Archive for dezembro, 2007

O Cristianismo anti-Ortodoxia

       

Se não tornarmos clara nossa posição, com palavras e obras, em favor da verdade e contra as falsas doutrinas, estaremos edificando um muro entre a próxima geração e o evangelho.(Francis Schaeffer)

A questão não é se uma doutrina é bela, mas se ela é verdadeira. (Anônimo)

Não, essa não é uma crítica as doutrinas ou práticas dos neopentecostais. O artigo quer alertar para um movimento crescente no meio evangélico da atualidade, um cristianismo anti-Ortodoxia. Sendo filha da pós-modernidade, esse movimento tem crescido assustadoramente em meio de pensadores, teólogos e filósofos protestantes. Uma das vítimas dessa nova corrente é a apologética, que foi tão prestigiada pelos teólogos do Século XX, e agora é tachada como ortodoxolatria, gnosticismo cristão, e de modo pejorativo os apologistas são tachados de xiitas cristãos e “busca-dores” da reta doutrina.

Após o Teísmo Aberto ter entrado no Brasil com unhas e dentes, essa teologia trouxe, no seu bojo filosófico, outros pensamentos estranhos ao cristianismo histórico. Para justificar essa corrente que distorce o pensamento bíblico sobre a pessoa de Deus, os promotores resolveram apelar para um debate de cunho emocional. O amor passou a ser visto como algo superior a verdade, a paixão pelos oprimidos passou a ser mais importante que a defesa da doutrina. Ortodoxia passou a ser vista com sinônimo de Religião, que se tornou uma palavra pejorativa na era pós-moderna da espiritualidade.

A ortodoxia hoje é vista como um demônio. Demônio este que separa igrejas, que matas homens, que separa famílias, que causa discriminações e que até crucificou Jesus no Gólgota. O movimento anti-Ortodoxia não vê diferença entre a apologética cristã e os homens-bomba do Talibã islâmico.

Nessa visão de libertação da ortodoxia, é correto afirmar que o Teísmo Aberto no Brasil casou-se com a Teologia da Libertação, como conseqüência, a idéia de associar o cristianismo a libertação das classes oprimidas é muito forte na cabeça de muitos teólogos. Em poucos anos os pensamentos de Gustavo Gutierrez e Leonardo Boff foram ressuscitados por alguns protestantes.

Dentro desse grupo há um resgate da teologia neo-ortodoxa de Karl Barth e liberal de Friedrich Schleiermacher, Paul Tillich, Rudolf Buttman. Em sua fome de combater o “fundamentalismo protestante calvinista norte-americano”, o grupo se volta às vãs filosofias da Alemanha.

No discurso dos apologetas da anti-ortodoxia, o neopentecostalismo e o fundamentalismo protestante, assim como o evangelicalismo reformado são colocados em um mesmo saco: o saco da ignorância e da opressão religiosa. Defender algumas doutrinas bíblicas passou a ser vista com a defesa de uma linha de pensamento: o calvinismo. Mas aceitar as doutrinas da onisciência, soberania, onipotência, imutabilidade de Deus, não é prerrogativa calvinista ou arminiana, mas de todos aqueles que baseiam suas crenças na infalível Palavra de Deus.

A ortodoxia generosa faz jus ao nome, pois busca um deus e uma teologia, politicamente correta. Essa “nova teologia” é baseada no sentimento de liberdade apregoado por teólogos, que apesar de terem o nome de cristãos, nunca mostraram o valor pela salvação eterna em Cristo Jesus. Os defensores da anti-ortodoxia tem muita base filosófica e teológica para os seus argumentos, mas dificilmente podem defender esse ponto de vista por meio da Bíblia, principalmente pelas cartas paulinas e joaninas, que são tratados apaixonados pela verdade.

Amor e Verdade

Seria o amor maior do que a verdade? Biblicamente a resposta é não! João, conhecido como o apóstolo do amor, escreveu uma carta a “senhora eleita”, e disse: “Por amor da verdade que está em nós… Muito me alegro por achar que alguns de teus filhos andam na verdade” (v. 2 e 4) O amor não despreza a verdade e a verdade bíblica não despreza o amor. Isso é um princípio bíblico. Muitos separam amor, obediência e apreço pela verdade; mas na segunda missiva de João, fica claro que essas três palavras são inseparáveis. Como afirmou o Dr. Augustus Nicodemus: “Essa acusação reflete o sentimento pluralista e relativista que permeia a mentalidade evangélica de hoje e que considera todo confronto teológico como ofensivo”. ¹ E como lembra David Limbaugh: “Portanto, até que ponto se amoroso é torna-se cúmplice da destruição da própria verdade, a ponto do esvaziamento do próprio evangelho? Ser sensível é ajudar as pessoas a se afastarem do caminho da vida?”²

Quando mais uma pessoa conhece a verdade bíblica, mas ele será liberta, como disse Jesus: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8:32). Por que falar de liberdade jogando fora a ortodoxia? É claro que algumas “verdades” expostas por cristãos equivocados, podem causar neurose em outros cristãos mais frágeis, principalmente no que se refere a uma imagem falsa de Deus ou um ensino legalista de vida cristã. Mas como afirmado, isso é fruto de uma compreensão falsa das doutrinas bíblicas, e não produto da ortodoxia.

Seriam a ortodoxia propriedade da burguesia e a heresia as palavras do oprimido? Esse pensamento é fruto de ignorância histórica e da contaminação de uma cosmovisão marxista no cristianismo, pois os grandes hereges nunca foram pequenos. Do ponto de vista de Deus e consequentemente de sua Palavra, os grandes hereges foram bispos e pontífices importantes, fariseus imponentes e saduceus arrogantes. Heresia é uma tentação que não olha classe social ou região geográfica, mas sim deficiência diante da Palavra.

O desejo de ser amoroso é pratico no movimento anti-ortodoxia? A realidade diz que não! Pois há uma pergunta importante aos teólogos da esperança e os profetas da libertação: Onde estão os seus grandes orfanatos, casas de recuperação de drogados e assistência humanitária as prostitutas de rua? Quem tem trazido mais dignidade para muitos moradores de favela ou sertanejos na seca? Seriam as chamadas “comunidades de base” ou muitos pentecostais simples que procuram viver em comunidade prestativa de modo natural?

Metamorfose ambulante

Esse movimento anti-ortodoxia seria muito apreciado por Raul Seixas, pois ele apregoava o desejo de ser uma “metamorfose ambulante”, pois seria muito desagradável “ter aquela velha opinião formada sobre tudo”. Teologia com ortodoxia é velha opinião formada sobre tudo, e isso é abominável para esses neo-ortodoxos. Pois assim como Raul Seixas, esses teólogos bebem do pensamento pós-moderno, que despreza as bases estabelecidas, com diversos argumentos de passividade. Como afirmou o teólogo batista Luiz Sayão:

A idéia da supremacia do fluxo do tempo desemboca na rejeição de outras categorias fixas. A única categoria é o próprio tempo, o novo senhor absoluto. Com esse pressuposto, já não podemos ter teologia e ética definidas e claras. Embora a Bíblia seja um livro de orientações muito cristalinas sobre Deus, a salvação e o propósito da vida (2 Tm 3.16,17; 2 Pe 1.19-21), para muitos evangélicos, a teologia “maluco beleza” é preferível.³

Um deus em processo produz uma teologia em processo, que está em evolução. O fixo, o estável, o certo, o reto são palavrões para uma teologia em metamorfose. A busca pela revolução teológica é constante nesse meio, e apesar das duras críticas aos neopentecostais por parte do movimento anti-ortodoxia, eles são tão pragmáticos em sua doutrina como os promotores de modismos.

A anti-Ortodoxia é um perigo transvertido de poesia e lindas palavras teológicas, onde o teísmo aberto e a teologia da libertação se casaram. Esse Movimento que é filho da pós-modernidade, procura adequar o evangelho aos pensamentos mundanos e as vãs filosofias contemporâneas. A ortodoxia é fruto de reflexão bíblica, onde o sangue de muitos cristãos foi derramado em sua defesa. E que assim a doutrina reta possa assim continuar!

Referências Bibliográficas:

01- NICODEMUS, Augustus. Falta de Amor? O Temporas, O Mores. Disponível em: http:// tempora-mores.blogspot.com/2007/09/falta-de-amor.html. Acesso em: 12/12/2007

02. GEISLER, Norman & TUREK, Frank. Não tenho fé suficiente para ser ateu. São Paulo: Editora Vida, 2006, p. 10.

03- SAYÃO, Luiz. Raul Seixas e a Bíblia. Revista Enfoque Gospel. Edição 64 – NOV / 2006.

Autor: Gutierres Siqueira

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dezembro 28, 2007 at 5:47 pm Deixe um comentário

OS AVIVAMENTOS ATRAVÉS DA HISTÓRIA

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Autor: Antonio Gilberto, consultor doutrinário da CPAD

Deus é infinitamente poderoso para ainda hoje derramar sobre nós o seu Espírito como um rio transbordante, da mesma maneira como fez no passado.

IRINEU (130-200dC), bispo de Lyon, na Gália.

Declarou que no seu tempo muitos cristãos falavam línguas estranhas pelo Espírito e tinham dons, inclusive o de profecia. Irineu foi discípulo de Policarpo, bispo de Esmirna, que, por sua vez, fora discípulo de João, o apóstolo.

JUSTINO MÁRTIR (100-165dC).

Nasceu na Palestina, converteu-se em Éfeso e morreu em Roma. Nos seus escritos, mencionou os dons espirituais em evidência nos seus dias, inclusive o dom de línguas estranhas pelo Espírito Santo.

ORÍGENES (185-254dC), teólogo de renome.

Afirmou que os dons espirituais, inclusive o de línguas, eram um facto notório nos seus dias.

CRISÓSTOMO (347-407dC), patriarca de Constantinopla.

No sentido eclesiástico oriental, o termo “patriarca” designa um bispo investido de prerrogativas e precedências especiais. Crisóstomo relatou um caso em que três membros da sua igreja falaram pelo Espírito Santo em persa, latim e hindu.

AGOSTINHO (354-430dC), bispo de Hipona, no Norte de África.

Deu testemunho de que as línguas estranhas estavam em evidência no seu tempo.

WALDENSES e ALBIGENSES (1140-1280dC).

Isso no Sul da Europa, em plena Idade Tenebrosa – a Era Medieval. Eles eram dissidentes da Igreja Romana, seguidores dos princípios bíblicos da salvação e da vida cristã em geral. Os historiadores afirmam que entre eles havia manifestações espirituais em línguas estranhas, segundo o Novo Testamento.

LUTERO (1483-1546).

Falava em línguas e profetizava, conforme depoimento histórico do Dr. Jack Deer, eminente professor e historiador baptista, do Seminário Teológico de Dallas. Essa informação também é encontrada nas obras História da Igreja Alemã, de Souer (volume 3, pág. 406) e Pentecostes para Todos, de Emílio Conde, pág. 88.

ANABAPTISTAS da Alemanha (1521-1550).

Havia entre eles manifestações do Espírito, inclusive dons espirituais e línguas estranhas, como regista a história.

HUGUENOTES (1560-1650). Eram, na França, protestantes, dissidentes quanto à forma de governo da época, no respeitante à liberdade religiosa. O historiador A. A. Boddy assim escreveu: “Durante a perseguição dos huguenotes, a partir de 1685, havia entre eles os que falavam em línguas, transbordantes de fervor espiritual”.

QUAKERS (1647-1650) e os SHAKERS (1771-1774).

Eram cristãos organizados em grupos distintos, no Nordeste da América do Norte, região da Nova Inglaterra. Dos Quakers (tremedores) e Shakers (puladores), diz a obra História da Igreja, de Philip Schaff, edição de 1882, que entre esses grupos havia manifestação de dons espirituais, inclusive línguas estranhas.

METODISTAS primitivos. Líder: João Wesley (1703-1791), inglês. O historiador Philip Schaff, na sua História da Igreja, edição de 1882, relata que esses metodistas pugnavam por uma vida santa e muitos tinham dons espirituais e falavam línguas. O movimento avivalista metodista começou em 1739, em Londres. Foi no Metodismo que teve maior expressão e vulto o Movimento da Santidade, na América do Norte, entre determinadas igrejas tradicionais, após o início do século XIX, do qual, quase um século depois, surgiu o atual Movimento Pentecostal.

IRVINGISTAS. Líder: Edward Irving (1822-1834), presbiteriano, da Igreja Escocesa de Londres. Irving testemunhou, entre outros factos, que, em 1831, uma irmã solteira, por nome Hall, cheia do Espírito Santo, falou em línguas num culto de oração. A Igreja Presbiteriana local, forçou o pastor Irving a renunciar ao seu pastorado por causa do avivamento que estava ocorrendo e seiscentos membros da igreja da Regent Square, de lá saíram com aquele pastor. Isso também está averbado na obra citada acima, de Schaff.

D. L. MOODY (1837-1899), poderoso evangelista e avivalista norte-americano. Ele era baptista e pregava a salvação em Cristo de modo diferente e objectivo. Pregava a plenitude do Espírito Santo e uma vida cristã cheia do poder do alto. Acerca da sua marcante cruzada cristã evangelística de Londres, em 1873 escreveu Robert Boyd: “Moody pregou à tarde no Auditório da Associação Cristã de Moços, em Sunderland. Em pleno culto houve manifestação de línguas estranhas e profecia. O fogo espiritual dominava o ambiente” (Moody and Sankey in Great Britain, 1875). Há muitos outros exemplos de que, ao longo da história, o Espírito Santo vem sendo derramado sobre aqueles que o buscam. A mundialmente conhecida e respeitada Enciclopédia Britânica, declara: “A glossolália (o falar noutras línguas) esteve em evidência em todos os avivamentos da história da igreja” (volume 22, pág. 282, ano 1944).

O declínio espiritual da igreja

A igreja do primeiro século, pelo poder do Espírito Santo, tornou-se uma força invencível para levar o Evangelho de Cristo aos lugares mais remotos da Terra e conquistou almas para Deus em todos os locais do poderoso Império Romano, até no palácio do imperador César, como se lê em Filipenses 1:13 e 4:22. No fim do primeiro século, a espiritualidade da igreja já havia arrefecido (Apocalipse 2:4,15,20; 3:16-18). Era tão decadente o seu estado que, para cinco das sete igrejas locais mencionadas em Apocalipse 2 e 3, a mensagem do Senhor foi: “Arrepende-te” (2:5,16,22;3:3,19). Nos dias do imperador Constantino, já no quarto século, a igreja foi tutelada pelo Estado, ganhando muita fama. Mas isso fê-la perder espiritualidade e poder. A decadência continuou até que ela se transformou numa organização humana na Idade Média (500-1500dC), em vez de ser um organismo divino, como Corpo de Cristo, como revela o Novo Testamento. Como já vimos, Martinho Lutero foi um homem que experimentou a presença poderosa do Espírito Santo. Deus levantou esse baluarte cristão, por quem a doutrina bíblica fundamental da justificação pela fé foi restaurada à igreja. Lutero foi o instrumento de Deus para desencadear o Movimento da Reforma Religiosa em 1517.

Outros movimentos avivalistas que se seguiram foram pelo Senhor usados para o retorno de outras doutrinas essenciais, como:

a) O avivamento liderado por Wesley – A doutrina da santificação.

b) Os morávios – As missões.

c) O Exército de Salvação – A evangelização e a acção social da igreja.

d) O Movimento Pentecostal – A dotação de poder do alto, mediante o baptismo no Espírito Santo, com a evidência física inicial no falar noutras línguas pelo Espírito, como ocorreu quando o Senhor Jesus baptizou os salvos pela primeira vez, em Jerusalém (Atos 2:1-4). Um exame da história, do ponto de vista religioso, mostra que os trinta anos que precederam o século XIX (1870-1900) foram, na igreja cristã em geral, de declínio espiritual, de disputas teológicas acirradas e vazias, de enfraquecimento na fé cristã, de “cristianismo” formal, de rejeição do sobrenatural, de profissionalismo ministerial, de inactividade na evangelização do mundo e de conformismo quanto à frieza espiritual. Ao mesmo tempo, em diferentes pontos do globo, pequenos grupos de homens e mulheres, movidos por Deus, confessando os seus pecados com arrependimento, clamavam a Deus em oração e jejum por um avivamento de busca da Palavra de Deus, de tristeza e repúdio pelo pecado – um avivamento de santidade e de derramamento de poder do alto para reavivar a igreja. Entre muitos líderes da igreja de então reacendeu a convicção de que há para o crente um baptismo no Espírito Santo subsequente à conversão como afirma Actos 1:4-5. Surgiu também, no íntimo deles, um incontido clamor pela evangelização do mundo, mediante missões estrangeiras, bem como a busca das operações sobrenaturais de Deus, como é o caso da cura divina e demais milagres, segundo as Escrituras. Já nesse tempo de sequidão espiritual, como regista a história, houve, em diferentes pontos do globo, muitos casos de cura divina e baptismo no Espírito Santo, com a manifestação de línguas estranhas.

Fonte: Mensageiro da Paz (CPAD) de Setembro de 2007

  

dezembro 19, 2007 at 10:55 am 7 comentários

Entrevista com o pastor Isael de Araújo

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Isael de Araújo é ministro do evangelho, pesquisador da história das Assembléias de Deus, co-autor do livro História das Assembléias de Deus no Brasil (1982), formado em Teologia, com estudos na área editorial pelo Internacional Christian Publishing Institute (ICPI) da Cook Ministries (Colorado, Springs, EUA) e chefe do setor de Obras Especiais da CPAD.
Em novembro a CPAD lançou o Dicionário do Movimento Pentecostal, de autoria da Pr. Isael de Araújo. A obra já começou como um sucesso editorial, sendo o livro mais vendido pela editora no mês de novembro.
Acompanhe a entrevista com o Pr. Isael de Araújo para o Blog Teologia Pentecostal:

Blog Teologia Pentecostal- Qual o motivo que o levou a escrever o Dicionário do Movimento Pentecostal?

Pr. Isael de Araújo- Há mais de dez anos, quando chefiava o setor de livros estrangeiros da CPAD, conheci o Dicionário Internacional do Movimento Pentecostal e Carismático, em inglês. Fiquei encantado com a proposta da obra. Numa reunião de rotina para definir quais obras seriam traduzidas e publicadas no Brasil, analisamos a referida obra. Mas, embora a direção da CPAD achasse bastante interessante a obra considerando o Brasil como uma das maiores expressões do pentecostalismo, a editora não queria simplesmente traduzir o original em inglês, pois, dentre alguns problemas existentes, a obra não refletia a realidade da igreja pentecostal brasileira. Considerando todo o meu envolvimento com pesquisas sobre a história das Assembléias de Deus e o pentecostalismo, então me apresentei para desempenhar a tarefa de elaborar uma obra nacional.

BTP- O Dicionário do Movimento Pentecostal se propõem a ser um registro histórico do pentecostalismo. Qual é a importância de resgatar a história do Movimento Pentecostal para a igreja hodierna?

IA- O Dicionário não se trata de um registro puro e simples da história de pioneiros, movimentos e denominações. No primeiro momento é esta a visão que se tem. Mas a obra vai além disso. Um grande objetivo que me propus a alcançar foi mostrar o inter-relacionamento das informações, de tal forma que o leitor possa compreender que o pentecostalismo da atualidade não é algo estanque, mas que houve uma evolução e que o passado nos ajuda avaliarmos a igreja hodierna. Acredito que, se os crentes pentecostais conhecessem mais o pentecostalismo, menos se distanciariam dele.

BTP- É comum, os críticos do pentecostalismo acusarem o Movimento Pentecostal de deficiência doutrinária. Porém o moderno pentecostalismo nasceu em um Instituto Bíblico com Charles Fox Parham, e hoje tem eruditos de destaque como Stanley M. Horton e Gordon Fee. Qual era a visão de importância à doutrina e teologia dada por parte dos primeiros pentecostais?

IA- Essa crítica faz parte do contexto do chamado “efeito-pêndulo” da história da igreja. Uma época a ênfase recaía nas emoções, outra no intelecto. O século 19 e início do 20 foram marcados pelo liberalismo teológico (ênfase no intelecto). Então, o pentecostalismo foi visto como a guinada para a emoção. Por um lado, passou a sofrer crítica dos intelectuais e por outro, muitos de seus líderes faziam tudo para não serem vinculados com a “letra” que mata a fé. Todavia, havia, sim, lugar para a doutrina e a teologia. Diria que muito mais que na atualidade. Os primeiros pentecostais eram bastante fundamentalistas e a “pedra de toque” do fundamentalismo era aceitação e o estudo da Bíblia Sagrada como um todo. É deficiência doutrinária crer no batismo no Espírito Santo de que trata a Bíblia?

BTP- Qual foi a principal mudança no cenário assembleiano brasileiro, quando os missionários norte-americanos substituíram os suecos na metade do século XX?

IA- Nunca houve substituição nas Assembléias de Deus de missionários suecos por missionários norte-americanos. Até porque, a Missão Americana decidiu enviar, oficialmente, missionários para o Brasil em 1936, portanto, nas primeiras décadas e não na metade do século. Logo, também, nunca houve mudança no cenário assembleiano. O sistema eclesiológico e doutrinário deve muito mais aos missionários suecos do que aos americanos.

BTP- Há uma divisão comum na Sociologia da Religião, entre pentecostais clássicos ou de primeira-onda (Assembléia de Deus e Congregação Cristã do Brasil, com ênfase na glossolalia e nos dons espirituais), deuteropentecostais ou pentecostais da segunda-onda (Igreja do Evangelho Quadragular, O Brasil Para Cristo, Deus é Amor etc, com ênfase na cura divina) e neopentecostalismo (Universal do Reino de Deus, Igreja Internacional da Graça de Deus, Renascer em Cristo etc, com ênfase na cura divina, exorcismo e prosperidade financeira). Essa divisão explica de maneira satisfatória o Movimento Pentecostal no Brasil?

IA- Não. Ainda precisamos saber a fundo o que é pentecostalismo clássico, deuteropentecostalismo e neopentecostalismo. Por enquanto, está mais para rótulo do que definição.

BTP- Do ponto de vista histórico, quais os fatores que levaram o evangelicalismo a desenvolver o neopentecostalismo?

IA- É um caso que requer mais estudos. É mais fácil explicar evangelicais desenvolver as doutrinas básicas do pentecostalismo que as práticas neopentecostais. Temos que considerarmos também que o evangelicalismo no Brasil não foi tão expressivo quanto nos Estados Unidos. Sobre o evangelicalismo norte-americano no contexto pentecostal, possuo material.

BTP- O denominado neopentecostalismo pode ser considerado como um novo pentecostalismo, uma evolução do pentecostalismo ou, até mesmo, um anti-pentecostalismo?

IA- Acho que para responder a esta pergunta, temos que encontrar a resposta daquela pergunta sobre as divisões do Movimento Pentecostal.

BTP- O pentecostalismo no Brasil e na América-Latina é muito forte, mas o mesmo não acontece nos Estados Unidos e na Europa. O pentecostalismo é um fenômeno de países subdesenvolvidos?

IA- É um equívoco explicar o crescimento do pentecostalismo relacionando-o ao contexto sócio-econômico do lugar. Tenho bastante argumentos para justificar o que estou afirmando. Por ora, posso lembrar que o pentecostalismo já foi muito forte nos Estados Unidos e na Europa quando essas regiões do planeta também já eram bem mais desenvolvidas que o Brasil e a América Latina. O pentecostalismo pode ser forte em qualquer nível social, desde que os cristãos dêem lugar a ação do Espírito Santo.

BTP- Hoje se observa uma aproximação entre igrejas reformadas e pentecostais clássicos, mas há outros pentecostais que se aproximam a cada dia do neopentecostalismo. Qual tendência prevalecerá? É possível prever?

IA- Como prever tendências se a obra do Espírito Santo é um movimento? Eu não consigo. Alguém consegue? Ou seja, uma hora temos conhecimento de igrejas tradicionais enfatizando a manifestação do Espírito Santo, em outra, vemos igrejas pentecostais tradicionais pondo em prática a liturgia dos cultos e ensinos do chamado neopentecostalismo. Ambos, afirmam ser isto o resultado do “mover do Espírito”.

BTP- Como foi a experiência de trabalhar em importantes obras publicadas pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus), como o livro Verdade Absoluta de Nancy Percey e Comentário Bíblico Pentecostal de French L. Arrington e Roger Strostad? A CPAD seguirá um caminho mais acadêmico, como tem mostrado nos últimos anos?

IA- É um grande privilégio ser funcionário e autor pela CPAD. O caminho que a Casa está seguindo atualmente tem sido visto e admirado por todo o povo evangélico brasileiro. Agora, quanto aos seus rumos editoriais, não posso falar aqui em nome da editora. Apenas, uma correção: o livro Verdade Absoluta teve seus originais preparados no Setor de Livros Estrangeiros e não no de Bíblias e Obras Especiais que chefio.

Acesse: www.dicionariomovimentopentecostal.blogspot.com/

dezembro 14, 2007 at 10:59 am 2 comentários

Movimento G-12

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Dr. Paulo Romeiro

Uma das características de grande parte da Igreja Evangélica Brasileira é a sua avidez por novidades. Vários segmentos evangélicos não se contentam mais com a antiga doutrina pregada pelos apóstolos e pais da Igreja — mais tarde defendida pelos Reformadores — e vivem numa busca constante de novidades e modismos doutrinários. Nos últimos anos, vimos vários ensinos e práticas controvertidos invadirem os púlpitos e infestarem a mídia evangélica, tais como: quebra de “maldições hereditárias”, “cura interior”, “confissão positiva”, “espíritos territoriais”, “mapeamento espiritual”, cultos de “libertação”, “galacionismo” (a tentativa de levar a Igreja à práticas e ensinos do Velho Testamento, como a guarda do Sábado e das festas de Israel), dentre muitos outros.

Uma das últimas novidades a invadir o arraial evangélico brasileiro chegou da Colômbia. Denominado G 12 (Grupo 12), esse é um movimento que propõe o crescimento das igrejas através de células, com reuniões nas casas. O principal protagonista do G 12 é César Castellanos Domínguez, líder da Missão Carismática Internacional, com sede em Bogotá. Entre 1989 e 1990, sua esposa Cláudia (com quem se casou em 1976) envolveu-se com a política, sendo candidata à presidência daquele país, ficando em quinto lugar no número de votos. Mais tarde, ela conseguiu eleger-se senadora. O casal tem quatro filhas: Joana, Lorena, Manuela e Sara Ximena.

Castellanos conta que depois de sua experiência com Cristo e de trabalhar como evangelista nas ruas de Bogotá, teve a oportunidade de pastorear pequenas igrejas, durante nove anos de ministério. A última delas só tinha 30 membros quando ali chegou, alcançando dentro de um ano, o número de 120 membros. Insatisfeito com os resultados conseguidos nessa igreja, ele renunciou ao pastorado.

Em fevereiro de 1983, enquanto passava férias numa praia colombiana, diz ter tido uma experiência com Deus, que o chamava para pastorear. No mês seguinte, iniciou na sala de sua casa a Missão Carismática Internacional, com apenas oito pessoas. Traçou depois um alvo para atingir o número de 200 membros. O líder colombiano confessa que foi grandemente influenciado por David (Paul) Yonggi Cho, da Coréia, que já vinha adotando por várias décadas o sistema de crescimento de igreja em células (também chamado de grupos familiares). Atualmente são muitos milhares que formam a família da igreja na Colômbia. Para o final de 1997, a meta de Castellanos era ter 30 mil células e 100 mil grupos. No ano 2000, seu alvo é ter um milhão de membros. Já pensou?

Já existem no Brasil várias pessoas e ministérios que abraçaram a visão de César Castellanos. Os que mais se destacam são Valnice Milhomens, muito conhecida pelos seus programas de TV, e Renê Terra Nova, líder da Primeira Igreja Batista da Restauração, em Manaus. A exemplo de Valnice, Renê já pertenceu também à Convenção Batista Brasileira. Valnice explica sua ligação com a Colômbia:

Tendo a convicção de que o modelo de Bogotá era a base para o modelo que Deus tem para nós, temos retornado às convenções para beber da fonte. Cremos que Deus deu ao Pr. César Castellanos o modelo dos doze que há de revolucionar a igreja do próximo milênio, pelo que o abraçamos inteiramente, colocando-nos sob sua cobertura espiritual dentro dessa visão revolucionária, fundada na Palavra de Deus. Tendo sido ungida como um de seus doze internacionais, estamos, como igreja, comprometidos em viver essa visão.1

POR QUE G 12?

César Castellanos explica porquê:

Pedi a direção do Senhor, e Ele prometeu dar-me a capacidade de preparar a liderança em menos tempo. Pouco depois abriu um véu em minha mente, dando-me entendimento em algumas áreas das Escrituras, e perguntou-me: ‘Quantas pessoas Jesus treinou?’ Começou desta maneira a mostrar-me o revolucionário modelo da multiplicação através dos doze. Jesus não escolheu onze nem treze, mas sim doze.2

Outros exemplos bíblicos são citados, como as 12 pedras no peitoral do sacerdote (Êx 28.29); também com 12 pessoas Jesus alimentou as multidões. Para reforçar o argumento de Castellanos, Valnice acrescenta:

Podemos notar que o número doze, nas Escrituras, é o número de autoridade e governo… O dia tem 24 horas, que são dois tempos de doze. Cada ano tem doze meses. O relógio não pode ser de 11 ou de 13 horas. Deve ser de doze horas, para que possamos administrar o tempo. Não foi um capricho de Jesus escolher doze homens. Ele sabia que estava ali a plenitude do ministério. Os fundamentos requeriam doze apóstolos.3

Penso que não há necessidade de se criar uma aura mística ao redor do número doze, pois há outros números na Bíblia que também despertam a atenção. Pense, por exemplo, no número três. Três é o número da Trindade. Três foram os presentes que os magos do Oriente ofertaram a Jesus. Três foram os principais patriarcas: Abraão, Isaque e Jacó. Três foi o número dos discípulos mais íntimos de Jesus: Pedro, Tiago e João. O número sete também é bastante sugestivo. Em sete dias Deus fez o mundo. Durante sete dias, o povo de Israel marchou em volta da cidade de Jericó, até conquistá-la. Instruído por Eliseu, Naamã mergulhou sete vezes no rio Jordão para ser curado de lepra. Sete foi o número dos diáconos escolhidos pelos apóstolos (Atos 6.5). Sete foram também as igrejas do Apocalipse. Agora, pense no número 40. Por 40 o povo de Israel peregrinou no deserto. Moisés esteve no monte durante 40 dias, jejuando e orando na presença de Deus. Jesus jejuou 40 dias no deserto, por ocasião de sua tentação.

COMO FUNCIONA O G 12

A igreja se divide em pequenos grupos denominados células. As pessoas são evangelizadas através das células, das reuniões na igreja ou de eventos evangelísticos. Depois de evangelizadas, começa o processo de consolidação. O novo adepto responderá um questionário chamado mapeamento espiritual, com uma grande variedade de perguntas sobre o passado da pessoa e de seus familiares. Algumas perguntas são bastante constrangedoras. Tal questionário vai dar ao líder da célula ou ao discipulador uma visão da jornada espiritual do novo discípulo. Em seguida, ele será levado a participar da célula, passando a construir novos relacionamentos.

Após esse processo inicial, a pessoa é estimulada (e muito) a passar pelos seguintes estágios:

1. Pré Encontro: Constituído de quatro palestras preparatórias para o encontro de três dias. Nessa fase, o discípulo recebe orientações sobre a Igreja, o senhorio de Cristo, mordomia e batismo.

2. Encontro: Um retiro espiritual de três dias, onde a pessoa receberá ministração nas áreas de arrependimento, perdão, quebra de maldições, libertação, cura interior, batismo no Espírito Santo e a visão da igreja. Cerca de 100 pessoas (jovens, mulheres, homens e crianças) são separadas um ou dois meses após a sua entrega na igreja e são levadas a um lugar distante do contexto familiar para serem ministradas. Para César Castellanos, o encontro equivale a todo um ano de assistência fiel à igreja.4

3. Pós Encontro: Quatro palestras para consolidação das vitórias alcançadas no Encontro.

4. Escola de Líderes: Formação em três estágios de três meses cada, para se tornar líder de célula e de grupo de doze.

5. Envio: Quando alguém começa uma célula de evangelismo a partir de três pessoas, tornando-se líder de célula. Depois de sua célula consolidada, ele começa a formação do seu grupo de doze para discipulado, tornando-se líder de doze. Consolidado seu grupo de 12, ele estimula a cada um a formar seu grupo de doze. Surge então o líder de 144, e assim por diante.

PRÁTICAS QUE PREOCUPAM

Não há nada de errado em dividir a igreja em células ou grupos familiares para reuniões nos lares ou outros locais. Muitas igrejas ao redor do mundo têm feito isso e até com bons resultados. Dependendo da região ou da cultura onde se aplica o processo, pode ser uma boa idéia ou não. Creio que um dos fatores que muito contribuiu para o crescimento da Assembléia de Deus no Brasil foi o culto doméstico. Lembro-me de que quando me converti na Assembléia de Deus de São José dos Campos, SP, em 1971, o culto doméstico era uma parte importante da programação da igreja. Eu mesmo participei intensamente de tais programações. As reuniões nos lares eram usadas para a evangelização dos perdidos e para a edificação dos crentes. Não havia aberrações doutrinárias.

Um dos problemas em relação ao G 12 é a inserção de práticas, conceitos e ensinos nada bíblicos, tais como quebra de maldições hereditárias, cura interior, mapeamento espiritual, escrever os pecados em pedaços de papel e queimá-los na fogueira, revelações extrabíblicas e outros. No meu livro Evangélicos em Crise (Editora Mundo Cristão), tratei, de forma abrangente, de algumas dessas aberrações.

Outra coisa intrigante é a proibição taxativa de se relatar o que se passa nos encontros. Conversei com várias pessoas que participaram e elas me falaram que a única coisa que poderiam dizer do encontro é: “o encontro é tremendo”. Observe uma das normas do Encontro: “Não se pode mencionar muitas coisas sobre o Encontro, porque o mesmo trás consigo muitas surpresas e todos os seus participantes comprometem-se a não revelar absolutamente nada do que receberam lá”.5

Acho isso realmente muito estranho. Ora, quando alguém recebe bênçãos de Deus, quando Deus faz uma grande obra numa pessoa ou no meio de um povo, o mais natural e bíblico é dar testemunho, é contar o que Deus fez. Tal proibição não tem base bíblica. Ao contrário. Observe a declaração de Jesus diante do sumo sacerdote: “Respondeu-lhe Jesus: Eu falei abertamente ao mundo; sempre ensinei nas sinagogas e no templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada disse em segredo” (João 18.20). Paulo escreveu a Timóteo: “E as coisas que me ouviu dizer na presença de muitas testemunhas, confie a homens fiéis que sejam também capazes de ensinar a outros” (2 Timóteo 2.2). Portanto, não há por que ficar escondendo informações dos demais. Isso mais parece “maçonaria evangélica”.

O G 12 assume também uma postura exclusivista. Ele é apresentado como a única tábua de salvação para a igreja, o último movimento de Deus na terra, a única solução para a salvação das almas. É apresentado ainda como a restauração da Igreja segundo o seu modelo original no livro de Atos dos Apóstolos. David Kornfield, da Sepal, declarou:

Notamos que Deus está produzindo um novo mover do Seu Espírito no seio da Igreja brasileira, à medida que nos aproximamos de um novo milênio. Esse mover do Espírito é tão grande que algumas pessoas o entendem como uma Segunda Reforma. A primeira reforma, deflagrada por Martinho Lutero, tinha a ver com a justificação pela fé e com a salvação individual. A Segunda Reforma celebra e desenvolve a alegria de sermos salvos a nível coletivo; salvos para, reciprocamente, vivenciarmos a alegria da vida em Cristo.6

César Castellanos confirma tal exclusivismo ao declarar:

A frutificação neste milênio será tão incalculável, que a colheita só poderá ser alcançada por aquelas igrejas que tenham entrado na visão celular. Não há alternativa: a igreja celular é a igreja do século XXI.7

Nem certos movimentos e líderes de Deus no passado escapam dos ataques do G 12. Valnice Milhomens denomina a Igreja da época do imperador romano, Constantino, de “igreja política”, dizendo que Constantino relegou oficialmente o vinho novo aos odres velhos das catedrais. Sobre a Igreja Reformada, ela diz que Lutero reformou o vinho (teologia), mas o derramou novamente nos odres velhos. Para ela, o movimento de avivamento procurou reavivar o vinho dentro dos odres velhos. Os pentecostais e os carismáticos derramaram o vinho do Espírito Santo dentro dos odres velhos. Quanto a Igreja em Células, sua opinião é de que Deus está recriando modelos de comunidade de odres novos que preservem o vinho novo em odres novos.8

Não é a primeira vez que um surge um grupo ou movimento religioso dizendo ser a única e última solução de Deus para o mundo. Não vou mencionar aqui as diversas seitas que já fizeram isso. Mesmo dentro do mundo evangélico, já surgiram vários grupos agindo da mesma forma. Lembro-me de quando morei nos Estados Unidos, estava em voga o Shepherding Movement (Movimento do Pastoreio), que ensinava um forma de discipulado onde cada novo membro no grupo tinha um líder espiritual, um discipulador, a quem prestava contas de tudo em sua vida. As críticas contra as igrejas eram bem hostis e o movimento também se considerava a última solução de Deus para o mundo. Mais tarde, muitos de seus líderes reconheceram que estavam errados e pediram perdão, publicamente, pelos danos provocados a muita gente.

Lembro-me de que aqui no Brasil, na década de 80, surgiu um movimento promovido por várias comunidades denominado Novo Nascimento. Sua ênfase era de que a pessoa, uma vez convertida, não pecaria mais. E de novo, os testemunhos apresentados nesses movimentos eram muito parecidos com os de hoje do G 12: “Eu fui membro (ou pastor) de tal igreja, por tantos anos e não era salvo. Só depois que fiz o G 12 (ou os Encontros) é que recebi a vida eterna”. Ora, isso é negar um trabalho da graça já realizado anteriormente na vida da pessoa.

VENTOS DE DOUTRINA

O G 12 tem sido grandemente influenciado por vários líderes da Confissão Positiva (Teologia da Prosperidade) – entre eles, Kenneth Hagin. Um dos exemplos é o emprego do termo rhema. Na língua grega, há dois termos para o vocábulo “palavra”: logos e rhema. Como os pregadores da Confissão Positiva, vários líderes do G 12 (entre os quais César Castellanos e Valnice Milhomens) fazem um alarde sobre uma suposta diferença entre esses dois termos. Rhema, dizem eles, é a palavra que os crentes usam para decretar ou declarar. É o “abracadabra”. Já logos, é a palavra de revelação, mística, direta, que Deus fala aos iniciados. O termo pode referir-se também à Bíblia.

Há alguns anos, conversei com Dr. Russell Shedd sobre esse assunto e ele me disse que o apóstolo Pedro não fez distinção entre esses dois termos quando escreveu 1 Pedro 1.23-25. Por favor, veja a seguir:

v. 23: pois fostes regenerados. Não de semente corruptível, mas de incorruptível, mediante a palavra (logos) de Deus, a qual vive e é permanente.

v. 24: Pois toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva: seca-se a erva, e cai a sua flor;

v. 25: a palavra (rhema) do Senhor, porém, permanece eternamente. Ora, esta é a palavra (rhema) que vos foi evangelizada.

O G 12 deixa muito a desejar no que se refere ao discernimento doutrinário, pois tem sido grandemente influenciado pelos ensinos anômalos de Peter Wagner e de outros na área de batalha espiritual. Peter Wagner é professor da Escola de Missões do Seminário Fuller na Califórnia, Estados Unidos. Entretanto, seus escritos sobre guerra espiritual, como também os de Rebeca Brown, são inaceitáveis à luz da Bíblia.

O G 12 não será o último vento de doutrina a invadir o arraial evangélico. Seus líderes atuais já abraçaram outros modismos no passado, e certamente abraçarão outros que virão. Por esta razão, deixamos aqui um alerta ao povo de Deus: Todo líder, igreja ou ministério que se abre para um vento de doutrina, um modismo doutrinário, ou uma aberração teológica, estará sempre aberto para a próxima onda, quando aquela já arrefeceu. Que Deus nos ajude a permanecermos constantes, firmes na Rocha!

NOTAS

1 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, Palavra da Fé Produções, São Paulo 1999, p. 12.

2 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, Palavra da Fé Produções, São Paulo, 1999, p. 78.

3 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, p. 107.

4 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, p. 91.

5 Apostila de Igrejas em Células, p. 55.

6 Apostila de Igrejas em Células, p. 123.

7 Castellanos, César, Sonha e Ganharás o Mundo, p. 143

8 Milhomens, Valnice, Plano Estratégico para Redenção da Nação, p. 60

Autor: Paulo Romeiro é pastor da Igreja Cristã Trindade, graduado em teologia por Gordon-Conwell Theological Seminary em Boston, Massachusetts, e doutor (Phd) em Ciências da Religião.

 

Fonte: Agir Brasil

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

dezembro 14, 2007 at 10:33 am 2 comentários

O amor, o regulador dos dons espirituais

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“Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine”( 1Co 13.1). Assim se expressou o apóstolo Paulo aos Coríntios quando falava a respeito dos dons espirituais; e nesse verso há um princípio muito importante no pentecostalismo: o amor é o regulador dos dons espirituais (pneumatikos).   

O fruto do Espírito disciplina o uso dos dons, ele não nasce maduro no neo-converso, mas se desenvolve na vida do cristão. O fruto habilita o ser humano imperfeito a falar, agir e ser como Cristo. Por esse motivo é de vital importância naquele que busca a Cristo e o seu poder pentecostal. Enquanto isso, os dons espirituais nascem perfeitos, mas não estão relacionados ao caráter do crente , e si a capacitação espiritual para a edificação da igreja e proclamação do evangelho. Quando aos dons e ao fruto do Espírito é preciso equilíbrio. “Deus usou o apóstolo Paulo para, na primeira epístola aos coríntios, escrever os capítulos 12,13 e 14 a fim de acentuar a importância de equilíbrio, decência e ordem na igreja quanto ao exercício dos dons espirituais. Isto se dá(…) através do predomínio do amor segundo o Espírito.”(1)

No livro Teologia Sistemática, há uma reflexão deste assunto que merece total atenção, diz o autor que: “O Fruto do Espírito é a maneira de se exercer os dons . Cada fruto vem acondicionado no amor, e qualquer dom, mesmo na sua mais plena manifestação, nada é sem o amor”. Os dons sem o amor são vazios e subjetivos. Por esse motivo os cristãos devem se submeter ao controle do Espírito Santo par que o Fruto do Espírito possa amadurecer em nossas vidas. É preciso nos preocuparmos com um caráter semelhante ao de cristo para que possamos exercer os dons sem falsidade e com verdadeira espiritualidade.

01. O propósito dos dons e do amor  

 Disse Paulo: ” O que profetiza edifica a igreja” (1Co 14.4b). O propósito principal dos dons é a edificação do corpo de Cristo, não é promoção pessoal, aquisição de poder político social ou o controle sobre a vida do próximo. Sem o amor, o portador dos dons correrá de modo contrário a edificação da igreja, a sua motivação sempre será a sua auto-promoção. O amor “não busca seus propios interesses” (1Co 13.5b), por esse motivo o crente amoroso usará seus dons para a edificação do seu irmão. Sem o amor os dons espirituais não “podem cumprir o propósito de Deus”.(3) Por essa razão muitos estão se enganando, buscando o “poder ” do alto para oprimir o próximo, isso não vem de Deus. “Qualquer atividade dentro da igreja só terá valor se estiver relacionada como o todo. O trabalho do corpo como um todo é o que importa!” (4). Portanto: “Faça-se tudo para a edificação”.(1Co 14.26).   

02. O uso dos dons e o amor 

“Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetiza e não proibais falar línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem.” (1Co 14.39-40)Este versículo é muito conhecido , porém, pouco praticado. Hoje em dia há uma verdadeira apologia à desordem no culto, contrariando o que está escrito na Bíblia.    O culto dirigido sem amor será cheio de aberrações, onde o centro das atenções é o homem. O ágape procura cultuar a Deus e não o pregador com seus exibicionismos, pois o amor, com disse Paulo: “não se porta com indecência”(1Co 13.5a). É preciso bons modos no culto, “porque Deus não é Deus de confusão, senão de paz”; por isso, o amor não deixará a carnalidade, imaturidade e partidarismo tomar conta do culto a Deus.   

03. Dons, humildade e o amor

Em 1Co 13.4, Paulo diz que o amor “não se ensoberbece”(RC) “não se incha de orgulho” (BJ). Porém, você pode está se perguntando o porque falar de dons espirituais citando muitos trechos de 1Co 13? Como lembra o teólogo pentecostal Donald Gee, citado por Antonio Gilberto: “O grande capítulo do amor se coloca entre os dois capítulo que tratam dos dons espirituais e é parte integrante do assunto.”(5)

Portanto o portador dos dons que não tem amor rapidamente se inchará de orgulho. Quando Paulo fala aos romanos sobre os dons no capítulo 12, ele apela para a humildade no versículo três. Pois sempre haverá uma tentação para um alto-conceito de si mesmo de sua importância.

A palavra dom vem da palavra grega charisma. A palavra graça em grego vem de charis. Portanto os dons são obras da graça de Deus, assim como a salvação, não merecemos os dons do Espírito, por esse motivo ele nos concede por sua maravilhosa graça. Os dons “dão testemunho da bondade de Deus, e não da virtude de que os recebem”(6). Assim sendo, não há motivos para se orgulhar e sim para se humilhar perante um Deus tão amoroso.

O amor, como a maior expressão do Fruto do Espírito, deve está associada como os dons que partem do Espírito Santo, pois a terceira pessoa da trindade derrama, no regenerado, o amor de Deus (Rm 5.5).

 Notas:

 01) Gilberto, Antônio. O Fruto do Espírito (CPAD, 2004, pg 138) 

 02) Horton, Stanley M. Teologia Sistemática, sob uma pespectiva pentecostal (CPAD, pg 493)

 03) Stamps, Donald. Bíblia de Estudo Pentecostal (CPAD,1995, pg 1759)  

04) Lira, Eliezer. Lições Bíblicas: Salvação e Justificação 1° Trim. de 2006 (CPAD, pg 65)  

05) Gee, Donald. Concerning Spiritual Silfts (Gospel Publishing House, pg 66) cit in O Fruto do Espírito(CPAD).   

06) Horton, Stanley M. A Doutrina do Espírito Santo (CPAD, pg 225)

Autor: Gutierres Fernandes Siqueira, moderador do site.

dezembro 6, 2007 at 11:59 am 2 comentários

Pós-Pentecostalismo: Estranha moda tenta apagar as manifestações espirituais na igreja.

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Introdução

As igrejas pentecostais e neopentecostais ao redor das Américas estão vivendo uma nova e estranha tendência: o pós-pentecostalismo. Escuta-se hoje com demasiada freqüência que alguns pastores das Assembléias de Deus estão pastoreando igrejas que já não crêem em nossa pneumatologia e nem permitem a manifestação dos dons espirituais nos cultos de louvor a Deus.

Ao mesmo tempo, algumas igrejas lamentam que seus pastores não pratiquem e nem motivem os crentes a experimentar tais manifestações. Enquanto as notícias de deterioração na adoração pentecostal não sejam novas – ainda nos anos 20, alguns líderes pentecostais estavam advertindo sobre uma possível declinação em nosso movimento – podemos estar enfrentando um novo tipo de deterioração, sendo que a de agora é ainda mais séria, que a tendência histórica, em direção à frieza e às manifestações do Espírito.

Essa nova tendência não só mostra frieza, como também nega a validade da expressão dos dons espirituais no culto. Se é assim, é hora de prestar muita atenção na nova renovação dos charismata em nossos cultos de louvor e adoração a Deus no Movimento Pentecostal. Não só o exige a nossa tradição, senão a fidelidade às Escrituras o exige, porque em termos do grego do Novo Testamento, um pentecostalismo sem a expressão dos charismata é um pentecostalismo idiotikos. Um termo tão explosivo como idiotikos precisa ser imediatamente explicado. Ao caracterizar uma forma de pentecostalismo como Idiotikos, quero usar a palavra grega idiotes e tem um significado diferente da palavra idiota em português [1].

Não quero aplicar a palavra idiota em português a nenhuma pessoa ou perspectiva religiosa em particular. O uso de idiotikos não é um epíteto, senão um incitante estímulo à reflexão.

1. Pentecostalismo idiotikos

O conceito de pentecostalismo idiotikos está baseado no texto de 1 Coríntios 14.23, no qual o apóstolo Paulo advertiu à igreja de Corinto que se todos falam em línguas ao mesmo tempo quando a igreja se reúne, e alguns apistoi e idiotai (como descreve o texto em  grego) entram ao culto, pensariam que os membros da igreja estavam loucos.

Para entender o ponto de vista de Paulo nessa passagem, é crucial entender quem eram os apistoi e idiotai [2]. Apistoi claramente refere-se aos não crentes, enquanto a versão de Almeida Revista e Corrigida traduz idiotai como indouto [3]. Esta tradução se enriquece ao compará-la com a definição provida no léxico mais destacado do grego do Novo Testamento: O Greek-English Lexicon of the New Testament and Other Early Christian Literature (Léxico grego-inglês do Novo Testamento e outras literaturas cristãs primitivas – tradução livre), editado por Frederick Danker, oferece a idéia de “leigo, amador” (aquele que não tem perícia)  para a primeira definição de idiotes [4].

a) A idéia da palavra laico nessa definição do léxico não tem a intenção de expressar a divisão religiosa entre os leigos e clérigos, senão enfatizar a perícia sobre a ignorância numa variedade de contextos. Em outras palavras, essa definição está de acordo com a versão Revista e Corrigida, que traduz idiotai como indouto, aquele que tem falta de instrução nos dons espirituais.

b) Um segundo significado oferecido por Danker cabe exatamente no contexto de 1 Coríntios. Especificamente na discussão de 1 Coríntios 14.23, o léxico declara que “os idiotai não são nem similares aos apistoi, nem são cristãos completos. Obviamente, estão entre os dois grupos como um tipo de prosélito ou catecúmeno” [5].

Na discussão dessa segunda definição, o léxico aduz referências da literatura grega extra-bíblica para mostrar que o termo foi usado em contextos religiosos para referir-se a pessoas que assistiam a reuniões de um religião em particular, porém não haviam chegado a ser membros formais e completos.

Um possível exemplo de tais idiotai eram os discípulos de Éfeso que são mencionados em Atos 19.1-7, os quais haviam crido em Jesus Cristo, foram batizados no arrependimento, segundo ensinava João Batista, mas não haviam sido batizados em nome de Jesus e nem sequer haviam ouvido acerca do dons espirituais no culto cristão. Paulo se preocupa em que os crentes novatos, à semelhança dos incrédulos, pudessem se confundir pelo uso desordenado do dom de línguas na adoração congregacional.

2. Modelos de crescimento da igreja

Esta preocupação paulina pelo bem-estar dos novos crentes no faz voltar à nossa situação contemporânea relativa às igrejas pós-pentecostais. A popularidade entre as igrejas pentecostais e neopentecostais de seguir modelos para o crescimento da igreja, que se denominam “sensíveis aos que buscam” e “guiado por propósito”, os quais vem sendo propostos por pastores de mega-igrejas dos Estados Unidos, tem tido muita influencia na América Latina.

 Devido a isso, alguns pastores tem decidido rechaçar o uso dos dons carismáticos na adoração corporativa sob o pretexto de não ofender aos “que estão buscando” [6]. Entretanto, essa estratégia claramente ignora as intenções do apóstolo Paulo nessa passagem sob discussão.

Os missionários do princípio do século 20 foram confrontados com uma pergunta-chave quando Roland Allen publicou um tema intitulado Missionary Methods, St. Paul or Our? (Métodos missionários: De São Paulo ou os nossos?). Hoje, os pastores da América Latina têm de considerar se é melhor usar os métodos modernos de crescimento da igreja, ou os que foram ensinados e moldados pelo apóstolo Paulo na Palavra de Deus.

O apóstolo faz óbvio que não está contra a manifestação dos dons espirituais em público por meio do argumento estabelecido em 1 Coríntios 14. Depois de advertir a igreja a não deixar que os dons sejam abusados, e depois de advertir que o abuso dos dons de línguas poderia fazer com que os apistoi e os idiotai pensassem que a igreja havia se tornado louca, ele resume seu argumento dizendo o seguinte: “Que fareis, pois, irmãos? Quando vos ajuntais, cada um de vos tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação”, 1 Co 14.26.

Desta conclusão, é claro que nunca foi a intenção do apóstolo Paulo eliminar os dons espirituais do culto público, senão protegê-los do abuso para que pudessem exercer seu pleno poder de edificação para os crentes e convicção de pecado para os pecadores. 

2.1. O pólo oposto de idiotikos

É importante considerar o pólo oposto da adoração idiotikos. Esse pólo não é a adoração pneumatikos (espiritual) que o Novo Testamento propõe e que mantêm a posição central e permite a expressão dos carismata. Pois bem, o oposto da adoração idiotikos é a adoração manikos. Essa palavra que Paulo usa ao dizer que os apistoi e idiotai pensaram que a igreja havia enlouquecido, está relacionada com a palavra maníaco em Espanhol e, louco, insensato, néscio, em Português. 

Os que criticam o abuso dos carismata têm feito bem em chamar tal adoração “carismania”. É justamente a forma maníaca de expressão carismática que o apóstolo Paulo se opõe. Entretanto, enquanto é bom nos unirmos a Paulo em oposição à adoração maniankos, seria um grave erro proibir totalmente o exercício dos carismata. O verdadeiro louvor pentecostal-carismático se encontra no equilíbrio.

3. Quem determina o modelo?

Em vista do apoio do apóstolo Paulo ao carismata no culto público da igreja, a pergunta que se faz é: “Quem determinará o que se permite em nossos cultos de adoração? Serão determinados pela Palavra de Deus ou por apistoi e idiotai? Se são determinados pelo Palavra, teremos que assegurar que a adoração é fiel a Deus (em vez de ser apistos – o infiel) e bem instruídos pelas Escrituras.

Enquanto não haja lugar para o abuso indouto dos dons espirituais na adoração cristã, este fato só obriga aos pastores a instruir suas congregações cautelosamente no uso dos dons. Se há dito com freqüência que os  pentecostais se escandalizam mais pelo uso dos dons em seus cultos do que seus convidados incrédulos ou não pentecostais. 

Parece-nos que tal escândalo surge de um dos dois motivos: vergonha que os pentecostais sentem pelos dons (o que é inaceitável), e vergonha por manifestações indoutas. Em qualquer caso, a resposta é mais instrução, nunca o rechaçar dos dons. Por outro lado, se permitirmos que a adoração cristã seja determinada pelos apistoi e idiotai, devemos delinear bem as implicações de tal decisão. 

a) Primeiro de tudo, deixaremos que incrédulos definam por nós o que  podemos crer e praticar. Seguramente isto é a fórmula para o fracasso     em termos de convencer aos povos que temos uma nova realidade espiritual para lhes oferecer. Tal estratégia é apistos ou infiel ao Deus que nos tem abençoado com sua graça em forma concreta (a palavra carisma vem da palavra caris ou graça). 

b) Segundo, tal adoração será idiotikos, sendo determinada pelos idiotai. A adoração idiotikos reflete uma decisão com o propósito de recusar a instruir os novos crentes e incrédulos acerca do uso bíblicos dos dons espirituais.

Recentemente escutei um pastor da Assembléia de Deus falar de uma nova congregação que inaugurou. Aproximadamente 300 pessoas haviam sido acrescentadas à sua congregação em um ano. Delas, 150 eram novos crentes. Ele explicou que não queria dons carismáticos em sua igreja, já que a maioria dos seus membros era proveniente de outras igrejas evangélicas não pentecostais. Ele estava preocupado na possibilidade deles estarem ofendidos pela prática dos dons espirituais e na hipótese dos novos crentes estarem confusos. A resposta ante ao seu dilema aparentemente foi deixar todos no estado em que se encontravam quando migraram à sua igreja. Esta decisão é chamada apropriadamente idiotikos porque põe a posição doutrinal dos que não têm dons nem instrução no controle da igreja em lugar dos ensinos de Paulo.

Outro aspecto crucial do louvor idiotikos é que é uma decisão consciente de apoiarmos em nossas próprias habilidades em lugar do poder de Deus. A palavra idiotes é certamente relacionada com a palavra grega idios, que significa  “por si mesma” ou “por conta própria”. O conceito básico de idiotes é que tal pessoa está trabalhando por si só. Não tem sido instruída por seus líderes, mas deixada a seu próprio entendimento. Não está cheio do Espírito, senão está trabalhando em seu próprio esforço.

4. Por que um modelo pentecostal?

Ao final de seu argumento acerca dos pneumaikos (dons espirituais), Paulo concluiu o seguinte: “Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor. Mas se alguém ignora isto, que ignore. Portanto, irmãos, procurai, com zelo, profetizar, e não proibas falar em línguas. Mas faça-se tudo decentemente e com ordem”, 1 Co 14.37-40.

Paulo nos segue dizendo o mesmo no dia de hoje por meio das Escrituras. O exercício ordenado de todos os dons espirituais é necessário para a edificação e o fortalecimento da igreja (1Co 14.26). Afinal de contas, o que poderia ser mais edificante aos que estão buscando a Deus do que o dar a eles a oportunidade de serem tocados pelo poder do Deus que eles estão invocando, expressado através dos dons do Espírito? Paulo dirigiu a mesma pergunta em 1 Coríntios 14.24-25: “Mas, se todos profetizarem, e algum indouto ou infiel entrar, de todos é convencido, de todos é julgado. Portanto, os segredos do seu coração ficarão manifestos, e assim, lançando- se sobre o seu rosto, adorará a Deus, publicando que Deus está verdadeiramente entre vós”.

Se as promessas das Escrituras não são suficientes, temos todo um século de experiência pentecostal, combinado estreitamente com a maior onda de crescimento que o mundo tem visto em toda a história. De fato, temos um crescimento de igreja que excede ao da Igreja Primitiva, registrado no livro de Atos – para nos convencer de que devemos confiar no poder de Deus em vez de nosso próprio juízo e habilidade.

O pós-pentecostalismo, corresponde ao pentecostalismo idiotikos, ao ir contra a corrente do ensino bíblico, também vai contra a corrente deste período de maior êxito do crescimento da igreja. Ao mesmo tempo que milhões de incrédulos (apistoi) e novos crentes (idiotai) estão dirigindo seus barcos ao portos de igrejas pentecostais e neopentecostais, os pós-pentecostais estão fixando um curso que os conduzirá a mar aberto, contra o mar e o vento, entrando na tormenta. O futuro dos tais não parece ser tão brilhante. Pós-pentecostalismo? Que não seja assim.

 Notas

1) A palavra idiotikos não ocorre no texto grego do NT, mas é um adjetivo grego baseado na Palavra idiotes, que ocorre. 

2) Idiotai é a forma plural do substantivo idiotes.

3) “Se, pois, a igreja se reúne num só lugar, e todos e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão porventura que estais loucos?” (Revista e Atualizada no Brasil).

4) BAUER, Walter, ARNDT, Wiliam F. E GRINGRICH, Wilbur F. A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian Literature, 2ª Ed., Ed. Frederick Wiliam Danker (Chicago: University of Chicago Press, 1979), 370.

5) BAUER, Walter, ARNDT, Wiliam F. e GRINGRICH, Wilbur F. A Greek-English lexicon of the New Testament and other early Christian Literature, 2ª Ed., Ed. Frederick Wiliam Danker (Chicago: University of Chicago Press, 1979), 370.

6) Quero claramente afirmar a validade de todos os esforços para alcançar os incrédulos para Cristo. Meus comentários aqui não devem ser entendidos como uma crítica aos evangélicos que estão tentando ser fiel a Cristo em alcançar os não crentes. Mas procuro desafiar suposições feitas por pastores pentecostais que pensam que usar os dons espirituais em louvor resultará em evangelismo menos eficaz.

Glossário de termos

  

Os seguintes termos para a classificação das diferentes formas de adoração pentecostal    usados neste artigo se baseiam nas palavras gregas representadas em 1 Coríntios 14.

  

Pneumatikos: Adoração que é guiada e definida pelo Espírito Santo, incluindo a manifestação pública dos dons espirituais.

  

Idiotikos: Adoração que é determinada e definida pelos critérios de pessoas que não entendem e não crêem nos dons espirituais.

  

Maniko: Adoração caracterizada por manifestações maníacas que distorcem e  abusam dos dons espirituais.

  

Charismata:   Os dons do Espírito Santo, tais como línguas, milagres, curas, profecias etc.

Autor:

Joseph L. Castleberry é deão acadêmico do Seminário Teológico das Assembléias de Deus em Springfield, Missouri (EUA). Publicado na Revista Obreiro (CPAD).

dezembro 6, 2007 at 11:16 am Deixe um comentário

Entrevista com Paulo Romeiro

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Apologista e o maior especialista em modismos teológicos no Brasil, alerta sobre movimentos religiosos que distorcem o conteúdo do Evangelho e como tratar vítimas dessas distorções.

Paulo Romeiro, 53 anos, é um dos maiores nomes da apologética cristã no Brasil. Casado com a psicóloga Simone Romeiro e pai de Alyne, 18, e Adryel, 10, ele se converteu a Cristo no Brasil, em 1971, na Assembléia de Deus, e foi ordenado pastor em 1984, pela Assembléia de Deus norte-americana do Distrito Sul da Califórnia, Estados Unidos, onde morou por sete anos.

Formado em Jornalismo, mestre em Teologia e doutor em Ciência da Religião, Romeiro hoje pastoreia a Igreja Cristã Trindade, em São Paulo, uma igreja independente fundada por ele, mas com a mesma Teologia das Assembléias de Deus.

“As revistas de Escola Dominical da minha igreja são da CPAD”, enfatiza o líder, que tem livre trânsito na denominação.

Romeiro foi um dos fundadores do Instituto Cristão de Pesquisas (ICP), de onde saiu para fundar e dirigir a Agência de Informações Religiosas (Agir). Autor de quatro livros, um deles publicado pela CPAD (Desmascarando as seitas, com co-autoria do pastor Natanel Rinaldi), ele fala nesta entrevista sobre os estragos provocados no Brasil pelos recentes modismos teológicos e como tratar os crentes que encontram-se decepcionados com a igreja devido a distorções pregadas em muitos lugares.

RF – Quais foram os principais modismos teológicos dos últimos tempos que causaram maiores estragos ao povo de Deus no Brasil?

PR – A Teologia da Prosperidade é um, depois outras doutrinas que foram aparecendo como a Quebra de Maldição Hereditária, o G-12 e as distorções na área de batalha espiritual, porque a ênfase passa a ser nos demônios, em espíritos territoriais. São várias as distorções na área de batalha espiritual. Vimos também os abusos na área dos milagres. E como combater isso? Só existe um meio: com a Bíblia. É preciso voltar aos fundamentos, ao básico, à Palavra de Deus.

RF – Recentemente entrevistamos o professor James Packer, que nos disse que a Teologia da Prosperidade já não tem força nos EUA como antes. O senhor acredita que a Teologia da Prosperidade ainda terá muito fôlego no Brasil e na América Latina?

PR – Ela terá por causa da tirania do mercado. Ela precisa de dinheiro para sobreviver e as igrejas que pregam a Teologia da Prosperidade conseguem arregimentar a multidão. Essa doutrina prega o que as pessoas querem ouvir. Ela oferece uma ajuda imediata para problemas imediatos. “Você, que não consegue casar, vem aqui e vou lhe arranjar um parceiro”. Ou “Você, que não consegue prosperar, faz a corrente aqui e vai prosperar”.

RF – Quem é o culpado pela ênfase nas soluções imediatas para os problemas?

PR – Esse é o grande problema. Muitas igrejas não pregam mais a Salvação. Elas pregam a solução de problemas. Mudaram o foco. Elas não têm, por exemplo, um trabalho a médio e longo prazo com os seus membros, porque aí precisam falar de vida eterna. Você já viu, por exemplo, essas igrejas falarem sobre Céu, Santificação e Volta de Cristo? Tem pregador que nem quer que Jesus volte, porque ele está tão bem na vida hoje que a Volta de Cristo irá estragar os planos dele.

RF – O senhor tem falado ultimamente que tem aumentado no Brasil o número de crentes desiludidos e frustrados com a fé cristã por terem acreditado na Teologia da Prosperidade. Como tratar os crentes nessa situação?

PR – Os pesquisadores e sociólogos chamam isso de “trânsito religioso”. Há uma igreja em trânsito hoje. São milhares e milhares de crentes, talvez milhões, que não conseguem mais parar em igreja nenhuma. Eles transitam. Qual a igreja que oferece a melhor proposta ou o melhor entretenimento? Qual a igreja que vai oferecer o melhor show daquele fim de semana? Converti-me ao Evangelho em 1971 e, naquela época, nunca esperava que um dia algumas denominações chamassem um culto evangélico de show. Agora tudo é show. Há igrejas que só funcionam como shows. É a forma de prender a multidão. “Olha, hoje à noite tem fulano de tal, amanhã tem beltrano e depois aquele outro”, e não pára. Porque, se parar, o povo vai embora.

RF – E como tratar um crente assim?

PR – É preciso ensino da Palavra, porque as pessoas que saem dessas igrejas chegam cheias de ensinos distorcidos. Elas chegam falando, por exemplo: “Fulano foi ungido pastor”. Mas na Bíblia não existe unção para pastor. Na Bíblia as pessoas eram ordenadas ao ministério por imposição de mãos, e não ungidas, e a unção não é privilégio de um grupo. Eles vêm cheios desses cacoetes “Eu declaro”, “Eu reivindico”, “Eu não aceito”, “Eu determino”, “Eu decreto”, chegam com distorções doutrinárias. Aí você tem que ensinar à pessoa que o fato de ela estar em crise não quer dizer que é amaldiçoada. Nunca vi isso. Essa coisa de determinar tudo é falta de ensino. Terão também que repensar a questão do sofrimento, que faz parte da Teologia. Muitos pensam que não existe sofrimento para o crente. O crente não pode adoecer, sofrer, ter dívidas etc. Às vezes fico pensando: até que ponto a pessoa pode acreditar na aguinha em cima do rádio, na cruz pregada na parede, nos sabonetes ungidos…batismo no Espírito Santo com pó de ouro! Há ainda o tapete ungido, a campanha para os adeptos ganharem na loteria etc. O ser humano tem a habilidade de crer em qualquer coisa. O discipulado é também muito importante. Esses crentes passam a viver uma crise de conversão. As igrejas por onde passaram são fortes na sua ação evangelizadora, atraem o povo, mas são fracas na sua ação discipuladora. Elas não conseguem mais discipular. Porque, para discipular, gasta-se tempo, envolvimento, e isso não existe mais. Além disso, muitos pregadores de hoje vivem no avião, falam com as pessoas da tevê, não têm mais relacionamentos, a não ser com empresários. Precisamos ajudar as pessoas a crescerem para que possam ajudar outras depois. Uma coisa muito importante ainda é o acolhimento. É preciso acolher essas pessoas, não olhá-las com suspeitas, porque, na verdade, elas já se decepcionaram onde estiveram.

RF – O Movimento Pentecostal foi, sem dúvida, um dos últimos avivamentos que a igreja experimentou nos últimos séculos, afetando o crescimento e a História da Igreja no mundo. No final do século 20, uma versão diferente desse movimento surgiu, com modismos sem base bíblica. Deixando de lado esses desvios, quais os benefícios do Movimento Pentecostal para a Igreja, especialmente no Brasil?

PR – A grande contribuição do Movimento Pentecostal foi a evangelização. Ele é o maior movimento evangélico do mundo. Não tem maior. Mas não foi só a AD, outras igrejas também enfatizavam a evangelização. Hoje, porém, infelizmente, muitas igrejas estão substituindo a evangelização pela competição, pelo proselitismo. Tem muito mais crente mudando de igreja do que pecador aceitando a Cristo. Há igrejas que crescem hoje por competição e não pela evangelização, e com isso aí o Reino de Deus não cresce. Só se muda o peixe do aquário.

RF – O que é preciso para se fazer apologética cristã saudável?

PR – Principalmente equilíbrio. Há pessoas que são apologistas, mas exageradas, sensacionalistas. É preciso amor. Vejo muitos apologistas hostis, atacando as pessoas. Não gosto nem mais de usar o termo seita ou heresia. Acho muito pejorativo. Hoje falo de fenômeno religioso ou movimentos religiosos. A apologética precisa aprender a construir pontes e não levantar muros. Se ela já chega atirando, o pessoal corre. Os apologistas precisam aprender a dialogar. Não precisa ser hostil. A Bíblia diz: “Falai a verdade com amor”. Além disso, a informação a ser transmitida deve ser apurada.

Entrevista cedida a:

DANIEL, Silas. Revista RESPOSTA FIEL – Ano Ano 5, nº 17, set/out/nov de 2005, p.10-12.

dezembro 5, 2007 at 11:44 am 8 comentários


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