody a experiência com o Espírito Santo era um fato bem definido. Ele também fazia parte da escola dos avivalistas da Segunda Bênção. Steve Miller observa que às vezes nem sempre a doutrina pneumatológica de Moody é entendida, o que tem levado alguns erroneamente a pensarem que ele defendia uma segunda experiência de conversão. As próprias palavras de Moody, no entanto, lançam luz sobre a sua doutrina acerca da Terceira Pessoa da Trindade. “Há uma diferença”. Disse, “entre ser morada do Espírito Santo e deixar-se encher de poder por Ele. O verdadeiro filho de Deus, lavado pelo sangue de Cristo, é o templo ou morada do Espírito Santo. No entanto, o indivíduo pode não ter a plenitude desse poder”.

Moody testemunha que foi em 1871, quando se encontrava na cidade de Nova Iorque, que ele pediu e recebeu a Segunda Bênção: “O tempo todo eu clamava para que Deus me enchesse com o seu Espírito. Então, certo dia, na cidade de Nova Iorque (…) Ah! Que dia! Sou incapaz de descrevê-lo. Raramente falo sobre ele; foi uma experiência sagrada demais para ser mencionada (…). Posso apenas dizer que Deus se revelou a mim e experimentei de tal forma o seu amor e precisei rogar-lhe que retirasse de mim a sua mão. Fui pregar outra vez. Os sermões não foram diferentes; eu não apresentei nenhuma verdade inédita, mas, ainda assim, centenas converteram-se. Não quero voltar a viver como eu viva antes daquela experiência abençoada, nem que me oferecessem o mundo inteiro – ela seria como um grão de areia no oceano (…) há dois períodos bem distintos em minha vida. O primeiro, entre os meses de vida e os 18 e 19 anos, quando nasci do Espírito (…) A maior bênção depois do segundo nascimento aconteceu 16 anos depois, quando recebi a plenitude do Espírito”.

Não há registro que nos permita assegurar que o sinal que o grande evangelista tenha recebido como prova do recebimento da segunda bênção tenha sido o falar em línguas, mas há registros confiáveis que nos asseguram que o dom pentecostal era conhecido por meio de sua pregação.

R. Boyd, um pastor batista e amigo de D. L. Moody, escreveu em 1875 em seu livro Provas e Triunfos da fé. “Quando cheguei ao Vitória Hall Londres, encontrei a assembléia ardendo em línguas e profetizando. Qual seria a explicação de tão estranho acontecimento? Somente que Moody os estava dirigindo naquela tarde”. 21 Este fato permitiu John White afirmar que “num certo sentido Moody poderia ser classificado como um pregador pré-pentecostal, embora as línguas não possam ser ditas como algo que caracterizou os seus cultos de avivamento. Esse evento, entretanto, indica que a glossolalia às vezes acompanhava a sua pregação”. 22

R. A. TORREY

Reuben A. Torrey foi um fiel colaborador de D. L. Moody, trabalhando ao seu lado até a sua morte. Harold H. Fischer observa que Moody nomeou Torrey em 1890 como diretor de seu Instituto de Instrução Bíblica, posteriormente denominado de Instituto Bíblico Moody, na cidade de Chicago. Fischer lembra que Torrey encorajava constantemente o espírito avivalista na congregação. Sendo um homem que cria fervorosamente na oração, ele insistia com o povo a que se entregasse a ela e suplicasse que Deus enviasse o seu Espírito para avivar a sua obra no mundo. Logo, ele se tornaria conhecido como poderoso pregador do Evangelho. Há registros de que Torrey tenha promovido uma reunião de oração por um período de um ano no Instituto Bíblico com o propósito de clamar pelo avivamento.

Torrey foi um poderoso teólogo. As suas obras teriam uma grande influência na formação doutrinária do pentecostalismo clássico. Ele está inserido no contexto dos pregadores restauracionistas. William W. Menzies destaca que “D. L. Moody, R. A. Torrey, A. B. Simpson e uma platéia de outros grandes líderes de reuniões públicas, quase sempre de diversas linhas denominacionais, chamavam as pessoas ao arrependimento e ao Evangelho à moda antiga“. 23 Apesar dele ter deixado um grande legado para a Doutrina Pentecostal, Torrey fez duras críticas ao movimento emergente. Em um de seus textos, ele chegou a acusar o pentecostalismo de “ter sido fundado por um sodomita”. 24 Mas a sua crença no batismo no Espírito Santo, como sendo uma experiência subseqüente ao processo de regeneração serviria como fundamento teológico para os primeiros pentecostais.

A sua obra O Batismo no Espírito Santo, escrita em 1895, tornou-se suporte para a crença pentecostal na doutrina que colocava o batismo no Espírito Santo como uma experiência distinta da regeneração, uma Segunda Bênção. De fato, L. Lovett observa que este livro “encontrou caminho nos corações de muitos líderes holiness, que posteriormente tornou-se proeminente no desenvolvimento do Movimento Pentecostal.

Nesse livro, Torrey faz uma poderosa apologia sobre a doutrina do batismo no Espírito Santo como sendo uma segunda bênção distinta da salvação.

Na página 5 ele afirma: “O batismo no Espírito Santo é uma operação do Espírito Santo, separada e distinta de sua obra regeneradora”. 26 Em seguida, ele justifica a sua crença: “Ser regenerado pelo Espírito Santo é uma coisa, e ser batizado é algo totalmente diferente. É uma outra coisa. Isso está claro em Atos 1.5, onde Jesus disse: “Sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias”. Até então, ainda não haviam sido “batizados com o Espírito Santo”. Mas já eram homens regenerados. O próprio Senhor Jesus já havia afirmado isso.

Em João 15.3, ele dissera aos mesmos homens: “Vós já estais limpos, pela palavra que vos tenho falado” (comparar isso com Tiago 1.18 e 1Pedro 1.23). E em João 13.10: “Ora, vós estais limpos, mas nem todos”, deixando fora, com a expressão “mas nem todos”, o único homem não-regenerado do grupo apostólico que era Judas Iscariotes (ver João 13.11). Assim sendo, os apóstolos, com exceção de Judas Iscariotes, eram homens regenerados, sem serem ainda “batizados com o Espírito Santo”.

Pelo exposto, torna-se claro que a regeneração é uma coisa e que o batismo com o Espírito Santo é diferente. Uma pessoa pode ser regenerada, e ainda não ter sido batizada com o Espírito Santo. A mesma coisa é evidente em Atos 8.12-16. Encontramos aqui um grupo de crentes já batizados. Não há dúvida de que, naquele grupo de crentes batizados, havia alguns regenerados. Mas o registro informa que quando Pedro e João desceram “oraram por eles para que recebessem o Espírito Santo (porquanto não havia descido sobre nenhum deles)”.

É claro, portanto, que alguém pode ser crente, pode ser homem regenerado, e contudo não ter ainda o batismo no Espírito Santo. Em outras palavras, o batismo com Espírito Santo é algo distinto, e mais do que sua obra regeneradora. Nem todo crente regenerado tem o batismo com o Espírito Santo, embora, segundo veremos adiante, todo homem regenerado pode receber esse batismo. Quem já passou pela obra regeneradora do Espírito Santo, é salvo, todavia, não está preparado para o serviço do Senhor enquanto não tiver recebido o batismo no Espírito Santo”. 27

Esta é a grande contribuição dos avivalistas da Segunda Bênção para o movimento pentecostal. Gary B. McGee observa que a “crença numa Segunda obra da graça não ficou confinada ao círculo metodista”. (…) Embora a Teologia da Reforma haja identificado o batismo no Espírito com a conversão, alguns avivalistas, dentro dessa tradição, aceitavam o conceito de uma Segunda obra da graça para revestir os cristãos com poder do alto. Entre eles, se encontravam Dwight L. Moody e R. A. Torrey. Apesar desse revestimento de poder, acreditavam que a santificação mantinha-se em sua obra progressiva. Outro personagem chave, um ex-presbiteriano, A. B. Simpson, fundador da Aliança Cristã Missionária, cuja forma de pensar teve grande impacto na formação doutrinária da Assembléia de Deus, enfatizava nitidamente o batismo no Espírito Santo. 28

O pentecostalismo apareceu na “plenitude dos tempos” e estes três “gigantes”, representantes do protestantismo histórico, foram usados por Deus para darem a devida sustentação doutrinária.

Por, José Gonçalves – Ministro do Evangelho, articulista, escritor.
Manual do Obreiro (CPAD) – 2006.

BIBLIOGRAFIA

1Almanaque Abril, Editora Abril, 2004, Sessão Religiões.
2 BURGESS, Stanley M. The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements. Zondervan, Grand Rapids, Michigan, USA, 2002.
3 CAMPOS Jr., Luiz de Castro. Pentecostalismo Sentidos da Palavra divina. Ed. Ática, São Paulo.
4 CAMPOS Jr., Luiz de Castro. O pentecostalismo. Op. Cit. p.13.
5 CHAMPLIN, Norman R. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Ed. Candeia.
6 CAMPOS Jr., Luiz de Castro. O pentecostalismo. Op. Cit. P.16.
7 CHAMPLIN, Norman R. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia. Ed. Candeia.
8 TARRY, Joe E. Avivamento: o propósito eterno de Deus –  dá vitória à confusão ecumênica.
9 MCGEE, Gary B. In: Teologia Sistemática, uma perspectiva Pentecostal. CPAD, Rio de Janeiro, 1996.
10 ROMEIRO, Paulo. Decepcionados com a graça. Mundo Cristão, São Paulo.
11 SIMPSON, A. B. As quatro dimensões do Evangelho. Editora Betânia, Venda Nova, Minas Gerais.
12 OSBORNE, G. O. In: Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Editora Betânia, Venda Nova, Minas Gerais.
13 OLIVEIRA, Raimundo. A doutrina Pentecostal hoje. CPAD, Rio de Janeiro.
14 The New International Dictionary of Pentecostal Movements.
Zondervan, Grand Rapid, Michigan, EUA.
15 KURTIS, A. Kenneth. Os 100 fatos mais importantes da História do Cristianismo. Editora Vida, São Paulo.
16 MILLER, Steve. Liderança espiritual segundo Moody. Editora Vida, São Paulo, SP.
17 FISCHER, Harold A. Avivamentos que avivam. Trad. O. S. Boyer, Pindamonhangaba, SP.
18 MILLER, Steve. Liderança espiritual segundo Moody. Editora Vida, São Paulo, SP.
19 Ibdem.
20 MILLER, Steve. Op. Cit. pág. 72-73.
21 OLIVEIRA, Raimundo. A doutrina Pentecostal hoje. CPAD, Rio de Janeiro. Op. Cit.
22 WHITE, John. Quando o Espírito vem com poder. Op. Cit.
23 MENZIES, William W., Robert P. No poder do Espírito, fundamentos da experiência Pentecostal. Ed. Vida, São Paulo, SP.
24 WHITE, John. Quando Espírito vem com poder. Op. Cit.
25 LOVETT, L. The New International Dictionary of Pentecostal and Charismatic Movements.
Zondervan, Grand Rapids, Michigan, USA.
26 TORREY, R. A. O batismo no Espírito Santo. Editora Betânia, Belo Horizonte, Minas Gerais.
27 Ibdem.
28 McGEE, Gary In: Teologia Sistemática, uma perspectiva pentecostal. CPAD, Rio de Janeiro.

março 31, 2008 at 1:25 am 2 comentários

Governo Eclesiástico

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Sempre, na história das controvérsias cristãs, houve um luta para saber qual era o modelo de governo eclesiástico mais bíblico. O fato é que todos os modelos de governos eclesiásticos (congregacional, episcopal e presbiteriano) se baseiam no Novo Testamento. O episcopal concede o poder para o seu pastor ou bispo, o presbiteriano concede poder aos presbitério da igreja e o congregacional concede poder aos seus membros ou a um conselho de irmãos reunidos.

Há tentações em todos os modelos. O episcopal pode concentrar um poder tão grande na mão do pastor, que ele se torna uma pessoa acima da crítica e não prestas contas a igreja. O presbiteriano pode criar uma elite dentro da congregação ou denominação, pois um pequeno grupo decide sobre os demais. O congregacional pode minar a autoridade do pastor local. Portanto, não temos como definir um modelo eclesiástico mais bíblico, pois todos tem pontos fortes e fracos.

A Assembléia de Deus começou com um modelo congregacional bem definido, aja vista a herança eclesiológica batista, que é congregacional. O modelo congregacional fica bem claro nas palavras do pastor assembleiano Alcebiades Pereira dos Vasconcelos, no Mensageiro da Paz, nº 10, de 1959:

No nosso entender, a igreja cristã biblicamente entendida, governa-se a si mesma, mediante o sistema democrático em que todos os seus membros livremente podem e devem ouvir e ser ouvidos e ser ouvidos, votar e ser votados, conforme a sua capacidade pessoal de servir(…) A igreja cristã, à luz do Novo Testamento, é uma democracia perfeita, em qual o pastor e seus auxiliares de administração (tenham as categorias ou denominações que tiverem) não dominam, pois quem domina sobre ela é Jesus, por mediação do Espírito Santo, sendo o pastor apenas um servo que lidera os trabalhadores sob guia do mesmo Espírito Santo; e, neste caso, é expressa e taxativamente proibido ter domínio sobre a igreja. I Pedro 5.2,3. [1]

Os pentecostais clássicos sempre tiveram uma tendência para a democracia na igreja, um modelo em que a congregação tinha voz, o teólogo Myer Pearlman deixa bem claro essa posição:

As primeiras igrejas eram democráticas em seu governo- circunstância natural em uma comunidade onde o dom do Espírito Santo estava disponível a todos , e onde toda e qualquer pessoa podia ser dotada de dons para um ministério especial. É verdade que os apóstolos e anciãos presidiam às reuniões de negócios e à seleção dos oficiais; mas tudo se fez em cooperação com a igreja (Atos 6.3-6; 15.22, I Co 16.3, II Co 8.19, Fp 2.25). E Pearlman completa: Nos dias primitivos não havia nenhum governo centralizado abrangendo toda a igreja. Cada igreja local era autônoma e administrava seus próprios negócios com liberdade. [2]

No decorrer do tempo, a Assembléia de Deus, não deixando de ser congregacional, passou a mesclar com o modelo episcopal e presbiteriano. Hoje, é comum a figura o pastor-presidente, um verdadeiro bispo regional. Nas Assembléias de Deus há traços do modelo presbiteriano, com as convenções ou concílios regionais e nacionais (CGADB e Conamad). A Assembléia de Deus, portanto, não tem um modelo eclesiástico puro. O Rev. Antônio Gouvêa Mendonça, comenta em relação a Assembléia de Deus:

Seu sistema de governo eclesiástico está mais próximo do congregacionalismo dos batistas por causa da liberdade das Igrejas locais e da limitação de poderes da Convenção Nacional. Todavia, a divisão em ministérios regionais semi-autônomos lembra um pouco o sistema presbiteriano.[3]

Alguns fatos interessantes: em cidades do interior, as Assembléias de Deus são bem congregacionais, pois a igreja em constantes assembléias, decidem o rumo da congregação juntamente com o pastor. As igrejas AD da capital são normalmente divididas em setores, com a figura presente do pastor-presidente, sendo mais um modelo episcopal. Mas as congregações das cidades interioranas e da metrópole estão sujeitas a convenção estadual e nacional, semelhante aos supremos concílios presbiterianos.

A Assembléia de Deus foi influenciada por várias denominações, desde de sua eclesiologia até a sua teologia. Exemplo dessa mistura esteve nas palavras do pastor Thomas B. Barrat, de Oslo, Noruega em 1914, que disse: “Com respeito à salvação, somos luteranos. Na forma do batismo pelas águas, somos batistas. Com respeito à santificação, somos metodistas. Em evangelismo agressivo, somos como o Exército da Salvação. Porém, com respeito ao batismo com o Espírito Santo, somos pentecostais!”

O lamentável é o fato de muitas igrejas Assembléia de Deus aderindo a um modelo episcopal, abandonado a tradição congregacional. Mais o modelo episcopal, hoje adotado não é o mesmo dos metodistas ou anglicanos, mas sim das igrejas neopentecostais, onde a figura do líder é centralizadora, um modelo episcopal levado ao extremo.

Referências Bibliográficas:

01.ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. 1 ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2007. p 338.

02. PEARLMAN, Myer. Conhecendo as Doutrinas da Bíblia. 8 ed. São Paulo: Vida, 1984. p 225.

03. MENDONÇA, Antônio Gouvêa e FILHO, Prócoro Velasques. Introdução ao Protestantismo no Brasil. São Paulo: Edições Loyola, 1990. p 51

Autor: Gutierres Siqueira, publicado no Blog Logos News.(www.logosnews.blogspot.com)

janeiro 14, 2008 at 12:52 pm Deixe um comentário

Entrevista com o pastor Isael de Araújo

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Isael de Araújo é ministro do evangelho, pesquisador da história das Assembléias de Deus, co-autor do livro História das Assembléias de Deus no Brasil (1982), formado em Teologia, com estudos na área editorial pelo Internacional Christian Publishing Institute (ICPI) da Cook Ministries (Colorado, Springs, EUA) e chefe do setor de Obras Especiais da CPAD.
Em novembro a CPAD lançou o Dicionário do Movimento Pentecostal, de autoria da Pr. Isael de Araújo. A obra já começou como um sucesso editorial, sendo o livro mais vendido pela editora no mês de novembro.
Acompanhe a entrevista com o Pr. Isael de Araújo para o Blog Teologia Pentecostal:

Blog Teologia Pentecostal- Qual o motivo que o levou a escrever o Dicionário do Movimento Pentecostal?

Pr. Isael de Araújo- Há mais de dez anos, quando chefiava o setor de livros estrangeiros da CPAD, conheci o Dicionário Internacional do Movimento Pentecostal e Carismático, em inglês. Fiquei encantado com a proposta da obra. Numa reunião de rotina para definir quais obras seriam traduzidas e publicadas no Brasil, analisamos a referida obra. Mas, embora a direção da CPAD achasse bastante interessante a obra considerando o Brasil como uma das maiores expressões do pentecostalismo, a editora não queria simplesmente traduzir o original em inglês, pois, dentre alguns problemas existentes, a obra não refletia a realidade da igreja pentecostal brasileira. Considerando todo o meu envolvimento com pesquisas sobre a história das Assembléias de Deus e o pentecostalismo, então me apresentei para desempenhar a tarefa de elaborar uma obra nacional.

BTP- O Dicionário do Movimento Pentecostal se propõem a ser um registro histórico do pentecostalismo. Qual é a importância de resgatar a história do Movimento Pentecostal para a igreja hodierna?

IA- O Dicionário não se trata de um registro puro e simples da história de pioneiros, movimentos e denominações. No primeiro momento é esta a visão que se tem. Mas a obra vai além disso. Um grande objetivo que me propus a alcançar foi mostrar o inter-relacionamento das informações, de tal forma que o leitor possa compreender que o pentecostalismo da atualidade não é algo estanque, mas que houve uma evolução e que o passado nos ajuda avaliarmos a igreja hodierna. Acredito que, se os crentes pentecostais conhecessem mais o pentecostalismo, menos se distanciariam dele.

BTP- É comum, os críticos do pentecostalismo acusarem o Movimento Pentecostal de deficiência doutrinária. Porém o moderno pentecostalismo nasceu em um Instituto Bíblico com Charles Fox Parham, e hoje tem eruditos de destaque como Stanley M. Horton e Gordon Fee. Qual era a visão de importância à doutrina e teologia dada por parte dos primeiros pentecostais?

IA- Essa crítica faz parte do contexto do chamado “efeito-pêndulo” da história da igreja. Uma época a ênfase recaía nas emoções, outra no intelecto. O século 19 e início do 20 foram marcados pelo liberalismo teológico (ênfase no intelecto). Então, o pentecostalismo foi visto como a guinada para a emoção. Por um lado, passou a sofrer crítica dos intelectuais e por outro, muitos de seus líderes faziam tudo para não serem vinculados com a “letra” que mata a fé. Todavia, havia, sim, lugar para a doutrina e a teologia. Diria que muito mais que na atualidade. Os primeiros pentecostais eram bastante fundamentalistas e a “pedra de toque” do fundamentalismo era aceitação e o estudo da Bíblia Sagrada como um todo. É deficiência doutrinária crer no batismo no Espírito Santo de que trata a Bíblia?

BTP- Qual foi a principal mudança no cenário assembleiano brasileiro, quando os missionários norte-americanos substituíram os suecos na metade do século XX?

IA- Nunca houve substituição nas Assembléias de Deus de missionários suecos por missionários norte-americanos. Até porque, a Missão Americana decidiu enviar, oficialmente, missionários para o Brasil em 1936, portanto, nas primeiras décadas e não na metade do século. Logo, também, nunca houve mudança no cenário assembleiano. O sistema eclesiológico e doutrinário deve muito mais aos missionários suecos do que aos americanos.

BTP- Há uma divisão comum na Sociologia da Religião, entre pentecostais clássicos ou de primeira-onda (Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil, com ênfase na glossolalia e nos dons espirituais), deuteropentecostais ou pentecostais da segunda-onda (Igreja do Evangelho Quadragular, O Brasil Para Cristo, Deus é Amor etc, com ênfase na cura divina) e neopentecostalismo (Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo etc, com ênfase na cura divina, exorcismo e prosperidade financeira). Essa divisão explica de maneira satisfatória o Movimento Pentecostal no Brasil?

IA- Não. Ainda precisamos saber a fundo o que é pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo. Por enquanto, está mais para rótulo do que definição.

BTP- Do ponto de vista histórico, quais os fatores que levaram o evangelicalismo a desenvolver o neopentecostalismo?

IA- É um caso que requer mais estudos. É mais fácil explicar evangelicais desenvolver as doutrinas básicas do pentecostalismo que as práticas neopentecostais. Temos que considerarmos também que o evangelicalismo no Brasil não foi tão expressivo quanto nos Estados Unidos. Sobre o evangelicalismo norte-americano no contexto pentecostal, possuo material.

BTP- O denominado neopentecostalismo pode ser considerado como um novo pentecostalismo, uma evolução do pentecostalismo ou, até mesmo, um anti-pentecostalismo?

IA- Acho que para responder a esta pergunta, temos que encontrar a resposta daquela pergunta sobre as divisões do Movimento Pentecostal.

BTP- O pentecostalismo no Brasil e na América-Latina é muito forte, mas o mesmo não acontece nos Estados Unidos e na Europa. O pentecostalismo é um fenômeno de países subdesenvolvidos?

IA- É um equívoco explicar o crescimento do pentecostalismo relacionando-o ao contexto sócio-econômico do lugar. Tenho bastante argumentos para justificar o que estou afirmando. Por ora, posso lembrar que o pentecostalismo já foi muito forte nos Estados Unidos e na Europa quando essas regiões do planeta também já eram bem mais desenvolvidas que o Brasil e a América Latina. O pentecostalismo pode ser forte em qualquer nível social, desde que os cristãos dêem lugar a ação do Espírito Santo.

BTP- Hoje se observa uma aproximação entre igrejas reformadas e pentecostais clássicos, mas há outros pentecostais que se aproximam a cada dia do neopentecostalismo. Qual tendência prevalecerá? É possível prever?

IA- Como prever tendências se a obra do Espírito Santo é um movimento? Eu não consigo. Alguém consegue? Ou seja, uma hora temos conhecimento de igrejas tradicionais enfatizando a manifestação do Espírito Santo, em outra, vemos igrejas pentecostais tradicionais pondo em prática a liturgia dos cultos e ensinos do chamado neopentecostalismo. Ambos, afirmam ser isto o resultado do “mover do Espírito”.

BTP- Como foi a experiência de trabalhar em importantes obras publicadas pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), como o livro Verdade Absoluta de Nancy Percey e Comentário Bíblico Pentecostal de French L. Arrington e Roger Strostad? A CPAD seguirá um caminho mais acadêmico, como tem mostrado nos últimos anos?

IA- É um grande privilégio ser funcionário e autor pela CPAD. O caminho que a Casa está seguindo atualmente tem sido visto e admirado por todo o povo evangélico brasileiro. Agora, quanto aos seus rumos editoriais, não posso falar aqui em nome da editora. Apenas, uma correção: o livro Verdade Absoluta teve seus originais preparados no Setor de Livros Estrangeiros e não no de Bíblias e Obras Especiais que chefio.

Acesse: www.dicionariomovimentopentecostal.blogspot.com/

dezembro 14, 2007 at 10:59 am 2 comentários


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